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Boas-vindas ao Papa

09.05.2010 - 07:53 Por Frei Bento Domingues O.P.

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1. Para Jean Mercier, apesar das dificuldades em compreender as recomposições actuais do fenómeno religioso, o cristianismo não está exausto. Com dois mil milhões de crentes, é considerado a primeira energia espiritual do globo (1). A sua distribuição é muito desigual. Na Europa reside apenas um quarto dos cristãos do planeta: 280 milhões de católicos, cerca de 100 milhões de protestantes, 150 milhões de ortodoxos, maioritariamente russos.

A imensa maioria dos crentes ligados a Cristo está situada no Novo Mundo: 275 milhões na América do Norte e 530 milhões na parte latina do continente. Estes últimos são maioritariamente católicos, mas o protestantismo evangélico está num crescimento espectacular desde há 30 anos, apoiado em expressões consideradas fundamentalistas.

Na África, os cristãos encontram-se, sobretudo, na cintura equatorial. Na Ásia, estão maciçamente implantados nas Filipinas, o único país onde são maioritários a 90 por cento, mas o Vietname e a China representam um forte potencial de desenvolvimento. Pelo contrário, a presença cristã no Próximo e Médio Oriente, que a viu nascer, está cada vez mais debilitada sob a pressão do islamismo e dos desenvolvimentos da guerra no Iraque.

Segundo o Anuário Estatístico da Igreja, entre 2000 e 2008, o número de católicos passou de 1045 milhões para 1166 milhões: um aumento de 11,54 por cento.

Ainda que de aparência religiosa, a raiz de muitos conflitos atribuídos às religiões é de ordem política, como, por exemplo, no Próximo Oriente, entre Israel e o povo palestino. Esta observação é fundamental para vencer a tendência de denunciar as religiões como as fontes principais de guerras e de ameaças à paz. Por outro lado, não se deve confundir a experiência religiosa com as instituições religiosas. E discutível, aliás, que o cristianismo tenha começado como religião no sentido clássico (2).

2. O Papa vem ao nosso país a convite do Presidente da República e da Conferência Episcopal. Seja bem-vindo e seja bem recebido. Em Portugal, a percentagem de católicos, de acordo com dados de 2008, é de 88,3 por cento da população contabilizada em 10,6 milhões de pessoas. Sob este ponto de vista, pouco importa a distinção entre católicos praticantes e não praticantes. É uma distinção de carácter sociológico, estabelecida a partir da prática dominical. A prática da justiça e das obras de misericórdia serão sempre as mais importantes (Mt 25, 3lss). De acordo com as estatísticas, Portugal já não é todo católico, se é que alguma vez o foi. O bom relacionamento entre maiorias e minorias religiosas, agnósticas e ateias é sinal de que a intolerância foi vencida.

A vinda do Bispo de Roma, com responsabilidade colegial pela situação das comunidades católicas de todo o mundo, deveria servir para um encontro dos católicos portugueses, nas suas diversas tendências, com as questões que agitam a cristandade e a forma como são vividas em Portugal. Se o Papa deve ter muito que dizer, também deve ter muito que ouvir. De outra forma, não haverá encontro.

3. O sucessor de Pedro vem a Portugal num momento especialmente crítico acerca de comportamentos escandalosos encobertos, a nível local e central. Se muitos católicos, a começar por Bento XVI, se sentem envergonhados, outros confessam-se desconcertados com a orientação que foi dada ao governo da Igreja, sobretudo nos últimos 30 anos, e pedem o começo imediato da preparação de um novo concílio. Hans Küng, na sua Carta Aberta aos Bispos de todo o mundo, tornou-se a voz dessa urgência.

Na celebração da missa de hoje, os Actos dos Apóstolos apresentam as razões que levaram a Igreja, nos primeiros tempos, à realização de um concílio em Jerusalém (Act 15). Resumindo, o que estava em causa era o seguinte: Jesus era judeu e judeus eram os que O seguiram antes e depois de ser crucificado. O judeo-cristianismo é, de facto, a primeira expressão cristã. No entanto, o caminho aberto por Jesus, no seio de um judaísmo de várias tendências, abria a possibilidade de reafirmar que Deus não faz acepção de pessoas ou de povos: todos são filhos da mesma graça e por ela acolhidos pelo Deus da salvação de todos. Judeus e pagãos podiam fazer parte da mesma comunidade, mas os discípulos de origem judaica não deveriam impor os seus costumes aos de origem pagã. Esta era a linha de Paulo, mas não a que prevalecia em Jerusalém.

Para saber o que aconteceu e a gravidade que representava para o futuro do movimento cristão, não basta ler o capítulo 15 dos Actos, é preciso ler também a Carta aos Gólatas. Houve um confronto claro entre a tendência conservadora de Jerusalém e a de Paulo aberta aos pagãos sem passar pela Lei de Moisés. O resultado foi um compromisso entre as duas tendências. Na Igreja do "pão nosso de cada dia" não pode haver soluções definitivas.

Seguindo a sua mais antiga tradição, os conflitos que se vivem hoje na Igreja Católica, no que diz respeito à sua vida interna, ao seu governo e à sua missão no século XXI, exigem um novo concílio bem preparado. Os católicos portugueses, com os seus bispos, não cometem nenhuma indelicadeza de hospitalidade se pressionarem a Cúria romana a aceitar este caminho.

(1) L"Atlas des Religions, La vie Le Monde, p. 48.

(2) Julien Ries, L""homo religiosus" et son expérience du sacré, Cerf, Paris, 2009.