Um Ano na Crise

Família Dimas - Textos de Carlos Dias

Público
  1. Família Dimas, Beja, 24.10.2011

    Adriana Dimas termina 2011 a trabalhar e com as dívidas pagas, um panorama muito diferente daquele que viveu no início do ano, em que esteve "à beirinha de uma depressão". Em Janeiro fora confrontada com a inevitabilidade de cessar a actividade hortícola, por razões associadas a um mau ano agrícola. Ficaram os encargos, que foi satisfazendo ao longo do ano que agora termina.

    Quando, em Março, o PÚBLICO começou a acompanhá-la, deparou com uma mulher que dizia não saber o que fazer da vida. Algumas semanas depois trabalhava como ajudante de cozinha, até que encontrou outra ocupação numa empresa de agro-turismo. "Agora faço camas e varro o chão", diz com uma confiança renovada.

    A quadra natalícia "foi muito trabalhosa", recorda. A unidade de agro-turismo nos arredores de Beja onde trabalha estava cheia de hóspedes, para quem fez doce de tomate, abóbora e meloa. Queriam comprar para levar, mas Adriana fê-los em conta e apenas para serem consumidos durante a estadia e às refeições. O mesmo aconteceu com o pão alentejano, que cozeu recorrendo à tradição.

    O dia-a-dia desta mulher que não desiste de voltar à horticultura é preenchido pela necessidade incessante de fazer coisas novas. "Sinto uma enorme alegria de viver e de estar onde estou", confidencia Adriana, que se recusa a olhar o próximo ano com a apreensão que diz ser comum nas pessoas com quem fala ou convive.

    Em Fevereiro, vai arrancar a produção nas estufas. A tubagem metálica está montada e o terreno devidamente adubado. Falta instalar a tela plástica e a bomba de água, para começar com a produção das verduras tendo em vista a promoção de cabazes que vai "entregar a casa das pessoas". Adriana acredita no negócio, numa altura em que até o Presidente da República apela ao regresso dos portugueses à terra.

    "Cada um tem de fazer pela própria vida", sentencia ela, que sempre recusou pedir ajuda à Segurança Social mas não esquece os apoios que recebeu "de muita gente amiga nas más horas", sobretudo em Aljustrel, onde ia vender produtos na sua carrinha só para não se "deixar ir abaixo".

    Agora até as folgas são passadas com vontade de que o próximo dia chegue para ir trabalhar. A conversa estimula-lhe o regresso constante às recordações. "Há 20 anos, deixei de tomar conta de uma manada de vacas e fui servir para Lisboa", para casa de uma família abastada, a quem ia levar os filhos ao Liceu Francês. Teve de aprender a viver numa grande cidade. E resultou como experiência. "Fazer pela vida só faz bem à mente e à alma."

  2. Família Dimas, Beja, 24.10.2011

    “Qual é o segredo?”, repete Adriana Dimas quando lhe colocamos a questão. Cria porcos, galinhas, patos, borregos, uma cabra e um chibito e mata-os para ter carne. Tratar da bicharada dá trabalho “e muita sujeira ”, mas tem um peso substancial na economia caseira. “Tenho mais de 100 patos e dezenas de galinhas.” Logo, não compra ovos nem frangos, o que sempre dá jeito na hora de fazer contas ao orçamento mensal.

    Adriana recebe 550 euros de ordenado por mês no turismo rural onde agora trabalha e é daqui que tem pago as suas dívidas. Do encargo que tinha em falta com uma empresa fornecedora de plantas, 4700 euros, “já só devo 800”, e também já conseguiu saldar tudo o que devia à Segurança Social. Agora já pode deslocar-se aos serviços do Ministério da Agricultura em Beja para reclamar o subsídio de gasóleo a que tem direito.

    A auto-suficiência em alimentação desta agricultora não se fica pela criação de animais. Adriana conta que o dinheiro que gastaria na compra de um pão tipicamente alentejano (1,60 euros) “quase dá para comprar cinco quilos de farinha, e com ela faço seis pães”. Depois ainda tem a horta, onde vai buscar a salsa, os coentros, as hortaliças...

    Neste juntar migalha a migalha, Adriana Dimas priva-se daquilo que eufemisticamente se passou a designar de “qualidade de vida”. “Não vou ao McDonald’s, não vou jantar fora e, em vez de ir à cabeleireira uma vez por semana, vou uma vez por mês. E é quando é!”

  3. Famíla Dimas, Beja, 30.03.2011

    Adriana Dimas nunca recebeu o 13.º mês, mas sabe que não se vai safar da sobretaxa extraordinária. Pelos dados a que vai tendo acesso, concluiu que lhe será descontada alguma coisa do que recebe mensalmente — 650 euros — pelo trabalho que faz por conta de outrem.

    A produtora de hortícolas não esconde a sua preocupação pelas consequências da medida. Está rodeada de cinco netos. E já começou a fazer as contas à vida das duas filhas.

    “A gente acaba por ter de se resignar”, frisa Adriana Dimas, consciente de que o “garrote” que está a ser imposto “não permite fugir para outro lado”. O que mais a preocupa é o ambiente social em si. “ O país vai ter condições para produzir?”, interroga-se. A leitura que faz da realidade que a envolve diz-lhe que “ainda temos um restinho”. Mas que dentro de muito pouco tempo “não vai haver nada”.

    Está na expectativa de saber em que medida o apelo do Presidente da República, Cavaco Silva, para o consumo de produtos nacionais vai ter consequências práticas. “Eu cá estou pronto a dar o meu melhor”, desafia Adriana Dimas, disposta a arrancar com a produção de hortícolas “já”.

  4. Venha o que vier, aconteça o que acontecer, Adriana Dimas não consegue afastar do seu pensamento o regresso ao campo, às suas culturas — afinal, o que sempre quis fazer.

    Apesar de ter vendido as estufas, manteve na sua posse um volumoso e caro equipamento que é necessário para as culturas de hortícolas. Levou consigo, para o Monte da Diabrória, onde agora trabalha, o sistema de rega, as bombas de água, tractores e até uma câmara frigorífica. São mais de 100 mil euros investidos em equipamentos diversos, que Adriana quer manter na sua posse. O futuro imediato, diz, “é de esperança”. Alqueva “tem de funcionar”. E o país tem muita dependência alimentar, que o Alentejo pode ajudar a resolver.

    Adriana conta já com um apoio importante. Ondina Páscoa, proprietária do monte que agora lhe dá emprego, revela que pretende “inovar” a agricultura que se faz na herdade. São mais de 300 hectares de terras de boa qualidade, com uma albufeira cheia de água, a dois quilómetros do novo aeroporto e o traçado do IP8 a passar mesmo à porta. Tudo factores demasiado importantes para serem desperdiçados.

    Em vez de uma, agora são duas mulheres a fazer o que muitos homens têm relutância em fazer. Agricultura moderna, para o nosso tempo, “como dizem os políticos”, conclui Ondina Páscoa, recebendo o apoio de Adriana com um piscar de olho. Um sinal de que atrás de tempos maus, tempos bons virão?