Bicentenário de Camilo Castelo Branco (V)
“Camilo foi sempre um inquilino em trânsito entre várias casas”
Camilo Castelo Branco nasceu, quase incognitamente (foi registado como “filho ilegítimo”), em Lisboa, a 16 de Março de 1825. Mas foi no Norte do país, onde se fixaria aos 11 anos, após a morte do pai, que firmou o seu nome, e a traço bem carregado, através tanto da sua escrita como de um muito particular e aventuroso percurso de vida, que lhe permitiram inclusivamente dispensar os apelidos familiares — Camilo, apenas.
Retrato de Camilo Castelo Branco na casa de São Miguel de Seide
Retrato de Camilo Castelo Branco na casa de São Miguel de Seide
Fixar não será o termo mais apropriado para representar a constante deambulação do escritor por diferentes terras nortenhas: da cidade de Vila Real, onde primeiro chegou para viver com a tia Rita, à freguesia de Vilarinho de Samardã, poucos quilómetros a norte da capital duriense, onde acompanhou a irmã Carolina e ficou a viver com a família do marido desta; e depois, mais acima, à pequena aldeia de Friúme, no concelho de Ribeira de Pena, onde se viu casado, aos tenros 16 anos, com Joaquina Pereira de França, ainda mais nova, até dela inesperadamente fugir (da Joaquina, da família dela, da própria terra?...) para o Porto.
Nesta cidade, a que chegou no Outono de 1843 para estudar Medicina — sem grande sucesso, como se sabe —, Camilo haveria de centrar a sua vida e construir o seu percurso literário, enquanto ia habitando sucessivas moradas, incluindo a cela na Cadeia da Relação, onde “residiu” pouco mais de um ano (1860-61), acusado de manter uma relação adúltera com Ana Plácido.
Em 1863, estabelece-se definitivamente em São Miguel de Seide, a viver em família com a então já viúva de Manuel Pinheiro Alves, o filho destes, Manuel, e os do novo casal, Jorge e Nuno.
Uma vida sem casa própria
Neste conturbado percurso biográfico do autor de Amor de Perdição (1862), fomos à procura das casas e dos lugares que ele habitou ou frequentou entre a sua infância, após a chegada a Vila Real, o efémero casamento juvenil em Friúme, a chegada aventureira ao Porto, a fixação em Seide e a definitiva morada no Cemitério da Lapa.
Se nesta extensa geografia podemos encontrar duas casas oficialmente designadas “de Camilo” — em Friúme e em São Miguel de Seide —, a realidade é que “o escritor nunca teve uma casa verdadeiramente sua, vivendo sempre em casas de familiares, emprestadas ou alugadas”, nota José Manuel de Oliveira, um investigador da obra de Camilo, ex-director da casa de Seide, onde continua a integrar a equipa que gere a instituição pertencente à Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, e que no último Verão guiou o PÚBLICO numa viagem em busca do rasto e de memórias patrimoniais do grande autor romântico.
“Camilo sempre foi um inquilino em trânsito entre várias casas”, sintetiza este historiador e museólogo, autor da tese de doutoramento Vivências de Camilo Castelo Branco a partir da Sua Correspondência (ed. Afrontamento/CITCEM, Porto, 2024).
José Manuel de Oliveira, autor do livro Lugares da Vida e da Ficção em Camilo Castelo Branco, fotografado à porta da casa que Camilo habitou em Samardã NELSON GARRIDO
José Manuel de Oliveira, autor do livro Lugares da Vida e da Ficção em Camilo Castelo Branco, fotografado à porta da casa que Camilo habitou em Samardã NELSON GARRIDO
Os “anos felizes da mocidade”
Chegados a Vila Real, em Abril de 1836, Camilo e a sua irmã Carolina, mais velha quatro anos, ficaram a viver com a tia Rita Emília na Rua do Carmo. Três anos depois, Carolina casa-se com o estudante de Medicina Francisco José de Azevedo, e leva o irmão consigo para a casa daquele em Vilarinho de Samardã.
