"O Outono em Pequim", de Boris Vian

Por Diego Armés dos Santos

Toda a bizarra história de "O Outono em Pequim" começa com a difícil tarefa de apanhar um autocarro. Amadis Dudu tenta, até ao limite do desespero, entrar no 975 para chegar ao trabalho. Após uma sequência de peripécias absolutamente inacreditável, consegue atingir o seu objectivo... para azar de todas as personagens que se seguem neste turbilhão criativo de Boris Vian.

"O Outono em Pequim" é uma sequência absolutamente descabida, caótica, aleatória, absurda e genial de acontecimentos, que têm tanto de surpreendentes como de inconcebíveis, pelo menos até ao ponto em que o próprio Vian decide dar um pouco de coerência ao jorro criativo e escrever uma história. Aliás, quando o autor decide "organizar" a história e dar-lhe uma "sequência lógica", surge um aviso ao leitor, para que este fique devidamente prevenido. Para quem já conhece Vian, tal não é de estranhar. Para quem não conhece, não há nada a temer, o seu mundo absurdo funciona mesmo assim, com uma atitude mista de provocação e ingenuidade. E é claro que a "lógica" e a "coerência" de Vian são bastante... peculiares, no mínimo.

Voltando à história, propriamente dita, ela serve apenas como montra para dezenas de outras histórias paralelas, disparates, diálogos existencialistas, mais disparates, informações inúteis e alguns momentos literários que roçam o sublime, em que a escrita de Vian atinge, provavelmente, o seu expoente máximo - do qual se aproximara em "A Espuma dos Dias", romance em que o autor aborda o amor como doença e obsessão.

Mas existe uma história: relembrando o episódio em que Amadis Dudu apanha o 975, importa destacar que este autocarro, que se alimenta de peixe (!), pára num sítio chamado Exopotâmia que é, nem mais nem menos, um deserto. Ora, Boris Vian, com todo o vigor e distorção da sua imaginação prodigiosa, faz com que as personagens, que vão nascendo mais ou menos como cogumelos, se dirijam, de modo "mais-ou-mais" estranho, à mesma Exopotâmia. E qual é o pretexto? Obviamente, a construção de uma linha férrea. Faz todo o sentido. E a culpa é de Amadis Dudu, que chefia, a partir da Exopotâmia, uma companhia fundada por si, exclusivamente criada para levar a cabo o empreendimento.

Pela altura em que a história ganha "coerência" - salvo seja -, as personagens passam a funcionar todas no mesmo plano, ou seja, no deserto da Exopotâmia. É aí que se cruzam um arqueólogo (Atanágoras) e respectiva equipa, um médico (prof. Manjamanga) e um ajudante, dois engenheiros (Ângelo e Ana) e uma secretária (Rochela), que constituem um curioso triângulo amoroso, um eremita (Cláudio Leão), e algumas outras personagens que são, normalmente, difíceis de descrever. A mistura de figuras tão díspares e a forma disparatada como se relacionam dão à narrativa uma riqueza criativa rara. "O Outono em Pequim" é uma obra que vale não só pela história mas - ou até, talvez, mais - pelo que não é história, pelo que é adereço, diversão, prazer criativo, pela imaginação pura e sem preconceitos.

    
   

 
Boris Vian