Um Ano na Crise

Família Lourenço - Textos de Graça Barbosa Ribeiro

Público
  1. Filha Lourenço, Coimbra, 16.11.2011

    Sofia, de 32 anos, veio da Dinamarca. Inês, de 27, chegou do Brasil. Vieram passar o Natal e a passagem de ano com os pais, Clara e José Lourenço, e viram-se num país novo, onde a palavra emigração deixou de ser tabu.

    "Ainda há pouco uma instituição bancária anunciava produtos para "cidadãos portugueses a residir no estrangeiro", para evitar o termo. Agora descubro que sou uma emigrante, com as letras todas, e que, ainda por cima, todos querem ser como eu", brinca Sofia.

    Há um ano que não estavam juntos, pais e filhas, e a presença delas foi a única prenda que Clara e José, ambos professores, pediram neste Natal. Têm opinião própria e nem sempre coincidente, mas, desta vez, calam-se para ver o país pelos olhos das filhas.

    Sofia, com duas licenciaturas - uma em Biologia, feita em Portugal, e outra em Nutrição, tirada na Dinamarca -, emigrou há oito anos e meio. Inês, artista plástica a fazer mestrado em São Paulo, é uma novata nisto de sair de casa dos pais, mas pouco mais de um ano no Brasil é suficiente para concordar com a irmã, quando esta fala das dificuldades da emigração.

    Ambas se espantam com "o desespero" que detectam naqueles com quem têm convivido desde que chegaram. "A consciência da crise é tremenda ", avalia Sofia, que considera que "as pessoas revelam muita ingenuidade quando vêem na emigração a solução para todos os males". Têm sido contactadas por amigos que procuram ajuda para prosseguirem as respectivas vidas fora de Portugal e sentem-se na obrigação de explicar que é um caminho que não serve para todos

    "São precisas uma energia e uma resistência fora do vulgar. Trabalhei e trabalho muito, aprendi e tive de dominar uma língua muito difícil e vivi e vivo momentos muito complicados", explica Sofia. Ela já fez uma licenciatura e o mestrado na Dinamarca, já beneficiou de bolsas, já recebeu o subsídio de desemprego, já esteve sozinha, já fez amigos, já mudou de cidade e ficou só outra vez. Inês está no princípio: "De repente ficamos sem passado: as nossas referências, para os outros, não têm significado", descreve.

    Reagiram de formas diferentes à sugestão dos governantes sobre a emigração: "Terão consciência de que estão a mandar sair a massa crítica?", quer saber Sofia. Inês ficou zangada: "No Brasil olham para nós como os restos, os que sobram. Não lhes passa pela cabeça que estejam a mandar emigrar os melhores."

    Clara e José não tentam demover as filhas quando estas concluem que, apesar de tudo, não pensam regressar. Ambos adivinham "um ano muito difícil para Portugal".

  2. Filha Lourenço, Coimbra, 16.11.2011

    A prenda de José e de Clara Lourenço, neste Natal, chega de avião. Mais propriamente, em dois aviões: um traz Inês, de 26 anos, vinda do Brasil; no outro chega Sofia, cinco anos mais velha, a trabalhar na Dinamarca.

    Ambas foram levadas pela crise, na medida em que uma e outra procuraram no estrangeiro as saídas profissionais que não encontraram em Portugal. E há alguma ironia no facto de, agora, o regresso das jovens, que não se vêem há um ano, ajudar os pais a esquecerem a crise ou, pelo menos, a vivê-la com menos intensidade, no Natal e no fim de ano.

    O casal de professores preocupa-se, “naturalmente”. E segue com atenção a evolução dos acontecimentos e a cadeia de problemas que a falta de poder de compra provoca, com as lojas a fecharem e as fábricas a lançarem, também, mais gente no desemprego. Mas na sua família, em particular, este Natal não será diferente por causa da crise.

