Gonçalo Velez "mostra" o caminho
O que falta até ao cume
Por Luís Francisco
A expedição portuguesa ao Lhotse (8516m) aproxima-se dos seus momentos mais intensos, quando os alpinistas João Garcia e Hélder Santos lançarem a sua tentativa de cume. Até agora, os dois já subiram até aos 7300m, onde montaram o seu campo 3, e esperam que a previsível diminuição da intensidade dos ventos lhes permita avançar a partir de 21 ou 22 de Maio. À sua frente encontrarão um caminho que outro português, Gonçalo Velez, já trilhou há cinco anos.
Em 2000, o primeiro português a escalar um "oito mil" -- o Annapurna, em 1991 --, tentou
o Lhotse, integrado numa expedição internacional. As coisas correram bem até ao dia de cume, mas então os seus parceiros rapidamente saíram de cena. "Dois partiram mais cedo, mas regressaram a seguir, porque um se tinha esquecido das luvas, e já não voltaram a subir. Outro desistiu logo no campo 4 e eu subi sozinho", recorda Gonçalo Velez.
Depois do campo 3, os alpinistas sobem com uma tenda, que montam numa zona rochosa, a cerca de 7800m. É aí, num campo 4 que só é instalado com antecedência para as expedições comerciais, que passam a noite antes de se lançarem nos metros finais
da escalada.
"Daí para cima", recorda Velez, "é sempre a subir, por uma encosta sem grandes referências visuais, mesmo porque se progride ainda de noite, até atingir o corredor que leva ao cume." Então torna-se mais fácil perceber o caminho, limitado pelas paredes rochosas, mas surgem outras complicações: "É preciso ter atenção à neve, que se acumula naquela zona e dificulta a progressão. A inclinação média ronda os 50 graus e dali não se consegue ainda ver o cume."
Para azar do português, havia muita neve na altura em que tentou escalar o Lhotse.
"Eram uns bons 40cm de neve fofa, onde me enterrava a cada passada... as forças vão-se mais depressa", analisa Gonçalo Velez, que já escalou quatro "oito mil" na sua carreira.
O esforço durou horas, a progressão era lenta. Tendo saído da tenda às 2h30 da manhã, eram 16h00 quando sentiu necessidade de pedir ajuda pelo rádio.
"Tinha começado a nevar, apareceram nuvens, a visibilidade deteriorou-se.
O meu altímetro não me dava informações correctas (era barométrico, ou seja, funcionava pela pressão atmosférica, e, como o tempo estava a mudar, deixou de ser fiável) e eu precisava de saber se o cume ainda estava longe." Mas o seu chefe de equipa tinha emprestado o rádio a um georgiano -- "Irmão do actual Presidente", observa Velez -- e havia dificuldades de contacto. "Quando finalmente conseguimos falar, ele pediu-me para lhe ligar mais tarde, que estava a comunicar com a equipa dele..."
A quase 8500m, esperar é coisa que não se pode fazer. Gonçalo Velez garante que teria forçado até ao cume se tivesse a certeza, como tem agora, de que lhe faltavam cerca de 100 metros verticais para lá chegar. Mas na altura estava sem referências e, por isso, decidiu voltar para trás. "Enquanto se anda no corredor, é fácil encontrar o caminho.
Mas depois, ao saírmos para a face da montanha, é preciso não falhar a tenda do campo 4."
E, com o cair da noite, esse risco aumenta.
No dia seguinte, nove georgianos subiram por ali a cima e alguns fizeram cume. "Eu é que já não tinha forças para me juntar a eles", confessa Gonçalo Velez, com uma pontinha de amargura. Mas que logo passa, ao recordar um momento especial da escalada: "Esta rota tem uma coisa muito bonita. Quando nasce o sol, vemos o Evereste, mesmo ali ao lado.
É uma visão extraordinária." |