Num desvio da EN2 em direcção a Chaves, uma placa cravada no tronco de um eucalipto plantado em 1913 pelo sobrinho-neto do escritor, padre Luís Castelo Branco, assinala a visita a 17 de Julho de 1994 do então primeiro-ministro Cavaco Silva à casa situada na Rua Camilo Castelo Branco. Por um caminho ladeado por hidrângeas e sob uma ramada de vinha e quivis, acede-se a uma típica construção rural de dois pisos. Subindo a escada de pedra, uma nova placa ao lado da porta de entrada regista palavras de Camilo: “… onde passei os primeiros e únicos felizes annos da minha mocidade.”
José Manuel de Oliveira defende que “a casa de Vilarinho de Samardã foi a grande porta pela qual Camilo entrou no mundo intelectual, por via do contacto com o padre António de Azevedo, cunhado da Carolina”.
Numa das inúmeras evocações que posteriormente fez da sua passagem por Samardã, o escritor escreve: “Fui educado numa aldeia, onde tenho uma irmã casada com um médico, irmão de um padre, que foi meu mestre. O mestre podia ensinar-me muita coisa que me falta; mas eu era refractário à luz da gorda ciência do meu padre. Fugi de casa para a serra, dava muitos tiros às galinholas e perdizes; porém, louvado seja Deus, não me dói o remorso de ter matado uma!” (Duas Horas de Leitura, 1857). Também se referiu ao padre António como uma “alma de Deus, missionário fervoroso, que me podia ensinar tanto latim, tanta virtude, e só me ensinou princípios de cantochão, os quais me serviram de muito para as acertadas apreciações que eu fiz depois das primas-donas” (Memórias do Cárcere, 1862).
A casa de Samardã, que começou a ser erigida em 1757 e permanece ainda hoje na posse de descendentes do casamento de Carolina Castelo Branco com Francisco José de Azevedo, não está aberta ao público. Mas o arquitecto Pedro Vasco Pimentel, actual proprietário e sobrinho trineto de Camilo, acedeu em abri-la para uma visita do PÚBLICO.
Casa onde Camilo viveu com a irmã, Carolina, e o marido desta em Vilarinho de Samardã MANUEL ROBERTO
Casa onde Camilo viveu com a irmã, Carolina, e o marido desta em Vilarinho de Samardã MANUEL ROBERTO
No seu interior, a manter viva a presença do escritor, preserva ainda com a mesma traça o quarto do padre António, que albergou também o jovem Camilo.
Noutras divisões, mostra o que é previsível, e também alguns tesouros inesperados, entre a vasta biblioteca e bibliografia, retratos e dedicatórias, cartas e uma árvore genealógica que enumera os nomes de apenas alguns ramos da família: “Em Março de 2025, no aniversário do nascimento de Camilo, esta casa recebeu 102 descendentes da minha bisavó Luísa Maria, sétima filha de Carolina Castelo Branco”, conta Pedro Vasco Pimentel, acrescentado ser praticamente impossível estabelecer uma árvore genealógica completa de “uma família tão pulverizada”.
Num depoimento, que preferiu prestar por email, e sob o título "Descendente de.", o arquitecto-proprietário escreveu: “Herdar uma horta ou a descendência de um nome relevante como Camilo Castelo Branco deve ser carregado de escrúpulo e de querer saber sobre o passado, querer viver e agir no presente e ter fé no futuro.” E acrescentou ver a Casa de Vilarinho de Samardã como “um comboio” — que, de resto, se vislumbrava da sua janela quando ainda se encontrava activa a Linha do Corgo.
“Se é verdade que isso é reconhecível na respectiva arquitectura, enquanto sucessão de compartimentos e uns quantos circuitos dinâmicos, o que mais me interessa são as pessoas que nele viajaram e os testemunhos, materiais, mas sobretudo imateriais, da sua passagem”, precisa Pedro Vasco Pimentel. “Este comboio tem matrícula, talvez o 1757 na padieira da entrada, mas certamente também traz uma cruz içada, qual bandeira sobre locomotiva cujo primeiro maquinista seria António de Azevedo, padre de profissão e pedagogo do jovem Camilo Castelo Branco.”
Friúme, casamento e fuga
“Camilo, em dois anos de Friúme, terra triste nas margens de rio triste, consegue, com o demónio no corpo, quebrar-lhe a monotonia, fazer do mais estéril meio que possa imaginar-se um mundo de quimeras, paixões e violências. (…) Agita o povoado e arredores com a sua inquietude incipiente, primeiro sinal da agitação que só pacificou por meio de uma bala.” O escritor duriense João de Araújo Correia descreve assim, no prefácio da recente reedição do livro Camilo em Ribeira de Pena, do médico Mário de Menezes, a curta passagem de Camilo por aquela aldeia de Ribeira de Pena, que ostenta como principal atracção a casa com o nome do escritor, em Friúme.
