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Reportagem - Do grande sertão a São Paulo (I)

Brasil: Em Araçuaí, a gente levantou a cabeça

26.09.2010 - 07:58 Por Alexandra Lucas Coelho

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O povo rebenta o corpo a cortar cana. E quando não é isso, é o garimpo, vida dura. O que é que Lula mudou?
Foto: Paulo Whitaker/Reuters "Vamos ver se ela [Dilma Rousseff] vai seguir o mandato de Lula"

O nome de Lira chegou longe. Lá na Alemanha, lá na Bélgica, lá nos Estados Unidos. E vem gente do lá-longe ver Lira aqui, em Araçuaí. Não tem avião, não, só carro mesmo, 700 quilómetros desde Belo Horizonte, asfalto e terra vermelha. Araçuaí é sertão mineiro, chão de garimpo e secura, muito minério e pouco alimento. As fazendas são de gado e todo o governo era dos coronéis. Voto do povo? Assim: os coronéis botavam o povo em camiões para votar mandado. Prefeito da cidade era filho de coronel. Até hoje, as ruas de Araçuaí têm nome de coronel. Sabem onde mora Lira? Na rua Coronel Inácio Murta.

É uma calçadinha de pedra, subindo o morro. "Eu nasci nessa rua", diz Lira - Maria Lira Marques Borges, artesã e cantora, 64 anos, sangue negro e índio, duas tranças. "A minha mãe já usava trança." E na longa história de Lira ninguém a pega sem trança.

Tem muita canção nessa história, mas vamos deixá-la para outro dia. O nosso tema hoje é a eleição do próximo domingo, como vê-la daqui, Araçuaí, coração do Vale do Jequitinhonha. Até há bem pouco, falar Jequitinhonha no Brasil era falar de pobreza.

Lira, filha de sapateiro e lavadeira, aprendeu com a mãe a cantar e a moldar barro no tempo em que as pessoas tinham vergonha do que sabiam, acostumadas a baixar a cabeça. Pobre não tinha arte. Se hoje as artes do Jequitinhonha, sobretudo cerâmica e música, têm fama além do Brasil, foi porque Lira as resgatou com o etnólogo Frei Chico, nome prezado em toda a terra mineira.

E isso ajudou Araçuaí a levantar a cabeça no meio da pobreza.

"Aqui nesse morro não tinha calçamento e luz só até meia-noite", conta ela. "A luz dava três sinais e no último ia embora. Ficávamos com querosene. Não tinha água encanada. Para fazer esta casa aqui, a gente carregou água na cabeça indo no rio. Existe uma riqueza da cultura, e também o coração bom da gente, que ainda vive melhor que nos grandes centros porque conhece o outro. Mas não pode negar que existe essa pobreza. Senão, não havia isso da saída para cortar cana."

É a grande migração de Araçuaí. Todos os anos, entre Março e Novembro, um mundo de gente desce para sul, para as plantações de cana-de-açúcar no estado de São Paulo. "Os ônibus das empresas vêm buscar as pessoas." Os recrutadores são conhecidos como "gatos", e levam pais e filhos. "Só o peso que eles pegam estoura com essa parte." Lira põe as mãos no peito. "Porque cortam a cana, e jogam para trás, então vão deformando toda a coluna."

Vai aos poucos

Uma vez, o coral que Lira e Frei Chico fundaram foi convidado a cantar para os migrantes da cana. "Quando a gente entra no estado de São Paulo e vê essas plantações, parece o mar. Aí a gente cantou num polidesportivo, e eles começaram a levantar os braços, dizendo: "Nós somos de Virgem da Lapa [povoação vizinha de Araçuaí], nós somos de Araçuaí..." E foi aquele chóróró. Choravam eles e nós. A vida deles lá é muito afastada. Eles brigam muito, pegam coisa um do outro porque ganham pouco. Tudo o que têm de comprar é na mão do patrão. Tenho dois sobrinhos que foram para cortar cana e contam que eles põem um remédio na comida para engordar. Isso faz da pessoa um porco."

Esse é o passado-ainda-presente de Araçuaí, gente que para comer tem de migrar mais de metade do ano, e rebenta com o corpo. E quando não é isso, é andar no garimpo.

Então Lula-85-por-cento-de-popularidade não chegou aqui? Chegou. Desde Belo Horizonte, toda a gente parece ter um ganho para contar. É a mocinha na rodoviária que foi mãe aos 13, e hoje tem 23, e vive com a ajuda da Bolsa Família, criada por Lula. É o cobrador do ônibus, que está com 30, e alugou a casa com o empréstimo Minha Bolsa-Minha Vida, criado por Lula. E chegando a Araçuaí, mesmo quem não vai votar por ele não nega o ganho, a começar por Lira: "A vida aqui melhorou. E presidente igual a Lula a gente nunca teve, não."