    “Não temos hábito de trocar prendas caras. Procuramos escolher alguma coisa que dê prazer a quem a dá e a quem recebe”, explica Clara. Um exemplo: no ano passado, Inês, licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, recolheu todas as molduras com fotografias existentes em casa, reciclou-as e devolveu-as aos pais, como prenda.

    E, se já era assim, este ano José e Clara preocupam-se ainda menos com as ofertas. Importante mesmo, dizem, é terem a possibilidade de voltarem a encontrar-se os quatro, na mesma casa. Inês veio recentemente a Portugal. Mas Sofia, licenciada em Biologia, já não vê o seu país desde o último Natal.

  3. Filha Lourenço, Coimbra, 16.11.2011

    “'Aduana' - alfândega, trocas, chegadas e partidas, viagem e movimento”, desfia Inês Moura, artista plástica. Joga com as ideias que se lhe soltam a partir do título da exposição que também é sua, no Museu de História Natural de Lisboa, e brinca com as circunstâncias em que volta a Portugal, depois de oito meses no Brasil. Com 26 anos, a filha de Clara e José Lourenço, de Coimbra, explica que a possibilidade de estar aqui e agora basta para mostrar por que teve de partir e por que não pensa em regressar.

    Aproximava-se a manifestação da Geração à Rasca, em Março, quando Inês Moura atravessou o oceano, rumo ao Brasil. Depois de um estágio de seis meses em São Paulo, regressava para fazer o mestrado e, principalmente, para procurar as oportunidades que o seu país lhe negava. Dizia isso, na altura; e também que não bastava cantar e erguer cartazes, e que embora também desejasse fazer uma e outra coisa, nas ruas de Lisboa, não lhe bastavam os protestos.

    O tempo – pouco tempo, afinal – deu-lhe razão. Nem oito meses passaram até Inês regressar a Portugal, há duas semanas, com o patrocínio do Ministério da Cultura Brasileiro. Veio mostrar as suas obras em duas exposições colectivas: “Aduana”, no Museu Nacional de História Natural, em Lisboa, até 27 de Novembro; e “Uma América”, nas Oficinas do Convento, em Montemor-o-Novo, desde 29 de Outubro.

    Não veio para ficar. Com uma confiança muito diferente daquela que mostrava quando partiu, ironiza com o facto de ser outro país a patrocinar a sua vinda ao seu país para mostrar o que anda a fazer nesse outro país. Regressar a Portugal “é uma ideia distante”. Daqui só lhe chegam notícias da crise e de quem quer, também, partir.

  4. Família Lourenço, Coimbra, 31.10.2011

    Desta vez é que foi – a crise chegou num golpe a casa de José e Clara Lourenço, ambos professores no topo de carreira. Se até agora se preocupavam, agora estão assustados. Numa fase em que ainda fazem contas, sem saber em que terão de cortar, admitem o alívio que é sentirem que as filhas estão bem, embora longe da vista, em países distantes.

    Clara e José dizem que ainda não conseguiram abarcar a forma como as últimas medidas de austeridade anunciadas vão afectar a sua vida familiar. Mas para terem a certeza de que será um sério golpe, basta somar dois mais dois: os subsídios de Natal e de férias em casa de dois funcionários públicos são quatro vencimentos a menos no final do ano, nota José.

    Têm passado dias felizes com Inês, a filha mais nova, que está a fazer o mestrado no Brasil e veio mostrar a sua obra em Lisboa e em Montemor-o-Velho. Como a irmã, Sofia, que vive e trabalha na Dinamarca, Inês está a traçar o seu rumo noutro país e não pensa em voltar tão cedo.

    Clara e José têm saudades das filhas, claro, mas encontram maneiras de as suavizar com outras formas de encontro. São professores, seguem a vida de alguns dos jovens que ensinaram e sabem que hoje em dia, em Portugal, mesmo os que se empenham e se fartam de trabalhar entram na vida adulta sem ver luz ao fundo do túnel.