Família Lourenço, Coimbra, 13.03.2012
Apesar de tudo, esta é uma história com final feliz. Percebi isso quando, há dias, enviei uma mensagem à Inês, lembrando-a de que tínhamos de fazer o balanço do ano, e ela avisou, também através do Facebook: “Sabes que, apesar de difícil, o ano de 2011 teve muita coisa boa também. Várias conquistas”.
A frase soava a pedido desculpas. Afinal, o trabalho era sobre a crise, e ela atrevera-se a passar ao lado da depressão nacional. Estava entusiasmada e com pouca disposição para lamentos, o que, pensava ela, poderia prejudicar o trabalho jornalístico, formatado para observar como resistiria uma família de funcionários públicos à tempestade da crise. Senti o seu ânimo como uma lufada de ar fresco que, não por acaso, chegou de muito longe, do Brasil.
Quando eu e o Ricardo Resende entrámos pela primeira vez no apartamento do José e da Clara Lourenço, nem havia a certeza de que Inês, a filha de 26 anos, iria participar nesta aventura que é expor as dificuldades privadas num jornal nacional. Foi em vésperas da manifestação da “geração à rasca”, andavam todos a trautear a música dos Deolinda (“Que parva que eu sou…) e ela não resistiu. Quis mesmo dizer que achava que era preciso fazer mais do que erguer cartazes e que, pessoalmente, já estava a tratar disso.
Com 26 anos, depois de ver amigos e colegas desempregados ou a fazer trabalhos desqualificados, precários e mal pagos, decidira pedir um empréstimo para ajudar a financiar o mestrado em Belas-Artes na Universidade Estadual de São Paulo, Brasil. José Sócrates era o primeiro-ministro, ainda havia quem acreditasse que Portugal não iria pedir ajuda externa e nenhum de nós podia imaginar, sequer, que meses mais tarde seriam os próprios governantes a desafiar os jovens a sair do país.
Na última vez que vi Inês, no Natal, já não era uma miúda. Falou na qualidade de emigrante, confiante e segura da decisão de não voltar tão cedo para Portugal. Ainda não trabalha, mas encontrou no Brasil o que aqui lhe faltou. Em Dezembro já participara em várias mostras em São Paulo, já promovera duas exposições em Portugal com o patrocínio do Ministério da Cultura brasileiro e ainda não sabia que em Fevereiro viria a ganhar uma bolsa, também brasileira, claro, para financiar o mestrado.
Está longe dos pais? Pois está. Assim como Sofia, a irmã mais velha, que há oito anos emigrou para a Dinamarca e só no final se juntou a este projecto do PÚBLICO. Clara e José não dramatizam a distância, pelo contrário. Fazem por desvalorizá-la, aproveitando todas as possibilidades de comunicação que estão ao seu alcance.
Ao longo deste ano, em que a crise se instalou sem alarde, mas com firmeza, em sua casa, tranquiliza-os que as filhas estejam bem. E a mim também. O projecto acabou, mas espero ir recebendo (boas) notícias da Inês e da Sofia. Quero acreditar que, mais ano menos ano, hão-de ter condições para regressar, com gosto, a Portugal.