No tempo em que o PT foi fundado em Araçuaí, "nem se podia falar no nome do partido". A primeira líder local foi Lira, e quando quis trazer Lula cá teve de passar por interrogatório na delegacia até conseguir licença para o comício. "Depois procurei as pessoas que tinham dom de falar para irem no palanque, e quando chegou o dia tínhamos umas 200 e poucas. Muita gente tinha medo de se filiar."

Isto era o Brasil no começo dos anos 80. Agora o PT é o superpoder. Mas contas feitas, o que é que Lula fez? "Eu admiro esse jogo de cintura que ele tem, de lidar com as pessoas e a gente ver o resultado: terras para os índios, habitação para aqueles que não têm casa, a gente vê que vai aos poucos. Tem golpe também dentro do PT. Aquele "pêtêzinho" de base não tem mais. Entrou muita gente que acaba sujando. Em Lula, eu confio. O que esse homem tem lutado não está no gibi."

Mas a candidata do PT agora é Dilma Rousseff, não exactamente Lula. É Dilma que corre contra José Serra (o social-democrata do PSDB), e Marina Silva (a ex-petista em subida nas sondagens de quem toda a gente por aqui parece falar com simpatia). "Eu estou com esperança na Dilma. Tenho muito admiração pela Marina, mas acho que ainda não é a vez dela. E se a gente vê que ela não consegue ganhar, é melhor votar na Dilma. Com esse trabalho que fez com o Lula, a Dilma tem uma visão boa dos problemas. Vamos ver se ela consegue. Lula vai ajudar."

Geração pós-cana

Dilma não é Dilma, é a candidata de Lula. Tal como os candidatos locais não são eles mesmos. Por exemplo, na rua principal de Araçuaí esta casa aberta, cheia de cartazes locais do PT. O título é: "O senador do Lula." Tem nome próprio, o homem, Pimentel, mas isso é um detalhe. E se agora começarmos a falar em Lula aos dois moços que estão a pregar os cartazes num painel, o entusiasmo é com onomatopeia: "Uhhhhh, com certeza!, Lula é muito popular", diz o mulato Isaías, 26 anos, boné e t-shirt de um clube universitário de Nova Iorque. Já Dilma, passo atrás, contenção: "Vamos ver se ela vai seguir o mandato de Lula. Com Lula o emprego cresceu muito, vamos ver se ela vai fazer mais. Tem gente parada aqui. Precisa muito de emprego." E o outro, Thales, 21 anos, boné e t-shirt vermelha com a estrela do PT, acrescenta: "Para a gente não ter de ir para o corte de cana."

Já foram?

"Eu fui dois anos", diz Isaías. "Tem de acordar três da manhã, fazer comida, para estar às sete a cortar. E largávamos às três, quatro da tarde, sempre com sol. Sofri. Não aconselho a ninguém." Ganhava 800 reais por mês, cerca de 350 euros. Como tem as costas? "Não fiquei mal porque foram só dois anos. Mas o meu irmão foi oito anos e está acabado. Tem negócio de coração e coluna. A cana gasta muito."

"Está previsto para 2014 acabar com o corte de cana", diz Thales. Lula disse que era humilhante e que esse trabalho tinha de ser feito por máquinas. Thales e Isaías gostaram de ouvir. E na vida de Isaías, que já é casado, há mais esse ganho: "A minha esposa pega a Bolsa Família, 90 reais por mês [40 euros]."

Esta rua principal de Araçuaí - 42 mil almas - tem passeio alto, sombra de árvore, venda de seco-e-molhado, todo o mundo tu-cá-tu-lá: "Tudo jóia?" Quase não passa carro e parece não haver desconhecidos.

Mas no espaço de um quarteirão há dois centros que também ajudam a levantar a cabeça.

O primeiro, Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, tem várias acções no vale do Jequitinhonha, incluindo um projecto para impedir que os homens vão para o corte de cana: fazer com que possam produzir e vender alimentos onde vivem. E aqui mesmo, na cidade, o centro montou um espaço para crianças dos seis aos 14 anos, alternando com a escola. Se as crianças estão na escola de manhã, vêm para aqui à tarde, e vice-versa. Entra-se por um jardim, que leva a um átrio e depois a um salão gigante, todo decorado com bonecos de pano e desperdícios. "A gente procura materiais alternativos, folhas, panos, restos", explica a directora, Paula, barrigão de jovem grávida. Não se trata apenas de entreter as crianças. "Trabalhamos auto-estima, socialização, dinamismo." Os problemas que existem aqui.

"A maioria das crianças são pobres, estão com as avós ou mães solteiras. Algumas nem conhecem o pai. E o desafio é que os pais se apropriem do aprendizado dos filhos." Um exemplo? "Alimentação. Servimos almoço para os que saem no fim da manhã e para os que chegam no começo da tarde. E aqui eles não comem fritura, e comem legumes sem tóxicos." Outro exemplo, violência familiar. "Há crianças agressivas e isso é o resultado do que vivem em casa. O que podemos fazer é trabalhar com os pais em rodas de conversa." Entre as 180 crianças que aqui estão, algumas vieram encaminhadas pelo Conselho Tutelar, que lida com abusos infantis.