Casa habitada por Camilo entre 1841 e 1843 NELSON GARRIDO
Casa habitada por Camilo entre 1841 e 1843 NELSON GARRIDO
Adquirida pela câmara no final dos anos 1990 e aberta ao público como casa-museu em 2013 — sob a direcção de Ricardo Carvalho, arqueólogo da autarquia —, esta é a casa que o jovem Camilo habitou entre 1841 e 1843, após se ter casado com uma camponesa da terra de apenas 14 anos, Joaquina Pereira de França (1826-1847). Não estão totalmente esclarecidas as circunstâncias que levaram a este precoce comprometimento afectivo de Camilo — do qual nasceria uma filha, Rosa (1843-1848), precocemente falecida aos quatro anos —, que o próprio viria depois a tentar obliterar da sua biografia, como revelou Alberto Pimentel no seu livro A Primeira Mulher de Camilo (1916).
O eventual interesse do sogro, Sebastião Martins dos Santos, em dotar a filha com parte da tença de que Camilo era herdeiro é uma das hipóteses aventadas. José Manuel de Oliveira admite que a sua aventura em Friúme — onde, uma vez mais, viveu numa casa que também não lhe pertencia — possa ter-lhe aberto “uma porta para uma relação e uma história familiar que ele nunca tinha tido, já que perdera a mãe aos dois anos e o pai aos dez”.
Tratou-se, contudo, de uma expectativa falhada, já que, apenas dois anos após o casamento, Camilo desapareceu da terra e abandonou a jovem esposa grávida, para não mais regressar. Ainda que sob o nome do escritor, a Casa-Museu de Friúme presta também tributo à figura de Joaquina Pereira de França, retratando-a com a sua família.
No essencial, e depois de restaurada, a casa mantém o traço rústico original, com uma reconstituição da cozinha e respectiva lareira, do escano e da masseira tradicionais, e do quarto com cama e colchão de palha e alguns retratos.
O rés-do-chão, antiga corte do gado, está transformado em galeria, onde pudemos ver a exposição Olhares Camilianos, da artista local Augusta Andrade, além de uma vitrina com bibliografia do (e relativa ao) escritor, incluindo a reedição do já citado volume A Primeira Mulher de Camilo (Orpheu, 2016) e uma réplica miniatura do busto que Henrique Moreira fez do escritor em 1925.
Um dos quartos da casa-museu em Friúme, um dos lugares que Camilo quis obliterar da sua biografia MANUEL ROBERTO
Um dos quartos da casa-museu em Friúme, um dos lugares que Camilo quis obliterar da sua biografia MANUEL ROBERTO
“O que mais me perguntam os visitantes é porque é que o Camilo veio aqui parar, e se há descendentes na terra”, dizia ao PÚBLICO, nesse final de Verão, Manuel Costa, o guardião da casa, que nessa altura era visitada por uma família de emigrantes “franceses” em férias, e por um grupo de escuteiros de Guimarães. Questões a que esse responsável pelo museu então dificilmente poderia responder com precisão.
A caminho da Casa de Camilo, outra emigrante da terra, Ana Gonçalves Barbosa, em férias da sua vida estabelecida há já seis décadas na cidade francesa de Saint-Étienne, interpelava-nos da sua janela para nos falar das memórias do seu tempo de criança, quando brincava junto ao velho casebre. “Éramos canalha, íamos para lá fazer avarias [risos]. Não sabíamos quem era o Camilo, dizia-se apenas que tinha deixado a mulher para ir com outra, uma tal Madame Plácida! [sic].”
Camilo no Porto
Depois da aventura adolescente transmontana, o Porto tornar-se-ia o palco da vida do escritor, e a cidade manter-se-ia também pelo tempo fora cenário privilegiado do seu universo ficcional. E se é certo que esta é a grande cidade de Camilo, do mesmo modo lhe deve ela a sua inscrição no “panteão” português das urbes literárias.
