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2 Abril 2026 - 07h57
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Na zona da morte
A proeza de caminhar a 8000m
Por Luís Francisco

Mais de um minuto para ir da sala à cozinha, uma hora para dar a volta ao quarteirão. O esforço físico a grandes altitudes é um mundo em câmara lenta, onde a vontade humana desafia as leis da Natureza.

Quase todas as grandes proezas desportivas encerram uma aura de irrealidade, um "não sei quê" de impossível que as torna míticas. Mas se é difícil ao cidadão comum imaginar, sentado do seu automóvel, como será descrever curvas a 250 km/h ao volante de um Fórmula 1, ainda mais complicado é perceber o esforço titânico que está em causa quando se faz qualquer exercício físico em grandes altitudes.

A noção básica a reter é que o homem não nasceu para viver nestas paragens. Qualquer permanência prolongada acima dos 5500m implica a perda, gradual mas irreversível, de qualidades físicas -- nos Andes, apesar de haver minas acima dessa altitude, a sua exploração não é possível com meios humanos, porque os trabalhadores não resistem. E quando se estica esse limite para lá da zona da morte, globalmente considerada acima dos 7500m, então o risco é mesmo muito grande.

Os alpinistas que, como os portugueses João Garcia e Hélder Santos, que nesta Primavera se propõem escalar o Lhotse (8516m), optam por progredir sem o recurso a garrafas de oxigénio sabem os riscos que correm. Sabem que o seu desempenho físico e intelectual estará embotado devido à falta de oxigénio (porque a pressão é menor, entra menos oxigénio nos pulmões a cada inspiração -- no cume, será apenas cerca de um terço do existente ao nível do mar).

Nestas paragens, morre-se de exposição mesmo sem fazer qualquer esforço físico. A vida humana é impossível e o truque dos alpinistas é limitar ao mínimo a permanência nas grandes altitudes. É por isso que o dia de cume é um longo "sprint" montanha acima e montanha abaixo, até regressar a zonas onde seja possível o corpo recuperar do desgaste sofrido.

Ver imagens de alpinistas em alta montanha e escutar os seus relatos pode dar uma falsa impressão de facilidade. Na verdade, estes homens são supermaratonistas, capazes de esticarem os limites da sua resistência física com uma forte componente de motivação e disciplina mental. "Tem tudo a ver com disciplina", acentua Gonçalo Velez, o primeiro português a escalar um "oito mil", também ele sem garrafas de oxigénio.

Manter um ritmo certo, poupar forças e encontrar o optimizar cada movimento são regras comuns aos alpinistas, aos maratonistas e a todos os que desenvolvem esforços de longa duração. Quando se trata de subir montanhas, a pressa ou a ansiedade são, normalmente, o caminho mais curto para o fracasso. Gerir o esforço é a lei máxima, em jornadas que podem durar 18 horas sem descanso.

João Garcia, que em 1999 escalou o Evereste, compara no seu livro "A Mais Alta Solidão" (ed. D. Quixote) a velocidade de marcha a 8000m com o ritmo de "velhinhas a atravessar a estrada". Talvez seja ainda mais devagar...

Cada 100 metros de desnível podem significar uma hora de esforço. Pensando numa pendente média de 45 graus, trata-se de uma distância de 200 metros, o que equivale a dizer que, a esta altitude, a velocidade dos alpinistas é de cerca de 2,3 metros por minuto! Muito mais lento do que qualquer velhinha...

"Na verdade, é um passo a cada dois, três segundos. E são passos muito pequenos, para limitar o desgaste", acentua Gonçalo Velez. O truque é manter um ritmo certo, evitando mudanças de andamento e pausas prolongadas, mesmo se o frio, o cansaço e o entorpecimento da vontade causado pela falta de oxigénio "mandam" parar o corpo.

Nestas alturas, a força mental pode fazer toda a diferença. Uma das máximas dos alpinistas é não traçar objectivos à distância, pensar em cinco metros de cada vez, enfim, como diz a velha máxima, pôr um pé à frente do outro. Sempre, durante horas a fio, sem vacilar. E, no fim, ainda é preciso descer.