Há 10 anos que Paula aqui trabalha. É a época Lula, e através das crianças é possível ver o que mudou ou não. "Eu vejo que as famílias começaram a ter uma estrutura melhor, com a Bolsa Família." Estamos a falar de 40 ou 65 euros mensais, dependendo da família, não parece muito. "Mas há famílias que não tinham ganho nenhum. Para quem não tinha nada faz muita diferença."

Não é discurso de quem depende do governo, porque este centro vive de mecenas como a Petrobrás. E longe da rua principal, num bairro mais pobre, o discurso de Geralda Soares vai no mesmo sentido.

Pedagoga formada na universidade de Belo Horizonte, aos 58 anos ela tem toda uma vida de trabalho com os indígenas. As reformas de Lula, acredita, "mudaram a vida das pessoas, muitas que nem tinham o que comer". E é uma mudança radical. "Até na cabeça. As pessoas sentem-se valorizadas. Pobre não entrava em banco, não tinha uma televisão, uma geladeira, não via os filhos ir para a escola. Só a Bolsa Família ou o Auxílio Gás faz as pessoas alimentarem-se melhor, e um dos critérios da Bolsa Família é manter o filho na escola. Então há uma pressão sobre os pais, os filhos trazem informação para casa. O financiamento da agricultura familiar melhorou a vida dos trabalhadores rurais. A escola diferenciada para os indígenas foi implementada por Lula. Hoje, eles podem ser alfabetizados na língua deles." A corrupção, acha Geralda, "é da máquina dominante", mas no fim de tudo tem isto: "Lula abriu janelas por onde se pode enxergar mais longe. O povo antes não tinha uma perspectiva."

Garimpeiros de agora

"Toda a região do Jequitinhonha tem mais de 70 municípios, cerca de 900 mil pessoas, que vivem sem indústria, mas temos grandes jazidas minerais", diz José Pereira, fundador do outro centro cultural na rua principal, o Luz da Lua.

Durante anos, os pobres garimparam. Depois entraram grandes empresas, e o garimpo ficou semiclandestino.

"Araçuaí tem a maior reserva de lítio do Brasil, explorada por uma empresa de São Paulo, que trata o minério numa região perto da Baía livre de impostos, e assim beneficia outra região." Agora, no governo de Lula, "a licença deles foi renovada por mais 15 anos", quando "a única riqueza que isso gera para Araçuaí é empregar cerca de 200 homens". José Pereira acha que "a contrapartida devia ser maior", por exemplo, mecenato local. "Apoiar teatro tem 100 por cento de isenção no Brasil, quem investe, recupera a totalidade. Mas nunca consegui meter isso na cabeça deles. Estão lá em São Paulo."

O pequeno garimpo é um mercado paralelo.

"Os caras que vêm comprar as pedras ficam lá na rodoviária", conta José Pereira. "Depois ouve-se: "Ó, saiu um caldeirão de pedra." Isso é quando o garimpeiro "embamburra"." Ou seja, encontra pedra. "Tenho um tio que ia para a lavra dele." Lavra é mina. "Levava comida, cachaça, e no final de semana ia ver a família."

Foi assim que fez durante muitos anos Zé da Estrada. Hoje é tão famoso na região que basta dizer ao taxista: "Casa de Zé da Estrada." E depois a casa é como a gruta de Alibabá: toneladas de pedras semipreciosas e preciosas, de todas as cores, em prateleiras, em baldes, em bacias, no chão. "De Lisboa temos uns três fregueses", diz Zé da Estrada, "60 e poucos anos". Já imaginam como a história dele não vai caber aqui. Tornou-se comerciante: agora tem quem garimpe para ele.

Mas ainda há espaço para contar que Bruno, o filho mais novo, 25 anos e peso de lutador de sumo, levou o PÚBLICO pelo sertão, 40 quilómetros de estrada, desvio para duas minas. E de caminho explicou porque vai votar em Serra. "O PT rouba de mais. Nunca eu vi." E Lula? "Não gosto, não. Não adianta dar o peixe, é preciso dar a cana. Hoje, você quer contratar um garimpeiro por 400, 500 reais [170, 215 euros] por mês, mais uma cesta-base de supermercado, e mesmo assim eles não querem. Porque a mulher tem Bolsa Família, Auxílio Gás, auxílio de casa, tudo." Ou seja, Bruno não vai votar em Lula porque ele dá de mais e o salário barato do garimpo já não atrai. "Se você der dinheiro às pessoas elas nunca vão querer trabalhar. Acostuma elas de jeito ruim." Bruno também não concorda com as máquinas para o corte de cana. "Assim vai acabar com o serviço dos caras. Lula falou que é humilhante. Não é, não. É um modo de vida honesto." É o chamado ponto de vista do patrão.

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