Desde que lançou, em 2001, um livro polémico a contestar muitas das visões correntes sobre os problemas ambientais, Bjørn Lomborg não pára. De professor de Estatística na Universidade de Copenhaga, tornou-se numa voz polémica incontornável. Hoje lidera uma organização de pensadores económicos, o Consenso de Copenhaga, cuja finalidade é identificar os problemas do mundo onde se devem aplicar mais recursos. Reduzir emissões de CO2 não está entre as prioridades e, nas palestras que dá por todo o mundo, o cientista dinamarquês aponta a maior parte das baterias contra Al Gore.
Hoje com 44 anos, Lomborg já foi nomeado pelas revistas Time e Esquire como uma das figuras mais influentes do mundo, e pelo jornal The Guardian como uma das 50 pessoas que podem salvar o planeta. Ainda assim, grande parte da sua mensagem não convence os líderes mundiais.
Por que razão os governos não o ouvem?O problema democrático dos políticos é o de que precisam prometer muita coisa para serem eleitos. Mas para governar de facto não podem fazer tudo o que prometeram. As alterações climáticas são uma dessas áreas em que é possível tanto prometer como não cumprir, porque todas as promessas são para um futuro longínquo. Todos os que assinaram o Protocolo de Quioto em 1997 estavam a prometer o que os seus descendentes políticos iriam fazer em 2010. Da mesma forma, aquilo que prometermos em Copenhaga em 2009 será o que futuros políticos devem fazer em 2020 ou mesmo em 2050. Ao mesmo tempo há um enorme interesse comercial. Se olharmos adiante, haverá subsídios para virtualmente tudo o que se autodenomine "verde".
Está a dizer então que os políticos estão a enganar as pessoas, os seus eleitores?Os políticos sabem o que traz aplausos e o que causa grandes problemas. Todas a vezes que dizem "eu quero salvar o planeta, e para isso quero cortar emissões em "x" por cento em dez, 20 ou 30 anos", todos aplaudem. Esta é uma das razões fundamentais porque as pessoas estão a dizer as coisas que soam bem, ao invés das coisas que fazem bem.
Acha injusto que o Prémio Nobel da Paz tenha sido atribuído a Al Gore e não a si?[Risos]. Não vou falar da última parte da pergunta... Acho certo que se tenha dado ao painel climático da ONU [IPCC, na sigla em inglês]. Eles fizeram um óptimo trabalho. Mas acho surpreendente terem-no dado a Al Gore. Al Gore fez algum bem em convencer a direita norte-americana de que o aquecimento global não é apenas uma conspiração da esquerda para aumentar os impostos, mas sim um problema real. Mas ao fazê-lo ampliou de tal forma o medo que, no final de contas, não tenho a certeza se ele prestou um serviço ou um des-serviço. E o seu foco incessante sobre o corte nas emissões de carbono, ao invés de soluções inteligentes, parece que está a sair-lhe pela culatra.
Mas a necessidade de se cortarem as emissões é algo que vem do próprio IPCC...O IPCC, pelo seu próprio estatuto, é neutro em termos de políticas. O que diz é que, se quisermos ter os 2ºC [como limite de aumento da temperatura média global até 2100], então temos de cortar emissões em 25 a 40 por cento. É uma afirmação do tipo "se-então", uma declaração científica. Mas não há um juízo de valor. O IPCC não tem nenhuma afirmação quanto a devermos ou não conter [o aumento da] temperatura a 2ºC, ou contê-lo sequer. Isto é uma decisão política. O grande problema do debate sobre as alterações climáticas é o de centrar-se no corte de emissões agora. O que nos interessa é ter um planeta que seja melhor para as pessoas e para o ambiente. Temos de ver se reduzir emissões ou preocupar-se com o aquecimento global é a forma de o fazer, ou se há de facto outras coisas que resultem num futuro melhor.