“Mas o Porto de Camilo mantém-se em limites cronológicos relativamente estreitos. Na observação caricatural e mordaz dos costumes ou como cenário de novela, como espaço de vivências ou de memória, é a cidade de meados do século [XIX] que sobressai da obra do romancista, dir-se-ia que incapaz de ultrapassar os anos da sua juventude”, nota o historiador Gaspar Martins Pereira no seu livro Camilo, o Porto e o Douro, reeditado em 2017.
Camilo chega ao Porto, em “fuga” de Ribeira de Pena, no Outono de 1843, para se inscrever na Escola Médico-Cirúrgica (fundada, como Régia Escola de Cirurgia do Porto, em 1825, curiosamente o ano do seu nascimento) e na Politécnica, onde “não permanecerá além do segundo ano, perdendo-o por faltas e pela rendição à vida boémia”, diz o jornalista e historiador Germano Silva na “praça dos Leões”, frente ao edifício da Reitoria da Universidade do Porto, a iniciar uma visita guiada para o PÚBLICO aos lugares portuenses do autor de As Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado (1863).
A sua primeira habitação na cidade foi na Rua Escura, em pleno bairro da Sé, na esquina com a Viela dos Pelames, “um beco fétido de coirama surrada”, nas palavras do próprio (Obras Completas, Vol. XIII).
Quando em 1849 aí regressa, após o episódio do “rapto” em Vila Real da jovem Patrícia Emília de Barros — que o levará à sua primeira detenção: alguns dias na Cadeia da Relação, em Outubro de 1846 —, Camilo traz já o visual do “literato inquieto e janota”, refere Gaspar Martins Pereira. Usufruindo da fama conquistada pela sua pena de jornalista, e escritor em início de afirmação pública, hospeda-se então já no prestigiado Hotel Francês, na Rua da Fábrica.
Desde esta data até à sua fixação em São Miguel de Seide, em 1863, o escritor habitaria em dezena e meia de casas e hospedarias, segundo a lista compulsada por José Manuel de Oliveira na sua tese, com base nas referências da correspondência.
Além desse longo rol de moradas, que Camilo habitou com “aquela espécie de psicose da errância que lhe foi constante flagelo do corpo e do espírito” — citando o professor e antigo director da Casa de Camilo em Seide, Aníbal Pinto de Castro —, são muito escassas as localizações e referências ao escritor na geografia do Porto actual.
Há o busto instalado em 1925 na Avenida de Camilo, na freguesia do Bonfim, a assinalar o centenário do nascimento, réplica da escultura que Henrique Moreira fizera nesse mesmo ano para Vila Nova de Famalicão (depois trasladado para São Miguel de Seide). Há também a polémica escultura Amor de Perdição, de Francisco Simões, inaugurada em 2012 no largo fronteiro à Cadeia da Relação.
Além disso, o nome de Camilo está assinalado em três lugares da cidade. Na própria cadeia, está sinalizada, no n.º 8 dos “Quartos de Malta”, também dito de S. João, a cela em que o escritor esteve preso durante mais de um ano (1860-61), acusado de adultério com Ana Plácido (e que, incompreensivelmente, partilha o espaço com as vitrinas da colecção de câmaras e equipamentos fotográficos de António Pedro Vicente, no que agora é o Centro Português de Fotografia).
Na Rua de Santa Catarina, na fachada actual do n.º 628, uma placa instalada pela Câmara Municipal do Porto, a 1 de Junho de 1999, regista: “No 2.º andar deste prédio, que então possuía o n.º 458, casaram em 9 de Março de 1888 Camilo Castelo Branco e Ana Augusta Plácido.”
E na Rua do Almada, na porta n.º 378, o Restaurante Camilo, aberto em 2023, reivindica mesmo ter sido esta uma das casas habitadas pelo escritor, num edifício de onde ele poderia ver assomar a uma varanda da mesma rua Ana Plácido, quando ela aí vivia com o seu marido, Manuel Pinheiro Alves.
E há, claro, a morada final no Cemitério da Lapa, onde os seus restos mortais repousam no jazigo do amigo João António Freitas Fortuna.
