Família Almeida 19.03.2012
Não gosto de fechar o ano assim. Não gosto. Gostava de algures ter escrito que a Manuela arranjara emprego.
Ainda me lembro do primeiro contacto. Precisava de alguém que estivesse desempregado, para lá dos 45 anos, capaz de falar sobre tudo isso. E ela falava de tudo sem perder o sentido de humor e o sentido de dignidade.
Esteve para não acontecer. As filhas temiam os efeitos da exposição. Acabámos por encontrar um modo de as descansar. Não filmaríamos em casa. Elas não apareceriam. Manuela apareceria de óculos escuros. Depressa deixou os óculos escuros, mas nunca quis mostrar a casa nem as filhas aos leitores do PÚBLICO.
Agora há pouco, quando lhe disse que era chegada a hora de fazer o último vídeo, parecia apanhada de surpresa pelo correr do tempo: “A Ana já há muito que, para mim, deixou de ser a jornalista que me ligou.”
Eu entrei no mundo dela. Era justo que ela entrasse no meu.
Não se limitou a tocar-me. Tocou leitores. Em Abril, da Casa da Música vieram convites para ela ir ver o pianista russo Grigory Sokolov. Ela adorou. Ela adora piano. “No momento em que pousamos as mãos no teclado é como se pousássemos a cabeça no ombro daquele que nos quer bem. Fechamos os olhos, respiramos profundamente, pensamos: ‘Está tudo bem!’”
Pelo menos três leitoras pediram o seu currículo. A situação que acompanhei de perto é reveladora das dificuldades que pessoas como ela enfrentam no mercado laboral: o potencial empregador não quis marcar entrevista com a mulher de quase 50 anos, ensino secundário, abundante experiência como secretária; preferiu apostar em alguém com menos idade e licenciatura, ainda que sem vocação ou experiência.
Para mim, ajuda a salvar o ano o leitor que se dispôs a ajudá-la a fazer um blogue para promover as belas peças que lhe saem das mãos. Há peças novas no Mimos de Crochet (http://mimosdecrochet.blogspot.com/).
E agora, Manuela? “Eu continuo a acordar todos os dias a acreditar. Vou ganhar asas. Raio, tenho direito a elas.”