Não reconhece outros benefícios em reduzir emissões de CO2, como tornarmo-nos menos dependentes dos combustíveis fósseis ou menos vulneráveis à geopolítica?Para o curto e médio prazo, este argumento é inválido, simplesmente porque não nos vamos afastar dos combustíveis fósseis. O que o Protocolo de Quioto tem feito é afastar-nos do carvão em direcção ao gás natural. Mas o carvão está amplamente distribuído e está muito disponível, em bons países como a Austrália, Canadá, Estados Unidos, Rússia, até Alemanha, enquanto o gás vem todo da Rússia. Dizer que isto nos fez geopolitcamente menos dependentes está errado.
Como avalia o facto de tantos cientistas criticarem o seu trabalho?Basicamente reagiram por princípio, como que a dizer: "Este homem não pode estar certo, por isso vamos descobrir por que razão ele está errado." E encontraram alguns pontos menores. Mas se olharmos para o melhor exemplo das críticas mais fortes - a [revista] Scientific American, que dedicou 11 páginas a criticar o meu livro -, o que fizeram foi surpreendentemente pobre. Eu poderia ter feito melhor. Acho que a maior parte dessas pessoas tem visões muito fortes sobre o aquecimento global serproblema fundamental que temos de resolver. Estão de certo modo cegos pelo facto de que o que estão a estudar é o único comando para conduzir o mundo na boa ou na má direcção. Não. Há muitos comandos onde mexer e eu quero accionar os mais eficientes.
Tem algum plano para tentar convencer a conferência climática da ONU em Copenhaga de que aquele não é caminho?Certamente que tenho, mas para agora, não para Copenhaga. Trata-se de pôr a informação cá fora antes. A maior parte das pessoas começa a compreender que chegar a um acordo real em Copenhaga está a tornar-secada vez mais improvável. O que espero é que esta compreensão nos leve a dizer: "Pois bem, se o plano A não está a funcionar, então devemos começar a pensar num plano B." O que estamos a apresentar - através do Consenso de Copenhaga sobre o Clima, onde estão os maiores economistas do mundo, incluindo três prémios Nobel - é quais são as melhores políticas para as alterações climáticas. E o que os economistas disseram foi que não se trata de cortar emissões através de taxas de carbono ou do comércio de emissões. Trata-se de investir em geo-engenharia e em investigação e desenvolvimento sobre tecnologias verdes na área da energia. Isto vai fazer muito mais pelo clima, a um custo muito menor.
O que seria um bom resultado para Copenhaga?Em vez de reduzir emissões, deveríamos prometer que vamos gastar 0,2 por cento do PIB em investigação e desenvolvimento de tecnologias energéticas livres de carbono. Seria algo facilmente verificável, pode-se ver no orçamento do próximo ano se estamos a fazê-lo ou não. Teria um grande impacto imediato, porque acabaríamos também por desenvolver muitas outras coisas, ficamos com muitos subprodutos. Mas o crucial é que é muito barato. Estamos a falar de menos da metade do custo de Quioto e muito menos do que o que custará um acordo em Copenhaga. Se olharmos para a eficiência das soluções políticas, em termos dos danos que evitarão em relação às alterações climáticas, e compararmos com o que será evitado com cada euro investido em investigação e desenvolvimento, a diferença é de 100 a 1000 vezes maior.
Poderíamos então evitar todo o trabalho das negociações de longos textos, cheios de pontos de interrogação, se apenas concordarmos com essa meta?Não se pode esperar que seja tão magicamente fácil. Mas seria mais fácil ter todos no mesmo barco. Seria mais fácil ter a China e a Índia a bordo, porque é um número pequeno, é uma percentagem do seu PIB e criar-lhes-ia muitos outros benefícios - como investigação básica que eles desejam de qualquer forma. Há muito mais hipóteses de ser implementado. E teria muito mais hipóteses de passar pelo Senado norte-americano, porque teríamos cumprido a tarefa crucial de ter a China e a Índia a bordo.
