O último reduto
inexplorado do planeta
O que está em causa na mineração em mar profundo,
e porque devemos compreender antes de agir
A transição energética criou uma nova narrativa para explorar o mar profundo. Mas a ciência diz que mais de 90% das espécies abissais ainda são desconhecidas - e que os minérios que se pretendem extrair levaram milhões de anos a formar-se. Uma vez retirados, não voltam. A Fundação Oceano Azul diz que a pergunta certa não é “mar profundo ou descarbonização” - e explica porquê.
O mar profundo começa a partir dos 200 metros abaixo da superfície, onde a luz solar já não alcança. É um ambiente de pressões esmagadoras, temperaturas extremas e escuridão absoluta, e é o maior ecossistema do planeta, ocupando quase dois terços da sua superfície.
Um exemplar de Farrea, um género de esponjas de vidro raras, encontradas em águas profundas. © NOAA
Um exemplar de Farrea, um género de esponjas de vidro raras, encontradas em águas profundas. © NOAA
Alberga peixes-lanterna, polvos-dumbo, corais e esponjas com milhares de anos, muitos deles espécies que não existem em mais nenhum outro lugar. Regula o clima ao armazenar enormes quantidades de carbono, mantém a circulação oceânica que distribui nutrientes à escala planetária, sustenta pescas das quais dependem inúmeras comunidades e encerra um vasto potencial por explorar no desenvolvimento de novos medicamentos. O que acontece no fundo do oceano reflete-se à superfície.
No oceano profundo, a milhares de metros de distância da superfície, repousam nódulos polimetálicos - concreções de manganês, níquel, cobalto e cobre que crescem ao ritmo de alguns milímetros por milhão de anos. Nas últimas décadas, estes nódulos tornaram-se o centro de uma actividade que alguns proponentes apresentam como indispensável: a mineração em mar profundo (deep-sea mining) é apresentada como a chave para garantir os minerais críticos necessários à transição energética global. Baterias, painéis solares, turbinas eólicas... e o argumento é que sem os nódulos do mar profundo, a descarbonização fica em risco.
Para Sérgio Carvalho, Director Adjunto para Assuntos Internacionais da Fundação Oceano Azul, este argumento é, em grande medida, “um mito de conveniência”. “A maioria das tecnologias de bateria em rápida expansão - incluindo as baterias de fosfato de lítio e ferro (LFP), dominantes nos veículos eléctricos hoje - não utiliza manganês, cobalto ou níquel de nódulos polimetálicos”, explica. Os avanços na reciclagem, na eficiência e na substituição de materiais estão a avançar a um ritmo que, defende, “pode tornar a exploração dos fundos marinhos irrelevante e/ou desnecessária”. Em todo o caso, acrescenta, “se ainda assim decidíssemos avançar com esta actividade, e mesmo assumindo as projecções mais favoráveis do sector, a contribuição da mineração dos fundos marinhos para o fornecimento global de metais permaneceria marginal - um complemento residual à mineração terrestre, não o milagre que nos querem fazer crer”.
Pradeep Singh, especialista em Governação do Oceano na Fundação Oceano Azul, acrescenta uma dimensão adicional. Para Pradeep Singh, há uma contradição interna na narrativa: a destruição causada pela mineração abissal fará com que falhemos “clamorosamente nos objectivos de biodiversidade - o que, por sua vez, afectará os nossos objectivos climáticos, energéticos e societários”. Por outras palavras: o argumento de que a mineração em mar profundo serve a transição energética pode estar a sabotar exactamente os objectivos que pretende defender. “É uma narrativa falsa”, diz. “E quem a propaga fá-lo claramente por interesse próprio”.
Nódulo polimetálico, profundidade de 5000 metros, Oceano Pacífico
Nódulo polimetálico, profundidade de 5000 metros, Oceano Pacífico
Nódulo de manganês, Oceano Pacífico. © NOAA
Nódulo de manganês, Oceano Pacífico. © NOAA
Nódulo polimetálico, profundidade de 5000 metros, Oceano Pacífico
Nódulo polimetálico, profundidade de 5000 metros, Oceano Pacífico
O IMPACTO AMBIENTAL
Mineração em mar profundo
num Ecossistema Desconhecido
O desafio da mineração em mar profundo não é apenas o que pode destruir. É também o que ainda não conhecemos. Estima-se que mais de 90% das espécies que habitam o fundo do oceano nunca foram identificadas. Os ecossistemas abissais - fontes hidrotermais, montes submarinos, planícies abissais, para nomear apenas alguns - são estruturas de grande complexidade biológica que a ciência apenas começou a cartografar. E são também estruturas particularmente frágeis: as temperaturas extremas, pressão esmagadora e o ritmo lento dos processos biológicos fazem com que a recuperação de qualquer perturbação demore séculos, milhares ou mesmo milhões de anos - podendo mesmo não ser possível a recuperação.
