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O grande pensador está ofuscado pelas crises que atingem o Vaticano

18.04.2010 - 17:56 Por António Marujo

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Crise da pedofilia é o mais grave episódio num pontificado de várias polémicas, que obscurecem a faceta de teólogo de Joseph Ratzinger

Cinco anos depois de eleito para o cargo, o Papa Bento XVI, que completou 83 anos sexta-feira passada, tem o pontificado ofuscado pelas crises, apesar dos passos que deu na aproximação aos ortodoxos, da sua personalidade de pensador e teólogo com textos de grande qualidade, da sua atenção ao mundo da cultura e ao diálogo entre a fé e a razão.

A crise dos abusos sexuais do clero marca de forma decisiva os últimos meses deste pontificado, que amanhã completa o primeiro lustro. A própria viagem a Malta, neste fim-de-semana, está marcada pelo facto, com vandalização de cartazes anunciando a visita e várias vítimas de pedofilia a quererem manifestar-se contra o Papa.

As acusações atingem o próprio Bento XVI: quando era presidente da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), o então cardeal Joseph Ratzinger teria sabido de casos de pedofilia que não sancionou. Os defensores contestam com dados e datas: em 2001, a CDF passou a tomar conta dos casos de pedofilia e a atitude do Vaticano passou a ser mais rigorosa.

Exemplo disso foi a atitude de Bento XVI que, um ano depois de eleito e no final de um processo de averiguações, mandou calar o fundador dos Legionários de Cristo, o padre mexicano Marcial Maciel, acusado de pederastia, incesto e vida dupla com várias mulheres. O próprio Ratzinger teria desejado resolver o problema bem mais cedo, mas terá tido a oposição de outros responsáveis do Vaticano.

Sobre este episódio, o jornalista Marco Politi, um dos especialistas italianos mais conceituados em questões do Vaticano, conta ao PÚBLICO que o próprio Ratzinger terá desabafado um dia, para o cardeal Cristoph Schonborn, arcebispo de Viena e um dos seus mais próximos: "Eles venceram." Eles seriam o cardeal Angelo Sodano, então secretário de Estado do Vaticano, e o secretário do Papa João Paulo II, o agora cardeal Stanislaw Dziwisz, arcebispo de Cracóvia.
Com responsabilidades pessoais ou não, Bento XVI tem que enfrentar, além da própria crise, os vários tiros no pé de responsáveis da Cúria Romana, com declarações inoportunas ou desastradas. Mas esta é uma questão que remete para outro problema do pontificado: o desacerto dos novos responsáveis da Cúria, a começar pelo novo secretário de Estado. O cardeal Tarcisio Bertone tem uma apreciação consensual da parte de vários observadores do Vaticano contactados pelo PÚBLICO: às suas excelentes capacidades humanas corresponde uma grande inabilidade na gestão das grandes questões que se colocam ao Papa e ao Vaticano.

Os sucessivos episódios de polémica mostram essa ausência da Secretaria de Estado: o discurso de Ratisbona, em Setembro de 2006, em que o Papa usava uma citação crítica sobre Maomé, é o exemplo acabado disso mesmo. "Em termos de "gestão de negócio", este pontificado vai de uma crise a outra", dizia sexta-feira, citado pela AFP, o jornalista John Allen, correspondente em Roma do norte-americano National Catholic Reporter.

Polémicas com judeus foram várias. Enquanto teólogo, Ratzinger chegou a defender uma perspectiva inédita: os judeus, que continuam à espera da vinda do seu Messias, e os cristãos, para os quais o Messias já veio na pessoa de Jesus Cristo, deveriam sentir-se mais próximos, "trabalhando juntos" para que o Messias venha ou regresse.

Mas esta proximidade teológica não teve correspondência nas questões concretas que se foram colocando a Bento XVI. A decisão, em Dezembro último, de avançar com o processo de beatificação do Papa Pio XII, do qual Ratzinger é um admirador, foi olhada com desconfiança por vários sectores judeus, que continuam a ver o Papa Pacelli como uma voz que não se ouviu a condenar o Holocausto.

A polémica maior com os judeus estava guardada, no entanto, para Janeiro de 2009, quando Bento XVI retirou a excomunhão sobre quatro bispos integristas. Um deles, Richard Williamson, nega a Shoah. Apesar de o levantamento da excomunhão não significar a reintegração dos bispos na Igreja Católica, este passo mereceu vivas críticas, mesmo de muitos católicos, que não entendiam o porquê das cedências a um grupo que sempre negou o diálogo ecuménico e a liberdade religiosa proclamadas pelo Concílio Vaticano II (192-65).

No diálogo ecuménico, foram vários os passos positivos conseguidos por Bento XVI, mesmo se o Papa tem sido discreto com as iniciativas concretas que, desde o primeiro momento, dizia serem necessárias. A aproximação aos ortodoxos russos, depois das tensões destes com João Paulo II, e o excelente momento de diálogo com o patriarcado ecuménico (ortodoxo) de Constantinopla são as notas principais neste âmbito.

Um homem só

Homem só, Ratzinger tem hábitos muito diferentes dos de João Paulo II: não costuma haver convidados nem ao pequeno-almoço, após a missa na capela privada, nem ao almoço. Também as reuniões periódicas que o anterior Papa fazia com os cardeais responsáveis das congregações e conselhos pontifícios deixaram de ter lugar.

É um Papa assim, mais tímido e só, que prefere dedicar-se ao que lhe dá mais prazer e onde ele mais se distingue: a escrita. John Allen nota que a sua palavra é "profunda e lúcida" e que, sob este aspecto, o pontificado de Ratzinger é "impressionante".

"Há uma grande ironia: Bento XVI é muito bem sucedido naquilo que ele toma mais a peito, mas isso é ocultado pelo caos que reina à volta do seu pontificado", afirma o jornalista norte-americano, sempre citado pela AFP.

Na conversa com o PÚBLICO, em Roma, Marco Politi acrescenta que as três "muito importantes" encíclicas de Bento XVI revelam, a par de outros documentos, a dimensão de "grande pensador" de Ratzinger. O Papa coloca "com grande clareza o carácter essencial do cristianismo como religião do amor". Mas esta mensagem fica obscurecida pela falta de uma liderança clara na condução dos destinos da Igreja. Leia a partir de amanhã, em www.publico.pt, tudo sobre a visita do Papa a Portugal e os cinco anos do pontificado de Bento XVI.