Um Ano na Crise

Família Fonseca - Textos de Idálio Revez

Público
  1. Família Fonseca, Faro, 10.11.2011

    "Crise? Qual crise?" Na casa da família Fonseca esta palavra não entra, mas não é por haver abundância de alimentos no frigorífico ou uma "almofada" na conta bancária que os ponha a salvo das flutuações do mercado.

    Sandra passou quase metade do ano no desemprego, sem direito a subsídio. E o companheiro, Luciano, vive de uma pensão de invalidez de 207 euros mensais, depois de ter perdido uma perna num acidente de moto.

    "Quando ouço falar de crise lembro-me da música: "P"ra melhor está bem, está bem, p"ra pior já basta assim"", brinca Luciano, resignado com a "vida de pobre" que leva. Por isso, com crise ou sem crise, "não conheço a diferença".

    No início do ano, Sandra viu-se forçada a regressar ao apartamento dos pais - um T2 habitado por oito pessoas -, depois de ter rompido o casamento e perdido o pequeno negócio num snack-bar que geria. "Foi como recomeçar do zero." Arranjou trabalho no serviço de limpezas da Universidade do Algarve, mas foi sol de pouca dura. Com dois filhos - Wilson, de 11 anos, e André, de seis -, passou a viver da ajuda dos pais.

    Chegou a Primavera e não foi só a estação que mudou. "Conheci o Luciano, apaixonámo-nos e passámos a viver juntos." As dificuldades financeiras "não mataram os sonhos". Em Março, Sandra passou a trabalhar no empreendimento turístico de Vale do Lobo, mas só ficou três meses.

    Os dois vivem agora numa barraca coberta com chapas de zinco junto à casa dos pais de Luciano. "Sinto-me bem aqui", diz a jovem mãe de 30 anos, "mas gostava de ter mais conforto". Foi com esse objectivo que se inscreveu há dois meses no serviço de apoio social da Câmara de Faro. "Disseram que, para já, não podiam arranjar casa, mas iam ajudar com alimentos e roupas. Continuo à espera..."

    Sandra tem experiência em geriatria e há tempos inscreveu-se no Instituto de Emprego e Formação Profissional para tentar uma saída na área. Enquanto a resposta não chega, vai fazendo limpezas desde há dois meses nos escritórios de uma fábrica, onde ganha 2,80 euros por hora. "Não chego a ganhar o ordenado mínimo nacional."

    Também Luciano se tem inscrito como "caixa" em hipermercados, mas ainda não teve resposta aos pedidos de trabalho. "O que gostava mesmo era de trabalhar na mecânica, pois sempre tive uma grande paixão por motos."

    Apesar de tudo, Sandra ainda acredita. "Não acho que 2012 vá ser pior que este ano, pelo menos para gente como eu, que já perdeu quase tudo - menos a esperança".

  2. Família Fonseca, Faro, 10.11.2011

    As primeiras chuvas do Outono evidenciaram a fragilidade da habitação — melhor, do abrigo — da família Fonseca. Na madrugada em que desabou o tecto do aeroporto de Faro, Sandra e o companheiro, Luciano, sentiram as chapas da cobertura da garagem que lhes serve de alojamento levantarem voo. “Um vendaval dos diabos”, recorda Luciano, acrescentando que só não ficou a dormir à chuva porque colocou pedras em cima das placas, para que não se despregassem.

    O dia-a-dia deste casal é feito de um somatório de lamentações. “Estou cansada de me inscrever nos supermercados para arranjar emprego. A resposta tarda em chegar”, diz Sandra. Luciano, por seu lado, a viver de uma pensão de invalidez de pouco mais de 200 euros mensais, acha que “podia ser útil” a trabalhar como mecânico, desde que o serviço fosse compatível com a sua mobilidade reduzida. Perdeu uma perna num acidente de moto e agora desloca-se com o auxílio de uma prótese.

    O desejo de ter uma casa continua a ser a “maior ambição” de Sandra, logo a seguir à vontade de encontrar um emprego: “Faço limpezas, cuido de idosos, tenho experiência nessa área, mas não arranjo trabalho.”

    Uma deslocação ao serviço de apoio social da Câmara Municipal, que o PÚBLICO acompanhou, devolveu-lhe alguma esperança. “Pelo menos prometeram que poderiam auxiliar com alimentos e roupas, já é alguma coisa”, comenta Sandra. Em relação à casa, “a câmara diz que não tem fogos, e se a chuva e o vento voltam em força, isto vai ao ar”.

  3. Família Fonseca, Faro, 27.06.2011

    Nem tudo corre mal a Sandra Fonseca. “Vivo desde há dois meses com Luciano”, o seu novo companheiro, que vive de uma pensão de invalidez e é cúmplice das dificuldades que esta mãe solteira enfrenta para tentar reconstituir família e ter condições para poder deixar a casa dos pais.

    Sandra deixou as três horas de limpezas diárias na Universidade do Algarve e trabalha agora a limpar quartos em empreendimentos turísticos de luxo em Vale do Lobo e na Quinta do Lago, onde ganha cerca de 700 euros por mês. Já Luciano vive de uma pensão de invalidez, no valor de 200 euros, atribuída na sequência de um acidente de moto.

    Quando se juntam fazem projectos para o futuro, mas os sonhos esbarram num obstáculo que atinge de igual modo outras famílias. “Gostaria de ter uma casa própria, refazer a minha vida, mas o banco, com um trabalho precário, não me dá empréstimo”, contra Sandra. O destino continua a ser a casa dos pais, para onde foi viver com os dois filhos de cinco e dez anos quando falhou um negócio por conta própria num snack-bar em que decidiu arriscar.

    O companheiro, com conhecimentos de mecânica, acha que poderia trabalhar nesta área, mas encontra uma dificuldade. “Disseram-me que se fosse trabalhar perdia a pensão, não posso acumular. Mas acho que poderia trabalhar e ser mais útil à sociedade.”

  4. Um ordenado de 650 euros? “Bem bom, nos tempos que correm”, diz Sandra Fonseca, anunciando que deixou o trabalho de limpezas, a meio tempo, na Universidade do Algarve, para ir trabalhar no empreendimento turístico Vale do Lobo. “Assim já vou poder ajudar a minha mãe nas despesas da casa”, observa. A melhoria do salário e um contrato de trabalho de sete meses, apesar de precário, abre novos horizontes a esta mãe solteira, com dois filhos menores.

    A empresa garante-lhe transporte de casa para o serviço, mas Sandra não prescinde na sua Yamaha, de 50cc, para dar umas voltas pela cidade. “O vento a bater na cara, quando ando de mota, é uma lufada de liberdade”, diz, recordando os tempos em que “era patroa [geria um snack-bar] e o dinheiro chegava para o essencial”. Continua a viver em casas dos pais, onde encontrou apoio após se ter separado do antigo companheiro, mas já sonha com dias melhores: “Espero um dia poder voltar a ter a minha própria casa”, enfatiza.

    Amealhar 60 euros para pagar o arranjo da mota que estava na oficina há meses “não foi nada fácil”. E a proposta para um novo emprego, comenta, “não se deveu a qualquer indicação do Instituto de Emprego — foi uma amiga que me sugeriu o trabalho”.