Um Ano na Crise

Família Almeida - Textos de Ana Cristina Pereira

Público
  1. A Manuela mandou-me uma mensagem na passada sexta-feira à noite. “Estou num sino! O blogue já está!”

    Carlos Azevedo, um leitor com uma sensibilidade única, autor do blogue The Cat Scats, estivera a ajudá-la a criar um espaço na Internet para divulgar os seus trabalhos de crochet e tricot. Ela chamou-lhe Mimos de Crochet, mas ainda não parece satisfeita com o nome: “Pesquisei no Google e aparecem imensos com a mesma designação. Esta cabeça tem de criar melhor”.

    O blogue está a arrancar. Por agora tem apenas alguns trabalhos fotografados pelo Fernando Veludo, da nFactos. Em breve terá outros. Já se pode, porém, espreitar.

    Esta pode não ser a salvação, mas é uma esperança para esta mulher que está a chegar aos 50 anos, desempregada, num país mergulhado numa crise. “É uma porta que se abre. É entrar num universo muito mais abrangente que me dá mais hipóteses de poder desenvolver aquilo de que mais gosto. O primeiro passo para, quem sabe, começar a pensar no próximo. Neste momento, é a única chance.”

  2. Família Almeida, Porto, 21.10.2011

    Manuela Almeida traçou objectivos para 2012, como tanta gente que com ela se cruza nas ruas do Porto: "Ter saúde, arranjar trabalho, recuperar a independência". Não parece depositar confiança na realidade. Chama-lhes "utopias". "O desemprego é como um cancro. A gente sabe que o tem, não sabe se o vai vencer."

    Custa-lhe cada vez mais entrar no site do Instituto de Emprego e Formação Profissional e não encontrar um único lugar no qual se possa encaixar. "Não sou cozinheira, electricista, informática." Da última vez que se deslocou aos serviços, a técnica que a atendeu perguntou-lhe, "toda catedrática": "Por que não vai tomar conta de velhotes? Se estivesse na sua situação, era o que eu fazia". A mulher, de 49 anos, engoliu em seco e, sem perder a compostura, respondeu: "Sabe que é preciso um curso de geriatria?".

    Nem para empregada doméstica têm aparecido ofertas de emprego. A classe média está a livrar-se dos seus pequenos luxos. A antiga administrativa já tentou. Nunca mais se esqueceu de um anúncio que pedia espanhol escrito e falado.

    Continua a vasculhar na Internet. Passa as páginas de classificados a pente fino em busca de alguma oportunidade. "Já falo sozinha com o computador. É para não enferrujar a língua."

    Muitas das medidas de austeridade entram em vigor no ano que agora desponta. Manuela continuará isenta de taxas moderadoras na saúde, como qualquer desempregado com rendimento inferior ao salário mínimo nacional. O que mais a inquieta é a subida do IVA nos bens de primeira necessidade.

    O ano ainda não mudou e já se aflige. Ainda na véspera se afligira ao ir ao supermercado comprar pensos higiénicos, leite e fruta. "Nem comprei iogurtes. Já não posso comprar iogurtes. Um frango dá para seis vezes. Já não me lembro do que é comer uma dourada. Não posso comer só batatas ou arroz. Santa paciência!"

    Esta pobreza torna-a desconfiada. Um exemplo? Há uns dias, entrou num estabelecimento. "Boa tarde, dona. O que quer?", perguntou-lhe a empregada. E Manuela, que entrara só para ver, sentiu-se ofendida. Era como se aquela mulher, ao fazer aquela pergunta naquele tom, lhe dissesse que não devia estar ali.

    O Natal aproximava-se. Bacalhau e azeite era luxo que não lhe assistia, mas não era isso que lhe carregava os olhos de tristeza. "Não me incomoda não ter prendas ou dinheiro para comprar prendas ou roupa. Incomoda-me não ver perspectivas de futuro, ver em cada notícia o prenúncio do fim da esperança."

  3. Família Almeida, Porto, 21.10.2011

    A Manuela não vai montar o presépio nem enfeitar a árvore de Natal. Não encontra razões para celebrar “o espírito de família”.

    O Natal perdeu sentido para ela. Não agora. Há uns anos, quando assinou o divórcio e foi atropelada pelo desemprego. “O desemprego é como um cancro. A gente sabe que o tem, não sabe se o vai vencer”, disse-me ela, sexta-feira.

    Nunca a tinha visto tão triste como naquela tarde chuvosa. E que podia eu fazer senão sentir-me esmagada pela impotência?

    Bacalhau e azeite era um luxo que não lhe assistia, mas não era isso. Eu sabia que não era isso. E ela confirmou-o, depois, por SMS. “Não me incomoda não ter prendas ou dinheiro para comprar prendas ou iguarias de Natal ou roupa. Incomoda-me não ver perspectivas de futuro, ver em cada notícia o prenúncio do fim da esperança.”

  4. Família Almeida, Porto, 21.10.2011

    A antecipar a chegada do Inverno, a Manuela pôs-se a fazer tricô. Vi as peças esta semana. Mostrou-mas na Casa de Ló, a antiga Casa Margaridense, que renasceu com uma área de loja de produtos nacionais feitos de forma tradicional e outra de casa de chá — à noite convertida em bar.

    De um saco preto, a Manuela foi tirando peças perfeitas — gorros, boinas, cachecóis, luvas. Tinha também novidades em croché — umas bolsinhas de cheiro, algumas óptimas para usar como alfineteiras, incluindo umas em forma de queque, que cheiravam tão bem que até apetecia trincar.

    O projecto "Um ano na crise" já lhe trouxe alguns clientes. Talvez lhe apareçam mais, com o Natal: “São coisas simples. O Natal é isso. Não é o luxo. É a simplicidade das coisas.”

    Qualquer coisa escapou naquela tarde. Por fora, a Manuela continua a rir. Por dentro, só ela sabe.

    As contas estão cada vez mais difíceis de pagar. Isso ela não esconde. Nem sabe como irá pagar a próxima conta de electricidade. E os jornais e as televisões não lhe dão boas notícias. Só lhe falam em cortes, fusões, fechos...