Um Ano na Crise

Família Magalhães - Textos de Raquel Almeida Correia

Público
  1. Família Magalhães, Cascais, 05.03.2011

    No dia em que entrevistámos Pedro e Rita pela primeira vez, fomos recebidos por calçada levantada, martelos pneumáticos e capacetes azuis. No Largo Camões, em Cascais, há obras em andamento. E a marisqueira e cervejaria inaugurada pela família Magalhães no Verão de 2010, numa das zonas mais centrais da vila, não escapou ilesa, tal como todos os restaurantes das redondezas. Há cadeiras e mesas de esplanada empilhadas, poeira no ar e muito barulho de fundo. Clientes, nem vê-los. A família foi avisada que as obras iam começar, com duas semanas de antecedência. “Se tivéssemos sabido antes, tínhamos pedido aos empregados para tirarem férias nesta altura”, lamenta Pedro. Por muito que a ementa seja convidativa, é normal que os turistas, que procuram aquela zona pela calma imposta pelo mar, não apareçam. A calçada levantada, os martelos pneumáticos e os capacetes azuis vão estar por ali, pelo menos, mais dois meses. “Já nos estragaram a Páscoa”, que é uma das épocas nobres para encher as mesas do restaurante, diz Pedro.



  2. O nome do primeiro restaurante dos Magalhães não poderia ser mais apropriado. “O Destino” abriu há quatro anos, no centro da capital. No Verão do ano passado, já com a crise no auge, avançaram com um novo projecto: uma marisqueira, em Cascais.

    Ter restaurantes não foi propriamente um caminho programado pelos Magalhães. Pedro e Rita estiveram ligados ao negócio das telecomunicações durante muitos anos, mas quando a investida falhou por saturação do mercado, fecharam a loja de telemóveis. Ficaram com um espaço livre, no centro da capital, junto ao Coliseu dos Recreios. Foi ali que deram o primeiro passo na restauração, há quatro anos.

    É no restaurante “O Destino” que Pedro passa grande parte do dia, gerindo, actualmente, oito empregados. Serve-se comida típica portuguesa, essencialmente aos turistas que por ali circulam. Tal como no restaurante de Cascais, a Cervejaria Marisqueira Camões, que abriu em Junho de 2010, num largo central da vila, as mesas vão sendo preenchidas por estrangeiros. Os clientes portugueses têm vindo a desaparecer aos poucos porque “não há dinheiro para gastar dez ou quinze euros numa refeição”, explica Pedro. A aposta neste negócio nasceu da “necessidade”, conta Rita, explicando que “foi um caminho que apareceu, uma solução” para não ficarem parados.

    A família Magalhães anda em contra-ciclo, porque a restauração tem sido uma das actividades mais afectadas pela crise. As estimativas da associação do sector apontam para o encerramento de 1500 espaços só em 2010, contabilizando restaurantes e hotéis. Mas, em simultâneo, continua a ser uma actividade onde muitos portugueses encontram uma saída, por exemplo, para situações de desemprego, porque não há propriamente requisitos de habilitações literárias. Só talento e, claro, capital. E é precisamente este último factor que muitas vezes condena os estabelecimentos à falência, porque o dinheiro tem de aparecer para fazer face às despesas diárias, mesmo que os clientes não apareçam.

  3. Quando este projecto começou a ganhar forma e foi preciso encontrar uma família à medida, pensei imediatamente nos Magalhães. Apesar do poder do instinto, não lhe dei a devida importância, de início. Segui as vias convencionais: contactei associações, liguei para amigos de amigos, percorri a agenda telefónica dezenas de vezes. E, depois de 60 contactos infrutíferos (e da frustração que ia tomando conta de mim), decidi dar uma hipótese ao instinto. Quando falei com os Magalhães, pela primeira vez, as peças encaixaram na perfeição. Não só correspondiam ao perfil que procurávamos (uma família com filhos, ligada ao sector privado e com algum conforto financeiro), como disseram que sim. Pedro e Rita não são simples empresários. Investiram na restauração quando o país já estava no pico da crise. E hoje, apesar das dores de crescimento dos seus negócios em Cascais e em Lisboa e do receio em relação ao que o país tem para oferecer a quem investe, continuam à procura de oportunidades. É por isto, e por darem emprego a mais de 20 pessoas e ainda conseguirem educar três filhos, que fazem parte deste projecto.