Rua Escura, bairro da Sé, local que terá sido a primeira residência de Camilo Castelo Branco no Porto TIAGO BERNARDO LOPES
Rua Escura, bairro da Sé, local que terá sido a primeira residência de Camilo Castelo Branco no Porto TIAGO BERNARDO LOPES
Fachada da Reitoria da Universidade do Porto TIAGO BERNARDO LOPES
Fachada da Reitoria da Universidade do Porto TIAGO BERNARDO LOPES
Vista do Porto a partir da cela onde Camilo ficou preso na antiga Cadeia da Relação TIAGO BERNARDO LOPES
Vista do Porto a partir da cela onde Camilo ficou preso na antiga Cadeia da Relação TIAGO BERNARDO LOPES
A estátua com o busto do escritor foi instalada em 1925 na Avenida de Camilo, na freguesia do Bonfim, assinalando o centenário do seu nascimento TIAGO BERNARDO LOPES
A estátua com o busto do escritor foi instalada em 1925 na Avenida de Camilo, na freguesia do Bonfim, assinalando o centenário do seu nascimento TIAGO BERNARDO LOPES
Ana Plácido, que viria a ser a segunda mulher de Camilo e que herdou a casa para onde ambos se mudaram, em São Miguel de Seide
Ana Plácido, que viria a ser a segunda mulher de Camilo e que herdou a casa para onde ambos se mudaram, em São Miguel de Seide
Outros rastos camilianos
Apesar desta escassez de notações memoriais, o rasto de Camilo permanece no imaginário portuense e em muitos lugares que se sabe terem sido calcorreados pelo autor de Memórias do Cárcere.
Aqui ficam alguns desses sítios, documentados por Germano Silva, um investigador e conhecedor muito especial da(s) história(s) do Porto, que recorrentemente vemos na cidade a desvendar as histórias das suas ruas e recantos.
Reitoria da Universidade do Porto e Hospital de Santo António
Nestes dois lugares, Camilo frequentou aulas na primeira Escola Médico-Cirúrgica (cuja instalação no hospital, em 1837, está assinalada com uma placa numa sua parede).
“Sabe-se que Camilo se matriculou na antiga Escola Politécnica, hoje Reitoria da Universidade do Porto, mas sabemos muito pouco sobre o que aqui fez, além de ter chumbado, e ter tido como professor António da Costa Paiva, barão de Paiva, um mecenas que patrocinou muitas iniciativas culturais na cidade. Foi ele que construiu o primeiro Jardim Botânico do Porto, no Carregal. E a paixão de Camilo pela Botânica dever-se-á a esse barão de Paiva. Também se matriculou no Seminário Diocesano para estudar Teologia, mas voltou a perder o ano por faltas”, diz Germano Silva.
Cela de Camilo e Praça D. Filipa de Lencastre
A antiga Cadeia da Relação acolhe hoje o Centro Português de Fotografia e, no seu terceiro piso, o visitante pode ver musealizada a cela onde Camilo esteve preso. “Depois de ter andado fugido por várias terras, durante quase um ano, ele veio entregar-se em Outubro de 1860, quando a Ana Plácido já cá se encontrava”, recorda o jornalista e historiador. “Foi nesta cela que recebeu D. Pedro V, então de visita ao Porto; e também conheceu aqui o José do Telhado — o salteador. Comoveu-se com a sua história e dedicou-lhe um capítulo inteiro nas Memórias do Cárcere. Foi a partir daí que ele passou a ser ‘o homem que roubou aos ricos para dar aos pobres’, o que não correspondia bem à verdade. Também foi aqui que escreveu Amor de Perdição.”
No 2.º andar do prédio da Praça D. Filipa de Lencastre com entrada nos n.ºs 162 a 178, decorreu o julgamento de Camilo e Ana Plácido (1859-61), acusados de adultério por Manuel Pinheiro Alves. Os réus foram defendidos pelo advogado Marcelino de Matos, e começou por presidir a este emotivo julgamento o juiz José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, pai de Eça de Queirós, que acabou por pedir escusa do cargo. Após vários incidentes processuais, os réus acabariam por ser absolvidos no dia 17 de Outubro de 1861.
Museu do Conflito no Palácio da Justiça
O “Processo de Camilo” está documentado no Museu do Conflito, no Palácio da Justiça, à Cordoaria. Inaugurado em 2024, para contar histórias da justiça na cidade do Porto, estão aqui expostos os documentos originais do julgamento (e que podem ser consultados numa exposição interactiva). Germano Silva recorda ter-se tratado de “um caso que deu brado na cidade, mesmo se o adultério era algo vulgar, um processo por adultério já não o era”. Menos ainda envolvendo “um escritor bem conhecido e uma mulher que pertencia à alta burguesia da cidade”, acrescenta.