Imagem batimétrica do National Oceanic and Atmospheric Administration
Imagem batimétrica do National Oceanic and Atmospheric Administration
A extensão do desconhecido tem uma implicação prática directa: torna praticamente impossível fazer avaliações de impacto ambiental significativas. Segundo Pradeep Singh, cada vez que uma expedição de investigação é realizada no fundo do mar, “cerca de 9 em cada 10 espécies descobertas são novas para a ciência”. Para uma avaliação de impacto ser minimamente credível, seria necessário estabelecer as condições de base do ecossistema, o que exige anos de observação prévia. “Esse nível de conhecimento não existe”, sublinha. Com base nos testes e experiências de perturbação já realizados, a conclusão é clara: as actividades de mineração em mar profundo “causarão danos irreversíveis à escala humana, e a restauração pós-perturbação não é viável”.
“Cada vez que uma expedição é realizada, cerca de 9 em cada 10 espécies descobertas são novas para a ciência. Para uma avaliação ser credível, seriam necessários anos de observação prévia. Esse nível de conhecimento não existe”
A mineração em mar profundo não perturba apenas o local de extracção. As plumas de sedimento que liberta, tanto no leito marinho como na coluna de água, podem espalhar-se por distâncias muito significativas, afectando habitats muito para além da área de extracção e contaminando a teia trófica marinha. Pradeep Singh alerta ainda para os efeitos cumulativos: se as actividades mineiras forem realizadas em áreas próximas entre si - como é provável no caso do Oceano Pacífico - “os impactos cumulativos podem ser particularmente severos”. Há ainda o impacto no ciclo do carbono marinho: os sedimentos do fundo do mar funcionam como repositórios de enormes quantidades de carbono, e a sua perturbação pode ter consequências que ainda não sabemos quantificar.
Quem decide sobre o mar profundo
Quem tem o poder de licenciar a exploração comercial?
Ao abrigo do direito internacional, o fundo do mar em águas internacionais é considerado Património Comum da Humanidade, o que significa que qualquer actividade lá desenvolvida deve beneficiar a humanidade no seu todo, e não apenas interesses corporativos ou nações isoladas.
A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) foi criada pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar para gerir os recursos minerais do fundo marinho na Área, para além das jurisdições nacionais, e zelar pela protecção ambiental destes ecossistemas.
Nos últimos anos, tem sido alvo de críticas crescentes por parte de cientistas, organizações ambientais e países que consideram que o ritmo das negociações sobre licenciamento não tem acompanhado o estado do conhecimento científico.
A preocupação central: que as decisões sobre explorar os fundos marinhos sejam tomadas antes de existir evidência suficiente sobre o que se está a destruir.
Para Sérgio Carvalho, a legitimidade da ISA depende da capacidade de reforçar a sua governação. “Isso implica, em primeiro lugar, garantir condições de igualdade genuína: todos os Estados, independentemente das suas posições ou da sua capacidade técnica ou financeira, devem ter voz efectiva nas deliberações”, diz. E acrescenta:
“Qualquer futuro processo de licenciamento credível tem de estar ancorado na melhor ciência disponível - com órgãos consultivos científicos independentes com autoridade real, não apenas simbólica.”
O risco de que os resultados negociais sejam conduzidos ou antecipados, em vez de serem facilitados com neutralidade, é uma das preocupações mais frequentemente levantadas. Sérgio Carvalho sublinha que o reforço da governação da ISA não é apenas uma questão procedimental: é a condição para que qualquer decisão sobre o mar profundo seja legítima e duradoura.
Há também uma dimensão de justiça nesta discussão. Os países em desenvolvimento - muitos dos quais são pequenos Estados insulares com ligações profundas ao oceano, participam activamente nas negociações da ISA mas raramente são os que beneficiam da actividade. A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS) estabelece que o fundo marinho para além das jurisdições nacionais é “património comum da humanidade”, o que implica uma obrigação de partilha equitativa. Mas na prática, os mecanismos que garantem essa partilha são ainda embrionários, e a capacidade técnica e financeira necessária para participar de forma informada nas decisões da ISA é muito desigual entre países.
Pausa
Precaucionária
A Posição da
Fundação Oceano Azul : compreender antes de agir
A Fundação Oceano Azul A Fundação Oceano Azul — em conjunto com uma vasta coligação internacional de governos, cientistas e organizações não-governamentais — apoia uma moratória global ou pausa cautelar para a extracção de minerais do fundo do mar. Não se trata de uma proibição definitiva, mas de uma pausa, um compromisso de compreender antes de agir e de proteger antes que os erros se tornem irreversíveis.
