Quando
o futebol
se jogava aos domingos
Por Marco Vaza
Na Estrela, bairro popular de Lisboa, vive Anastácio da
Silva (António Silva) com a mulher (Cremilda de Oliveira),
as duas filhas, Branca (Maria Eugénia) e Jujú (Milu),
e a empregada Rosa (Laura Alves). Além da família,
a sua grande paixão é o futebol, como fervoroso adepto
do Sporting. Simula jogadas pela sala e marca golos com pontapés
na mesa. E não vai perder a final da Taça de Portugal
com o FC Porto por nada.
Realizado em 1947 por Arthur Duarte, "O Leão da Estrela"
conclui hoje da melhor forma a colecção de três
clássicos da comédia portuguesa da Série Y,
depois de "A Canção de Lisboa", de Cotinelli
Telmo, e "O Costa do Castelo", também de Arthur
Duarte.
Tal como o Vasquinho, que diz às tias da província
que já é "doutor" com consultório,
o Anastácio esforça-se por criar a ilusão do
que não é, fazendo-se passar por um rico proprietário.
Na verdade, é um modesto funcionário municipal, vive
num último andar e não tem carro (no Portugal dos
anos 40 era um artigo de luxo), mas tem talento para sair de qualquer
situação mais apertada, mesmo quando uma "conspiração"
o quer impedir de se deslocar ao Porto para ver jogar o seu amado
Sporting, então o expoente máximo do futebol português
(e a famosa linha avançada conhecida como os "cinco
violinos", Jesus Correia, Albano, Vasques, Travassos e Peyroteo).
Para ajudar à ilusão (e porque também não
conseguiu lugar no comboio), Anastácio recruta a ajuda do
também sportinguista Miguel (Artur Agostinho), que aceita
conduzir o carro do patrão até ao Porto só
para poder estar perto da namorada Rosa.
Água ou vinho do Porto?
Antes de seguir para a casa dos Barata, onde irá ficar alojado,
a primeira paragem de Anastácio é o Estádio
do Lima, onde Sporting e FC Porto jogam a final da Taça de
Portugal (as imagens que se vêem no filme são de outro
encontro entre as duas equipas, já que em 1947 não
se disputou a Taça de Portugal). É lá que tem
o seu primeiro contacto, embora não o saiba, com o seu anfitrião
(excelente Erico Braga), também ele um fanático do
futebol, mas do FC Porto. "Vais levar uma cabazada", grita
Anastácio ao seu antagonista de opinião logo após
o primeiro golo do Sporting (o jogo acabaria em 2-1 favorável
aos "leões").
Mais tarde, na mansão, onde já estava o resto da
família, os dois fingem que não se conhecem e Anastácio,
fiel ao seu estilo, faz-se convidado para ficar o tempo que quiser,
trata o Barata por Baratinha, pede dinheiro emprestado porque não
tem trocos e exige vinho do Porto quando o outro só lhe quer
oferecer água. Poucas horas depois, já são
grandes amigos. Fumam charutos na varanda, saem à noite,
bebem champanhe no bar das espanholas e regressam às cinco
da manhã.
Final moralista e redentor
Tudo serve para alimentar o engano, desde a caça à
onça em África, o passado como oficial da marinha,
passando pelas malas cheias de autocolantes de hotéis em
todo o mundo. Para a família de Anastácio, a mentira
acaba por ser um meio para aceder ao mundo dos ricos. "Inventei
para nós a vida que desejava que tivéssemos",
confessa a certa altura Jujú, a mais ambiciosa das duas irmãs
e principal cúmplice das invenções do pai.
Para Branca, pelo contrário, é um peso e um obstáculo
difícil de ultrapassar para o seu casamento com Eduardo Barata
(Curado Ribeiro), cuja família poderá levar a mal
ver o seu herdeiro casar com alguém de uma classe mais baixa.
No final, a promoção social é alcançada
com o casamento de Branca com Eduardo e da união de Jujú
com o vizinho de baixo, o comandante (Tony d'Algy).
"O Leão da Estrela" é o exemplo perfeito
do que foi o cinema português deste período: temas
sem grande esboço de contestação ao regime
do Estado Novo e cheios de boas intenções, actores
populares como António Silva, Milu ou Laura Alves, canções
(no caso de "O Leão da Estrela" é apenas
uma) e um final moralista e redentor.
Mais de 50 anos depois da sua produção, "O Leão
da Estrela", mesmo sendo um produto da sua época a quem
o tempo não poupou algum envelhecimento, continua a valer
como uma comédia cheia de ritmo, com personagens inesquecíveis
e que continua a ser visto e revisto e a ter diálogos citados
de cor.
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