Teatro São João
Teatro Nacional de São João NELSON GARRIDO
Teatro Nacional de São João NELSON GARRIDO
Camilo era frequentador assíduo das óperas e operetas no Real Theatro de S. João. Mas, nesse tempo, o espectáculo não se circunscrevia ao palco. Ficou especialmente conhecido o episódio da disputa entre os partidários das “divas” do bel canto que marcaram o final dos anos 1840, com a espanhola Adèle Dabedeille de um lado, e a italiana Clara Belloni do outro. Camilo tomou o partido desta última, tendo-se envolvido por isso em confrontos que começavam dentro do teatro e extravasavam para a rua, entre vivas e pateadas, gritos e bengaladas à mistura — como o próprio romanceou em As Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado.
Jardim de São Lázaro
Aberto em 1834, este é “o mais antigo dos jardins românticos da cidade”. Foi mandado construir por D. Pedro IV, em homenagem às mulheres da cidade, como compensação dos sacrifícios que elas fizeram no Cerco do Porto”. Germano Silva diz que Camilo o percorreu várias vezes. Até porque viveu aí perto, na então designada Rua de São Lázaro (actual Avenida de Rodrigues de Freitas), numa casa onde, a 2 de Março de 1872, recebeu Pedro II, imperador do Brasil. Este encontro ficou associado ao caso d’A Infanta Capelista, romance que o escritor tinha então já no prelo e em que visava de forma pouco abonatória membros da Casa de Bragança. “A boa impressão deixada em Camilo pelo imperador, ou mesmo o pedido deste, levou-o a suspender a publicação do livro, tendo reescrito a história, que seria depois publicada com o título O Carrasco de Victor Hugo José Alves [1872]”, acrescenta o historiador. Bastante mais tarde, em 1957, tendo acesso à reconstituição do texto original, a Livraria Moreira da Costa publicou uma edição fac-similada de 50 exemplares d’A Infanta Capellista. Foi processada pela neta do escritor e condenada a pagar uma avultada indemnização (um processo que poderá ser também consultado no Museu do Conflito).
Rua dos Clérigos
Rua dos Clérigos NELSON GARRIDO
Rua dos Clérigos NELSON GARRIDO
Um dos poisos mais habituais de Camilo na cidade foi a antiga Tabacaria Freitas & Barbosa (prédio com o n.º 2, na Rua dos Clérigos, actualmente em obras), na mesma rua onde existiu a Livraria Internacional, fundada por Ernesto Chardron e Nicolau Moré, editores do escritor. Em 1906, os dois empresários criaram a Livraria Lello, futura editora das Obras Completas de Camilo.
Salão nobre e cemitério da Irmandade da Lapa
A assinalar o bicentenário, a Irmandade da Lapa, associada a um ciclo de conferências e de visitas guiadas, manteve em exposição, na igreja, algumas peças e documentos, entre estes a carta em que o escritor manifesta ao amigo Freitas Fortuna o desejo de ser sepultado no seu jazigo no Cemitério da Lapa e de que “nenhuma força ou consideração o demova de [lhe] conservar as cinzas perpetuamente em sua capela”.
Germano Silva nota que “o Cemitério da Lapa é o mais antigo em Portugal; foi construído em 1833, no tempo do Cerco do Porto, e viria a acolher grandes personalidades desse século romântico. O jazigo pertence a uma família muito rica, que, além de outros negócios, tinha uma tipografia, onde Camilo conheceu João de Freitas Fortuna, de quem se tornou muito amigo”.
Já no corrente ano, e ainda a prolongar a celebração do bicentenário, a Irmandade da Lapa — avança ao P2 Maíra Saragiotto, mediadora cultural da instituição — vai apresentar, a partir de 14 de Abril, uma mostra multimédia com o título Camilo e a Lapa, que dará a ver alguns outros objectos icónicos que foram pertença do romancista, entre os quais estão as lunetas e o revólver com que se suicidou no dia 1 de Junho de 1890. Será ainda editada a publicação Cartas Inéditas de Camilo Castelo Branco, sob a coordenação do professor e historiador Francisco Ribeiro da Silva.
