Vidas reinventadas,
além das grades
Para muitos, é o primeiro emprego.
Para outros, uma nova oportunidade.
“Passei mais tempo preso do que livre."
Nascimento
Infância
Idade Escolar
Centro Juvenil
Prisão
Liberdade
Trabalho
O nome é fictício (a voz também), de maneira a proteger a sua privacidade. A história é real - uma das muitas que todos os dias chegam às mãos das equipas técnicas do Programa Reincorpora, da Fundação "la Caixa".
Lançado em Portugal em 2023, o programa Reincorpora tem como objectivo a (re)inserção socioprofissional de pessoas privadas de liberdade, em articulação com a Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais.
O trabalho começa ainda dentro dos estabelecimentos prisionais, através de itinerários personalizados e intensivos, focados na preparação para o emprego e no desenvolvimento de competências pessoais, sociais e profissionais.
Uma das grandes vantagens deste programa é o seu modo de funcionamento, em ligação com o “programa-mãe” Incorpora, destinado a ajudar as pessoas em risco de exclusão social a terem acesso a um emprego e que se encontra estabelecido em todos os distritos de Portugal Continental, trabalhando a prospecção de empresas contratantes e ofertas de emprego no exterior.
“Este projecto já existia em Espanha e houve aqui a vontade, então, de passar para Portugal, porque a fundação também existe em território português. Em 2022 e 2023, foi implementada uma fase piloto em quatro estabelecimentos prisionais da Área Metropolitana de Lisboa: Lisboa, Sintra, Tires e Setúbal. Com o final desta fase piloto, percebeu-se que existiam condições para não só alargar, mas também consolidar o que já existia. No início de 2025, o programa entrou na fase de operacionalização e foi alargado ao Norte do país”, resume Pedro Cabrita, coordenador da Oficina Técnica Reincorpora, uma estrutura de orientação e coordenação técnica da intervenção em meio prisional e de assessoria à Fundação "la Caixa", implementada pela Aproximar, Cooperativa de Solidariedade Social.
Normalmente, são os técnicos do estabelecimento prisional que identificam os candidatos. Mas o sucesso do programa tem sido tal que, cada vez mais, são os próprios reclusos que procuram o programa Reincorpora.
“Com o decorrer do tempo, temos encontrado bastantes reclusos que ficam tão entusiasmados que às vezes vêm para as sessões e nos dizem que o X quer participar e se podemos falar com as técnicas deles (porque não podemos chamá-los sem falar com a técnica). Sentem que eles próprios também estão a contribuir para ajudar os outros que não têm conhecimento do programa”, explica Patrícia Torres, técnica do programa Reincorpora desde o lançamento do projecto-piloto, a trabalhar na zona de Lisboa.
Embora o percurso do Reincorpora seja marcado por um conjunto de etapas, “elas não são estanques”, sublinha Carmen Almeida, técnica do Reincorpora na zona Norte. “Nenhum candidato parte do mesmo ponto. Por isso é que nós fazemos sempre uma avaliação inicial, por vezes até exaustiva. Porque não faz sentido falar de competências básicas a alguém que tenha essas competências já adquiridas. Portanto, nós vamos adaptando os itinerários Reincorpora às pessoas que estamos a trabalhar no momento. E nenhum é igual.”
“O essencial para começar é tentar que eles desenvolvam aqui algumas competências emocionais e comportamentais essenciais para viver e trabalhar em sociedade, competências de vida. Há esta instabilidade emocional e é fundamental trabalharmos o autoconhecimento, o que é que eles são capazes de fazer, quem são eles para além do crime que cometeram. É muito importante haver aqui esta reflexão, esta motivação, e também a regulação emocional, aprender a gerir a raiva de tudo o que está a acontecer, a gerir a ansiedade quando estão perto da saída, a impulsividade que às vezes nem faz parte do perfil deles mas que dentro da prisão começam a desenvolver, até para se defenderem de tudo o que está lá dentro…”, refere Patrícia Torres.
Este é um trabalho que envolve toda uma equipa: técnicos Reincorpora mas também, sempre que necessário, “e quando foge muito ao nosso posicionamento, outras equipas do estabelecimento prisional, nomeadamente na área da psicologia”, explica Carmen Almeida.
Paralelamente, trabalham-se, então, as competências mais técnicas para a empregabilidade: competências digitais, de comunicação, aprender a fazer um currículo, uma carta de motivação… “Tem muito a ver com cada um, com o percurso que já desenvolveram ou não. A ideia é trabalhar o projecto de vida deles, que consiste em algumas questões importantes: quem sou eu, qual é o meu objectivo, o que é que eu preciso de fazer para lá chegar, que competências é que eu tenho, quais é que eu preciso de melhorar ou quais é que eu não tenho e acho que preciso para determinadas funções… E às vezes não só para o trabalho em si, também para a minha vida lá fora. Porque quando estamos a falar de trabalhar a inserção laboral, é muito mais do que dar competências para trabalho. Há aqui um conjunto de ferramentas. No fundo, é trabalhar um plano durante o tempo que eles ainda estão lá dentro para que, quando chegam à fase já final da pena, já vão com as ideias organizadas: o que é que eu preciso fazer, que curso é que se calhar preciso tirar, se calhar vou tirar a carta de condução porque me vai fazer falta porque quero ir trabalhar para uma empresa como motorista… E eles já levam tudo muito planeado, muito organizado, e é isso que nós vamos trabalhando ao longo das sessões”, resume Patrícia.
