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Cinco momentos do pontificado de Ratzinger

18.04.2010 - 17:59 Por António Marujo

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Em cinco anos de pontificado, cinco momentos significativos de Bento XVI.
A viagem à Terra Santa foi uma viagem histórica, com mensagens em várias direcções

O primeiro banho de multidão
Colónia, Agosto de 2005, Jornada Mundial da Juventude . Um milhão de jovens a fazer a festa com o Papa em Colónia (Alemanha). O encontro estava marcado por João Paulo II, mas foi o seu sucessor a concretizá-lo. Saiu-se bem o novo Papa, registaram as crónicas, apesar da sua timidez. Encontros com pequenos grupos de jovens, num barco que subiu o Reno envolvido por uma multidão entusiasta nas margens, foram um dos episódios a confirmar a afabilidade de Ratzinger na conversa pessoal. Não demonstrando o mesmo à-vontade que João Paulo II no contacto com as multidões, Bento XVI ainda assim tem sabido gerir essa presença. O mesmo se repetiu em Julho de 2008, em Sydney. Durante uma vigília de oração, com música e dança, o Papa falou de um mundo "dividido e fragmentado", de uma "criação de Deus enfraquecida por feridas" profundas, entre as quais as da "exploração e abuso das pessoas".

Uma imagem para a história depois de uma forte polémica
Turquia, Novembro de 2006. Ficou como o ícone da viagem à Turquia: "Foi uma atitude mais significativa do que uma desculpa", disse o mufti de Istambul, Mustafa Cagrici, comentando o gesto do Papa Bento XVI a rezar a seu lado na Mesquita do Sultão Ahmet, a segunda visitada por um Papa. A imprensa turca falou de um gesto "histórico e de paz": voltado para Meca, o Papa murmurou uma prece diante do mihrab, o nicho de oração de uma mesquita. Três meses antes, em Ratisbona (Alemanha), Bento XVI provocara a ira de muitos muçulmanos quando fez uma citação relacionando Maomé e a violência. Uma frase mais diluída do que a que fizera em Colónia, quando se encontrou com líderes religiosos e pediu que se evitasse o terrorismo em nome de Deus. Mas que, durante semanas, levou milhares de muçulmanos à rua, em protesto contra o Papa. O Vaticano organizou várias iniciativas para apaziguar os ânimos, mas só a oração na mesquita fez a paz.

O primeiro encontro com vítimas de pedofilia
EUA, Abril de 2008. Foi nos Estados Unidos que começou a onda de choque dos abusos cometidos por membros do clero católico. Foi também aí, na sua viagem a Nova Iorque e Washington há dois anos, que Bento XVI se encontrou com vítimas de abusos. O Papa escolheu os momentos e os interlocutores: no avião que o levava de Roma para os EUA, disse aos jornalistas que se sentia "profundamente envergonhado". Perante os bispos, afirmou que o problema foi muitas vezes "mal gerido" - a mesma ideia repetiu-a, com mais vigor, na carta à Igreja da Irlanda, de Março último. Às vítimas, recebeu-as e escutou-as. Repetiria um encontro semelhante, também sem anúncio prévio na agenda, em Sydney, no final da Jornada Mundial da Juventude, em Julho seguinte. A carta aos católicos irlandeses é o último acto importante da crise mais profunda que Ratzinger tem enfrentado no seu pontificado.

Apelos desesperados ao fim dos "banhos de sangue"
Terra Santa, Maio de 2009. Foi uma viagem histórica, com mensagens em várias direcções. O mais importante foi o apelo dirigido a "todos os povos" daquelas terras: "Não mais banhos de sangue! Não mais confrontos! Não mais terrorismo! Não mais guerra! Em vez disso, vamos quebrar o círculo vicioso da violência." Houve lugar ainda para uma mensagem sobre a Shoah e para pedidos quase desesperados para que os cristãos não abandonem a Terra Santa, tendo em conta o êxodo que muitos têm escolhido para fugir às pressões sociais, às guerras ou às perseguições político-religiosas. O Papa foi ainda a Belém (Cisjordânia) pedir o fim do terrorismo e sublinhou "os grandes esforços que ambos os governos [de Israel e dos Territórios Palestinianos] estão a fazer para assegurar o bem-estar do povo".

Relações de caridade no sistema económico
Vaticano, Julho de 2009. A última das três encíclicas do Papa Bento XVI - Caritas in Veritate (ou caridade na verdade - foi publicada em Julho de 2009, abordando a questão social. Se nas duas primeiras o Papa escolhera os temas do amor e da esperança, esta tentou concretizar a perspectiva de como se pode levar o amor ou a caridade cristã ao âmbito das relações sociais, económicas e políticas. No texto, Ratzinger pede uma refundação da ONU e uma autoridade mundial eficaz no "governo da economia" que possibilite uma nova "arquitectura económica e financeira internacional" - Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e Organização Mundial do Comércio. Os mais pobres não podem ficar de fora do processo de globalização, avisa ainda.