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11 Feverreiro 2026 - 17h26
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E se o fim do mundo estiver próximo?
Por Ana Filipe Gaspar

“O fim dos tempos chegou”, grita um profeta louco pelas ruas de Bruxelas, onde o alcatrão derrete, os pneus dos carros rebentam e milhares de ratos fogem desesperadamente. Neste cenário horrível, Tintim não consegue evitar a preocupação. Será que às 8 horas, 12 minutos e 30 segundos o mundo vai acabar, tal como calculou o professor Calys? Quando o jovem repórter acorda são e salvo no seu sofá, percebe que foi apenas um pesadelo e um tremor de terra.

Ao criar A Estrela Misteriosa, Hergé transpôs para as pranchas de BD o ambiente apocalíptico que o mundo vivia na altura. Estávamos em 1941 e os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial abalavam a Europa. Na Bélgica, as tropas alemãs controlavam o país e o jornal onde o pai de Tintim publicava as suas pranchas tinha de se sujeitar à censura dos invasores. Mais tarde, foi essa a justificação que Hergé apresentou para alguns pormenores na história que o levaram a ser acusado de anti-semitismo – o nome do vilão e o nome do banco que patrocina o Peary são de origem judaica – e de politicamente comprometido com as forças do Eixo.

Apesar de ser uma aventura fantástica, repleta de elementos surreais, há nela uma ligação permanente com a realidade. Por um lado, a corrida para chegar ao aerólito que caiu no Árctico, disputada entre a expedição do Fundo Europeu de Pesquisas Científicas (FERS) e a expedição Peary, organizada por um banco de São Rico (mais um país inventado por Hergé), é considerada um relato prévio do desembarque na Normandia em Junho de 1944.

Mas, na história, tudo indica que a vitória é dos países do Eixo. A expedição a bordo do Aurora conta com membros oriundos apenas de países associados ao Eixo ou neutros – como é o caso de Portugal representado pelo “célebre físico da Universidade de Coimbra”, Pedro João dos Santos – enquanto a expedição Peary é conotada com os norte-americanos na primeira versão da banda desenhada, ao ser erguida a bandeira dos EUA no bote que concorre com Tintim na chegada ao aerólito.

Ao contrário da aventura em banda desenhada, no DVD A Estrela Misteriosa o capitão Haddock não é tentado pela sua grande paixão – o whisky – e assume o papel de “homem do leme”, sempre seguro e decidido, conduzindo uma viagem difícil pelas regiões frias e inóspitas do Pólo Norte. Cronologicamente, este é o primeiro grande desempenho do marinheiro nas aventuras de Tintim, revelando o seu carácter impulsivo e a sua generosidade.

A principal (e rara) ausência diz respeito aos Dupond(t), cujas divertidas trapalhadas deixam sempre saudades.