Diagnóstico
Tudo começa com o autoconhecimento. Os técnicos avaliam competências e desenham um plano à medida.
Capacitação
Formação prática e desenvolvimento de soft skills. Aprender a cumprir horários e trabalhar em equipa.
Intermediação
A ponte com o mercado. O programa Incorpora identifica empresas abertas a dar uma segunda oportunidade.
Futuro
Acompanhamento pós-contratação. Garantir que a integração é plena e que o novo caminho é para manter.
A Entrada no
Mundo do Emprego
É com a ajuda dos técnicos do “programa-mãe”, o Incorpora, que estas pessoas são, depois, colocadas.
No momento da procura activa de emprego, “o técnico Reincorpora começa a trabalhar com o técnico Incorpora do território para onde o participante quer ir. Vamos imaginar que o técnico de Tires está a acompanhar uma senhora que quer ir viver para a zona de Linda-a-Velha - o que é que se faz? O técnico Reincorpora vai procurar na rede Incorpora qual é a organização que trabalha ali o território de Linda-a-Velha. O que é sugerido é que o primeiro momento seja até ainda dentro do Estabelecimento Prisional (EP), ou seja, que a técnica Incorpora vá ao EP, para ser um momento em que o técnico Reincorpora também está presente. Ao fim ao cabo, pode parecer contraditório, mas é um porto seguro, ainda, a prisão, porque, às vezes, o vir cá para fora coloca muitos gatilhos. Este primeiro atendimento ser neste ambiente que se conhece, controlado, permite mitigar e apresentar de uma forma boa cada um dos intervenientes”, explica Pedro Cabrita.
Este trabalho conjunto, entre técnicos Reincorpora, programa Incorpora e as empresas que integram o programa é, na opinião de Pedro, aquilo que diferencia o projecto de outras redes de empregabilidade: “muitas vezes, o que acontece no mundo da empregabilidade é que o peso da responsabilidade cai só sobre ou quem está à procura de trabalho ou sobre a empresa que está à procura de um trabalhador. Aqui, acabamos todos por trabalhar em conjunto, desde a pessoa que está à procura, o técnico que apoia e a empresa que quer contratar, que ajudam a que haja uma boa correspondência e que seja uma relação com futuro.”
Há vários factores que podem contribuir para que isto aconteça. O primeiro, refere Patrícia Torres, é o tempo. “O tempo é um factor crítico: sem ocupação, aumenta o risco de recaída em comportamentos anteriores.…É uma mais-valia podermos encaminhar os participantes para as colegas do Incorpora, porque elas têm uma visão muito mais abrangente das empresas, das ofertas… Nós entregamos-lhes o perfil o máximo moldado que conseguimos e é muito mais fácil e mais rápido”, conclui.
“Um grande objectivo é que não voltem para os Estabelecimentos Prisionais, que fiquem mesmo na sociedade e que contribuam para a mesma através do trabalho”, continua Pedro.
Outro factor, identifica Carmen Almeida, passa por encontrar algo de que realmente gostem. “Enquanto técnicos, não vemos muita dificuldade na colocação laboral das pessoas. O que há é alguma dificuldade na manutenção dos postos de trabalho. E é nessa manutenção que nós trabalhamos, sobretudo no pós-reclusão. Trabalhamos muito com eles a ideia de que não podem aceitar o imediato. O que é que gostam realmente de fazer e o que é que não fariam certamente?”
E, finalmente, há um terceiro factor que parece ser fundamental: o acompanhamento.
“Antes e após a colocação laboral, continuamos sempre com este acompanhamento, que dura até sentirmos que realmente aquela pessoa já tem todas as competências de autonomia para a sua adaptação em meio livre. Não existe uma fórmula secreta. Enquanto se calhar uns, ao fim de dois, três meses após integração laboral, só necessitam de fazer pontos de situação regulares, saber se está tudo a correr bem, se há alguma dificuldade, noutros é mais exaustivo e o acompanhamento é mais regular”, refere Carmen.