As condições mínimas que a Fundação identifica para que o aproveitamento comercial possa alguma vez ser considerado de forma responsável são três:
- conhecimento científico suficientemente robusto sobre os ecossistemas afectados;
- demonstração de que os impactos podem ser mitigados sem danos irreversíveis;
- e garantia de que os benefícios das actividades extractivas, se se vierem a confirmar, serão para o benefício da humanidade e equitativamente partilhados, em especial com os países em desenvolvimento, que participam activamente nas negociações internacionais mas raramente são os que beneficiam destas actividades.
Afinal, existe uma estrita obrigação internacional de assegurar que os direitos e interesses das gerações vindouras a um ambiente saudável e a um oceano próspero e funcional sejam salvaguardados — por conseguinte, as actividades levadas a cabo hoje devem incorporar essa visão de futuro e não ocorrer à custa do amanhã.
“Não se trata de bloquear a mineração de forma absoluta, mas de reconhecer que ainda não sabemos o suficiente para tomar decisões irreversíveis sobre ecossistemas que levaram milhões de anos a formar-se”
O Argumento da Transição Energética
O Tratado BBNJ e a Governação Internacional do Oceano:
Quando as decisões políticas chegam ao fundo do mar
A discussão sobre a mineração em mar profundo não acontece no vazio. Neste contexto, o Tratado do Alto Mar (BBNJ) representa algo mais do que um conjunto de países alinhados. Mais de 140 países já assinaram o acordo e dezenas já o ratificaram, demonstrando o seu compromisso com a proteção do oceano e com a entrada em vigor prevista para janeiro de 2026.
A Fundação Oceano Azul assume o papel de Secretariado dos “Ocean Pioneers”, uma coligação de países que se comprometeram com a implementação efectiva do tratado, e que apoiam também a pausa precaucionária sobre a mineração abissal.
O contexto geopolítico complica o quadro. A retirada dos Estados Unidos de acordos multilaterais de clima e biodiversidade reduz a pressão colectiva sobre os países que pretendem avançar com licenciamento. Mas a Fundação Oceano Azul argumenta que esta ausência não torna a decisão menos urgente, antes pelo contrário: é preciso que os países dispostos a liderar pelo exemplo o façam com maior clareza e consistência.
Futuro do Oceano
O debate sobre mineração dos fundos marinhos é, no fundo, um debate sobre irreversibilidade.
As decisões que se tomarem nos próximos anos sobre o licenciamento serão, em muitos casos, permanentes. Ecossistemas que levaram milhões de anos a construir-se não se recuperam numa escala de tempo humana. Espécies que ainda não foram descobertas podem desaparecer antes de sequer serem descritas.
Há um argumento climático que raramente entra neste debate: os ecossistemas abissais são também infra-estrutura de regulação climática. Pradeep Singh sublinha que “apenas agora começamos a compreender a importância do fundo do mar nessa regulação”. “Um oceano forçado a ter um desempenho inferior como regulador climático - devido às alterações climáticas e às pressões humanas, e agora acrescentando o deep-sea mining - só poderá resultar em desastre para a humanidade”, afirma, acrescentando que “isso inclui as gerações futuras, que ficarão presas pelas decisões que a sociedade toma hoje”.
Os sedimentos dos fundos marinhos sequestram carbono; os processos biológicos das profundezas alimentam cadeias tróficas que sustentam pescas das quais dependem inúmeras comunidades. A degradação destes sistemas não é apenas uma perda ecológica, é destruição de infra-estrutura climática e económica cujo valor ainda não sabemos calcular.
A pergunta que fica, e que a Fundação Oceano Azul coloca com consistência, é simples: deve ser a ciência e a equidade - e não o calendário político ou os interesses comerciais - a determinar se e quando a mineração poderá ser considerada viável. Por enquanto, a resposta é que essa ciência ainda não existe.
Neste contexto, o Tratado BBNJ e os Ocean Pioneers representam algo mais do que um conjunto de países alinhados numa posição negocial.
Representam uma aposta na possível alternativa: que é possível construir governação internacional séria para o oceano, baseada na ciência e na equidade, antes que as decisões irreversíveis sejam tomadas.
O mar profundo é a última grande região intacta do planeta Terra, e esta pode ser a nossa única oportunidade de a preservar, pelo benefício das gerações presentes e futuras.
#DefendTheDeep
CONTEÚDO COMERCIAL