Rusticar em São Miguel de Seide
Após todas estas casas e lugares, e continuando a seguir a cronologia da sua vida, chegamos agora à Casa de Camilo em SãoMiguel de Seide, sede e principal depositária do património material, familiar e literário do autor das Novelas do Minho (1875-77).
À chegada à instituição de Famalicão, José Manuel de Oliveira, que foi o responsável pelo actual percurso expositivo, na sequência do projecto de renovação e de requalificação da quinta envolvente, concluído com a reabertura da casa a 16 de Março de 2022, volta a frisar que “a casa de Seide também nunca foi de Camilo”: trata-se da casa que Manuel, filho de Ana Plácido e Pinheiro Alves, herdou na sequência da morte deste, em 1863.
Foi esta a casa onde finalmente viveu um contexto familiar, mesmo se em vários momentos repleto de drama e conflito, nomeadamente por via da doença do filho Jorge e do temperamento destemperado do filho Nuno. Foi o lugar onde recebeu os amigos, mas também onde finalmente parou e descansou de uma vida aventurosa: “Por aqui estou a rusticar no nabal e na horta de couve-galega. D. Ana cria galinhas e canários. Os pequenos tocam zabumba [bombo tradicional], e o Manuel está ainda na cama, queimado”, escreveu numa carta, não datada, ao seu amigo Vieira de Castro.
“A verdade, contudo, é que pelo condão do seu génio criador e pela necessidade de sublimar os dramas próprios e alheios, o escritor transformou, inquestionavelmente, a moradia de Seide no palco, alguns dirão calvário, mais simbólico de toda a literatura portuguesa”, afirma José Manuel de Oliveira. Mas relembra também que a estada regular do novelista numa aldeia rural de Famalicão, entre o Inverno de 1863 e o suicídio em 1890, lhe permitiu converter o escritório das águas-furtadas da casa amarela na sua prodigiosa “bigorna das Letras”. Camilo produziu ali um notável e inimitável conjunto de peças literárias. Tanto do ponto de vista quantitativo (cerca de 74 títulos, correspondentes a 113 volumes), como qualitativo (Amor de Salvação, A Queda de Um Anjo, A Bruxa do Monte Córdova, O Retrato de Ricardina, Os Brilhantes do Brasileiro, O Demónio do Ouro, Novelas do Minho, Eusébio Macário, A Corja, a Brasileira de Prazins e Maria da Fonte, para citar apenas alguns desses títulos, os quais, por si só, formam uma excelente biblioteca camiliana).
A Casa de Camilo em Seide é, de resto, uma das instituições do género mais visitadas fora dos grandes centros urbanos do Porto e Lisboa. O edifício foi classificado como Imóvel de Interesse Público em 1978 e, em 2006, considerado o melhor museu nacional pela Associação Portuguesa de Museologia.
Com uma história e um recheio por demais conhecidos, pedimos ao investigador e nosso guia que seleccionasse sete itens para orientar o visitante num percurso atento às diferentes dimensões que a casa evoca e convoca.
A Casa
A Casa de Camilo abriu como museu em 1921, por iniciativa de um grupo de amigos do escritor, reconstruída após o incêndio que a tinha destruído seis anos antes. Do ponto de vista arquitectónico, é uma típica casa rural do Minho, que foi sofrendo sucessivas alterações e acrescentos. A intervenção mais recente visou uma repintura das paredes em amarelo, a renovação de alguns equipamentos (como a inestética, mas útil, cadeira-elevador para deficientes instalada na escadaria principal) e a reconstituição da Casa dos Caseiros, onde foram instalados uma cozinha e um espaço de Serviço Educativo.
A acácia do Jorge
“(…) Quando a Acácia do Jorge ainda outra vez enflore/ Chamai-me, que eu de abril nas auras voltarei.” Termina assim o poema Durante a febre (Poesias Dispersas), em que Camilo antecipa o momento da sua morte e se dirige a Ana Plácido e ao seu “filho amado” Jorge, que padeceu de loucura, chegando a ser internado pelos pais no Hospital Conde de Ferreira, no Porto. A árvore que ladeia a escada principal já não é a que Jorge plantou quando tinha oito anos: essa foi inadvertidamente cortada em 2024. A actual resulta de uma replantação a partir de um dos rebentos desta espécie infestante que foram nascendo na quinta. “Trata-se do rebento de um rebento, e assim se mantém a continuidade da acácia original”, nota José Manuel de Oliveira — que, em 2007, usou uma folha da árvore original para criar um marcador de livros aquando da candidatura (e nomeação) da Casa de Camilo para o prémio de Melhor Museu Europeu do Ano (EMYA) do Conselho da Europa.