“Nós funcionamos quase não só como facilitadores para o emprego, mas também como alguém que está lá enquanto apoio e presença. Muitas das vezes há certas dificuldades do dia-a-dia que nós, enquanto pessoas colocadas em meio laboral, também vamos sentindo. Por exemplo, o colega olhou-nos de lado: para eles, é uma atitude com uma relevância diferente. “Está-me a olhar de lado porquê? Porque sabe que sou ex-recluso?” E essas questões, eles também nos vão devolvendo, e ligam: "Olhe, aconteceu isto no trabalho - valorizo ou não valorizo?” Portanto, também há esta adequação ao próprio meio real. O que também faz com que a manutenção e a sustentabilidade do posto de trabalho seja mantida ao longo do tempo.”
Às vezes, o vínculo que se cria ultrapassa mesmo as questões laborais: “É muito interessante porque até ao dia de hoje eles ligam-me para contar coisas que conseguiram fazer até na vida pessoal. Por exemplo, "já consegui ir viajar para visitar o meu irmão”. Eles acham que nós vamos ficar contentes de alguma forma por saber que eles também já conseguem fazer outras coisas, que desbloquearam outras coisas não só da parte laboral”, acrescenta Patrícia.
Números do Reincorpora em Portugal
Estabelecimentos Prisionais
Participantes Activos em Itinerário
Em Acompanhamento para Emprego
O FACTOR X
Uma vez colocados, integrados e a trabalhar, haverá, afinal, vantagens para as empresas na colocação de candidatos com um historial de reclusão?
Patrícia Torres acredita que sim. “A mensagem que recebi de uma empresa foi que, se não soubessem que ele tinha estado preso, nunca adivinhariam. Ficam muito surpreendidos pelo esforço que eles fazem, porque parece que eles têm aqui um esforço a duplicar, a necessidade de mostrar que podem ser iguais aos outros, que se calhar até podem fazer melhor.”
É esta também a experiência de Carmen: “O facto de terem estado privados de liberdade tanto tempo e tornarem-se novamente socialmente úteis traz um empoderamento natural. E, para as empresas, vão ser pessoas extremamente criativas, ou seja, se calhar vão ser os primeiros a implementar soluções novas naquela empresa - e tanto digo isto em trabalhos indiferenciados como trabalhos diferenciados, porque o Reincorpora acompanha pessoas com com baixa alfabetização mas também acompanha pessoas licenciadas. Portanto é sempre uma mais-valia para as empresas, exactamente por este que carácter criativo que vão trazer”.
Em entrevista sobre o programa Incorpora, Ana Luisa Martinho, da área científica de Ciências Sociais do ISCAP-P.PORTO e investigadora do CEOS.PP, confirma a teoria: “Se pensarmos especificamente nos perfis com maior vulnerabilidade no acesso e na manutenção do emprego, o que as entidades empregadoras muitas vezes ignoram é que muitas destas pessoas desenvolveram, ao longo da vida, competências altamente valorizadas em todos os rankings de competências transversais, como a resiliência e a criatividade.”
A necessidade constante de encontrar estratégias de subsistência constitui um elemento estruturante, formador e potenciador (...) Os seus percursos de vida, frequentemente marcados por um conjunto de desvantagens, são também trajectórias de superação e reinvenção.
Todos os seres humanos têm direito ao trabalho.
— Artigo 23 da Declaração Universal dos Direitos Humanos
Fazer a
Diferença
“Poder trabalhar significa muito mais do que ter um emprego — é ter um espaço de pertença, reconhecimento e oportunidade para construir uma vida com dignidade”, referia, na mesma entrevista, Ana Luisa Martinho.
E esse impacto, garantem as técnicas, é visível ainda antes do primeiro contracto de trabalho.
“A evolução é gradual mas é muito visível em meio prisional, até mesmo no tipo de comportamento e reacção ao comportamento do outro. Acho que se tornam menos reactivos, menos impulsivos, começam a pensar mais nos outros, na dificuldade que o outro tem - porque, muitas vezes, em meio prisional, centram-se muito nos próprios problemas, tudo é prioritário para eles. E há este trabalho até mesmo da forma de estar e de ser: como é que eles são, como é que os outros os vêem e como é que eles querem que os outros os vejam. Trabalhamos muito esta questão da imagem. Como é que gostaria que os outros o vissem?”, explica Carmen.
A opinião é partilhada por Patrícia: “Ao longo deste tempo, tenho achado que se nota mais a mudança na estabilidade emocional, na compreensão deles das consequências dos comportamentos que eles tiveram e que podem vir a ter. Acho também que [o programa Reincorpora] muda muito a esperança que eles têm no futuro e na sociedade em si. Com este trabalho, eles começam a fazer planos, a projectar como será daqui a um ano, daqui a cinco anos… É muito interessante perceber que no início isto nem sequer lhes passa pela cabeça, é quase um dia de cada vez… E também é muito interessante ver o sentimento de pertença social [que se desenvolve ao longo do tempo], porque alguns acham-se mesmo excluídos da sociedade.”
São palavras que têm eco na experiência de André:
Tem mesmo de fazer a diferença.”
CONTEÚDO COMERCIAL