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Bento XVI chorou de "vergonha e pena"

19.04.2010 - 18:03 Por Margarida Santos Lopes

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Num encontro inesperado, em Malta, com vítimas de abusos sexuais por parte do clero, o chefe da Igreja Católica prometeu levar os pedófilos a tribunal e proteger os menores
O Papa Ratzinger não resistiu ao cansaço

Lawrence Grech assegura que viu "lágrimas no rosto" de Bento XVI depois de um encontro inesperado, ontem, na ilha de Malta, entre o Papa e oito vítimas de abusos sexuais por parte de sacerdotes locais. "Pela primeira vez em 25 anos, podemos voltar à Igreja", alegrou-se o porta-voz dos compatriotas que, como ele, foram violados por padres durante a infância e adolescência.

Grech confessa que também chorou, tal como os outros membros do grupo de um orfanato católico recebidos pelo antigo cardeal Joseph Ratzinger, que hoje completa o primeiro lustro do seu pontificado. "Ele não teve que pedir desculpa, porque os abusos [nos anos 1980 e 90] não foram culpa de uma só pessoa", justificou o jovem maltês.

Há mais de duas décadas que Grech, hoje com 37 anos de idade, perdeu a fé. "Eu disse-lhe: "O senhor pode preencher o vazio, preencher o que os padres me roubaram quando eu era jovem", contou à agência Reuters, depois do encontro com o Papa. "Esta experiência vai mudar a minha vida. Agora, posso ir ter com a minha filha e dizer-lhe: "Eu acredito!""

O encontro decorreu na capela da Nunciatura Apostólica, depois de uma missa campal em La Valletta (a capital maltesa), e durou 20 minutos. Nenhum jornalista foi autorizado a assistir, tal como já havia acontecido noutras audiências do Papa com vítimas de padres pedófilos, nos Estados Unidos e na Austrália. O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, admitiu que Bento XVI ficou "profundamente comovido" com as histórias que ouviu, e exprimiu "vergonha e pena".

Promessa de justiça

"Ele rezou com [as vítimas] e garantiu-lhes que a Igreja está a fazer, e continuará a fazer, tudo ao seu alcance para investigar as alegações e levar a tribunal os responsáveis pelos abusos", salientou o reverendo Lombardi. "Tomará também medidas eficazes destinadas a, no futuro, salvaguardar os jovens."

"No espírito da sua recente Carta aos Católicos da Irlanda, ele [Bento XVI] orou para que todas as vítimas de abusos possam encontrar a paz e a reconciliação, de modo a seguirem em frente com esperança renovada", referiu Lombardi, especificando que todos os oito membros do grupo foram recebidos, separadamente, pelo Papa. "A atmosfera era intensa, mas serena, não pesada."

Há sete anos que o órfão Grech e outras vítimas vinham exigindo às autoridades eclesiásticas o reconhecimento do sofrimento que lhes foi infligido. Há um julgamento a decorrer à porta fechada, mas o processo arrasta-se "a passo de caracol", queixou-se Grech. Além disso, a Igreja contratou "os melhores advogados de Malta" para defender os padres suspeitos. Um deles fugiu para Itália.

Na homilia que proferiu na missa em La Valletta, onde hoje termina uma visita de dois dias, Bento XVI não fez uma referência directa aos escândalos de pedofilia que diariamente vão sendo denunciados. No avião que o conduziu a Malta, o Papa admitiu aos repórteres que o acompanham que a Igreja Católica "está ferida pelos seus pecados". Nunca usou, todavia, a expressão "abusos".

O alemão Ratzinger é criticado por, alegadamente, ter encoberto abusos quando era arcebispo de Munique (1977-1982) e, mais tarde, como presidente da Congregação para a Doutrina da Fé. Os seus defensores garantem que ele tentou resolver mais cedo estes casos, mas terá tido a oposição de outros membros do Vaticano.