A vertente humanitária
O simples gesto de ligar o interruptor
Por Luís Francisco
Uma expedição de alpinismo é sempre mais do que simplesmente escalar uma montanha. Mas para os portugueses João Garcia e Hélder Santos, que nesta Primavera se propõem subir ao cume do Lhotse (8516m), a quarta montanha mais alta do mundo, alguns dos “extras” já estão no programa. É o que acontece com aquilo a que chamam “vertente humanitária” da sua viagem ao Nepal.
Os alpinistas portugueses levaram consigo algum material que vão instalar em casa de alguns sherpas, o povo local. Após a saída da montanha, o forno solar que utilizam durante a expedição será entregue a uma família, que assim passa a poder cozinhar sem recorrer a lenha ou querosene – no primeiro caso, poupando a floresta local; no segundo, beneficiando o ambiente dentro das quatro paredes.
Noutra habitação – “Ou talvez duas”, sugeria João Garcia antes da partida de Portugal – será instalado um painel solar, que passará a fornecer energia eléctrica a um agregado familiar. “É algo de tão básico que nós, no nosso mundo, nem reparamos como é importante: a possibilidade de, com um simples gesto, ligar um interruptor e ter luz em casa”, lembra o alpinista português.
Com o painel solar e uma lâmpada não haverá necessidade de ter a funcionar à noite candeeiros a querosene, que libertam fumo e um cheiro muito forte. “Quando entramos numa casa, basta olhar para as vigas do telhado e ver como estão negras”, conta Garcia, que há muitos anos frequenta as aldeias do tecto do mundo. “O que ali vemos é o que acontece aos pulmões desta gente, obrigada a respirar ar poluído noite após noite.”
Não é a primeira vez que o português que escalou o Evereste em 1999 se dedica a estes gestos humanitários. Na verdade, estas acções tornaram-se já uma tradição e as expedições portuguesas de 2003 (Pumori) e 2004 (Amadablam) tiveram, também, a sua vertente de ajuda às populações locais. Uma forma, afinal, de agradecer a hospitalidade das gentes nepalesas e de criar laços de familiaridade que se mantêm através dos anos.
Mas há outras formas de o fazer. Para lá destas acções mais “espectaculares”, o que conta é mesmo a atitude de quem visita estas paragens. João Garcia “já é da casa”, conforme reconhecia Tó Zé Coelho, membro das anteriores expedições lusas aos Himalaias, no regresso do Amadablam. É que, entre outros mimos, o português nunca se esquece de levar filmes em DVD, com legendas em nepalês, para, no seu computador, fazer autênticas sessões de cinema. O sucesso é garantido.
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