A secretária do escritor
“É o grande altar da literatura portuguesa!”, exclama o guia, mostrando o móvel de duas faces que permitia a Camilo e Ana Plácido trabalharem em simultâneo, sempre que necessário. “Esta secretária foi o suporte material da sua escrita, seguramente a forja de muitas das suas melhores obras, muitas vezes à luz da vela”, reafirma. Um espaço “observado” por retratos de Alexandre Herculano, Balzac e Victor Hugo, figuras da cabeceira de Camilo. Ao lado da secretária, um armário-biblioteca guarda os perto de 800 volumes que sobraram dos cinco mil que Camilo levou a leilão em Lisboa, em 1883.
O relógio de Eusébio Macário
“Havia na botica um relógio de parede, nacional, datado em 1781, feito de grandes toros de carvalho e muita ferraria. Os pesos, quando subiam, rangiam o estridor de um picar de amarras das velhas naus. Dava-se-lhe corda como quem tira um balde da cisterna…” Abre assim a narrativa de Eusébio Macário (1879), com que Camilo quis provar aos seus leitores que também sabia escrever em registo “realista” e “naturalista”, se desejasse seguir a estética queirosiana então na moda. “Conjuntamente com a acácia do Jorge, este relógio é a única peça que se mantém ‘viva’ desde o tempo em que aqui viveu Camilo”, nota Oliveira, alertando para o simbolismo deste relógio que continua a funcionar, a pontuar a passagem do tempo.
O mirante de Ana Plácido
Numa das paredes da quinta, virada para a estrada, subsiste ainda o chamado "mirante de Ana Plácido", onde a mulher de Camilo se sentava nas horas livres para interpelar ou ouvir quem passava, e assim inteirar-se do correr do mundo que os rodeava. “Quem sabe se não foi ali que ela ouviu a história da Maria Moisés, ou do Cego de Landim, ou da Brasileira de Prazins, e contou ao marido”, diz o historiador, citando esta afirmação de Camilo: “Tudo isto que eu sei, e muito mais que espero saber, é-me contado por uma respeitável senhora” (A Filha do Arcediago, 1854).
“A pedra”
À esquerda de quem entra no caminho que leva à casa, um obelisco de granito — a que Camilo chamava depreciativamente “a pedra” —, mandado colocar por Ana Plácido, assinala a visita a Seide dos seus amigos e parceiros “românticos” António Feliciano de Castilho e Tomás Ribeiro, acontecida no dia 15 de Julho de 1866, a atestar que, apesar de afastado da vida mundana portuense, o escritor não estava de todo isolado. “(…) Debaixo dela estão dez anos da nossa vida. Jazem ali os homens que então éramos. Estou vendo Castilho encostado ao friso da coluna tosca, estou ouvindo os teus versos recitados em nome dos meus filhos… Ah! É verdade: tu não os recitaste porque tinhas lágrimas na voz e no rosto”, escreveu Camilo em carta a Tomás Ribeiro, dez anos depois.
A cadeira do suicídio
O episódio da morte de Camilo, na tarde de 1 de Junho de 1890, está por demais documentado — mesmo se as interpretações do mesmo variam conforme as sensibilidades diversas dos investigadores e biógrafos. Mas recriar essa hora do “dia do desespero” (para citar o filme de Manoel de Oliveira) perante a própria cadeira onde o escritor se suicidou com um tiro de revólver na cabeça, sabendo nós que a esse momento se sucedeu ainda um coma agonizante, é uma experiência diferente de a ver descrita num obituário. Mais ainda se, a seguir, olharmos para a fotografia com que Emílo Biel captou o momento em que o amigo Freitas Fortuna vela sozinho a urna. Três dias depois, como desejado por Camilo, os seus restos mortais foram depositados no jazigo daquele no Cemitério da Lapa.