Sugeriu isto ao seu governo, na Dinamarca?Claro, sugiro a todos. Fomos à Casa Branca há duas semanas, com os resultados do Consenso de Copenhaga. Eles têm a sua própria agenda, só por se reunirem comigo não significa que de repente concordem comigo. Mas não foi uma audição hostil. Estavam a ouvir interessadamente. Acredito que estão a compreender que estão a prometer um monte de coisas que não irão acontecer. Tenho ouvido informalmente, de pessoas ligadas a governos, que se sentem encurralados num canto, sem saber como sair de lá. Precisam de uma saída, talvez nos próximos meses, mas certamente nos próximos anos. Esta pode ser uma saída.
Diz que, ao invés de gastarmos 180 mil milhões de dólares por ano com as alterações climáticas, deveríamos gastar 75 mil milhões para resolver outros problemas mais imediatos. Mas não podemos encontrar estes 75 mil milhões em outro lado? Comprando menos armas, por exemplo?Claro. Somos suficientemente ricos neste mundo para resolver todos os problemas, ponto final. Em princípio, podemos resolver todos os problemas amanhã, mas não o fazemos. O seu jornal e todos os outros põem mais as alterações climáticas na primeira página e tudo o resto fica mais adiante ou mesmo fora das páginas - em oposição, por exemplo, à qualidade da água na primeira página e as alterações climáticas mais adiante. As Nações Unidas, a União Europeia e todos os outros falam de alterações climáticas, mas não de água potável. Cada dólar gasto nas alterações climáticas, cada minuto gasto numa manchete da CNN, cada coluna gasta no seu jornal, é um dólar a menos, uma coluna a menos que não gastamos em outras coisas. Adoraria um mundo em que pudéssemos resolver todos os problemas. Mas num mundo em que não o fazemos, devemos ter uma conversa séria sobre o que devemos discutir primeiro.
O que acha dos negacionistas, dos cépticos que dizem que as alterações climáticas não são causadas pelo homem ou não existem de todo?Creio que havia algum espaço para isso há uns 15 anos. Podia-se argumentar que não sabíamos. Agora temos que dizer que isto não é verdade. Não é o que o painel climático das Nações Unidas, com o seu vasto número de cientistas, nos está a dizer. Politicamente, temos de admitir que as alterações climáticas estão a acontecer, são causadas pelo homem, e que temos de encontrar uma forma de lidar com elas. Mas é importante continuar a financiar investigadores que o contestem. Porque se eles estiverem certos, nós queremos saber. Temos de agir agora com base no conhecimento da vasta maioria dos cientistas que nos diz que isto é um problema. Politicamente, devemos dizer que é nisso que acreditamos. Mas cientificamente, devemos continuar a questionar. Céptico é a melhor coisa a que se pode chamar um cientista.
Faz alguma coisa para reduzir as suas próprias emissões de CO2? Compensa as emissões das suas viagens? Anda de bicicleta?Isto não tem a ver com a atitude individual, tem a ver com a sociedade que fazemos. Se temos um bom sistema de transportes públicos, então apanhamos o autocarro. Mas não se consegue fazer com que as pessoas apanhem o autocarro só porque as obrigamos moralmente a fazê-lo. A maior parte das coisas que faço não são determinadas por mim, mas sim pelo modo como organizamos a sociedade. Mas, dito isto, sim, eu faço alguma coisa. Sou vegetariano, porque não quero matar animais, mas isto também tem efeitossobre o clima. Nunca tive automóvel, sempre andei de bicicleta - mas isto é porque a Dinamarca está organizada para tal. Eu não compenso as minhas viagens. Cada 50 dólares gastos num tipo de compensação de CO2 resultam em benefícios avaliados em sete dólares. É um pobre donativo ao mundo. Mas 50 dólares gastos em micronutrientes contra a subnutrição valem 4000 dólares em benefícios. É por isso que dou o dinheiro que não gasto comigo à Cruz Vermelha e outras organizações que tentam focalizar-se em questões críticas onde se pode fazer muito com o dinheiro.
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