Familia Dimas 22.03.2012
O tempo e Alqueva vieram para ficar nas cogitações de Adriana Dimas. Quando a encontrámos pela primeira vez, em Março de 2011, vimos a horticultora de Beja contemplar, triste e abatida, o produto do seu trabalho destruído pelo excesso de chuva, no que restava das suas estufas que foi obrigada a vender.
Tinha próxima, a uma distância de apenas 100 metros, a tão almejada água de Alqueva. Mas não chegara a horas de salvar as culturas, vendo terminar assim de forma abrupta a derradeira tentativa de ter o seu próprio negócio.
Um ano depois, o sol quente brilha como um tição no céu limpo do Alentejo. Já “esturricou” os pastos e secou reservas de água. Os animais “estão passando fome” e as terras ressequidas. Alqueva continua ali ao lado.
Este cenário de escassez e falta de humidade veio retardar o regresso de Adriana, mulher dos sete ofícios, à plantação das couves, das alfaces, dos bróculos. Mas ela recusa a despreocupação como aquelas pessoas que “não têm uma seara às costas” para tratar.
Nascida no seio de uma família muito pobre, Adriana cedo aprendeu que “a vida é feita por etapas e com objectivos”. É a sina de quem não nasceu em berço de ouro. “Vou tocando a vida para a frente. Uns dias melhor, outros pior...”, conta-nos ela, sabendo que o destino lhe reserva ter de trabalhar seja onde for, “desde que seja uma maneira honesta de ganhar a vida”.
Pensou ir para Lisboa trabalhar — pôr à prova a sua capacidade de superar as circunstâncias. E recusou “sempre” estender a mão ao fundo de desemprego. Não foi preciso. “Encontrei uns patrões que são umas pessoas extraordinárias”, na unidade de agro-turismo às portas de Beja onde agora trabalha, e que a aconselharam a não vender as máquinas e equipamentos agrícolas que lhe ficaram da produção de hortícolas. “Eles sabem como gosto do cultivo.”
Mas o tempo ainda não se pôs de feição e o anseio pela água leva-a até a acordar durante a noite, sonhando talvez: “Está chovendo”. Levanta-se num ápice — é apenas o vento abanando a ramada das árvores. Quem a conhece não estranha o sobressalto: o que Adriana quer mesmo é pôr as estufas a produzir. “Sinto-me mais leve”, diz-nos com um rasgado sorriso, passado que foi um ano daqueles em que “já não sabia rir”.
Sentada, mãos no regaço, cabelo apanhado atrás para não ficar mal no vídeo, Adriana recebe-nos na casa onde habita na herdade do Monte da Diabrória, o seu local de trabalho. Impera a limpeza e um “ódio” ao pó e ao desarrumo. “Ser pobre não significa ser-se porca”, sentencia num repentismo característico nos alentejanos.
Mas tanta determinação também contempla momentos de fraqueza, quando as dificuldades marcam vez. As dores da alma e do corpo intensificam-se e ela, por vezes, julga que nada à sua volta parece querer mudar. No seu caso, é quando o desespero se quer aninhar que mais chega “a hora de provar o que valemos”. São precisas novas certezas. Adriana “só” tem 48 anos e “muita vida para viver”. Trabalhando.