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Bento XVI recebe muçulmanos

22.04.2010 - 19:36 Por António Marujo

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O Papa Bento XVI recebeu líderes religiosos muçulmanos e embaixadores de países de maioria islâmica. O encontro serviu para reafirmar o seu empenhamento no diálogo inter-religioso e sublinhar a necessidade de cristãos e muçulmanos trabalharem em conjunto na recusa da violência.

O Papa Bento XVI reafirmou ontem que o diálogo inter-religioso é "uma necessidade vital, do qual depende em grande parte" o futuro da humanidade. Num encontro com líderes religiosos muçulmanos e embaixadores de vários países de maioria islâmica, ontem, em Castelgandolfo (a cerca de 40 quilómetros de Roma), o Papa acrescentou que há uma "necessidade imperativa de um diálogo autêntico entre as religiões e entre as culturas", num mundo "marcado pelo relativismo e que exclui demasiadas vezes a transcendência da universalidade da razão".

O diálogo inter-religioso, acrescentou o Papa, deve ser "capaz de ajudar a ultrapassar todas as tensões, num espírito de colaboração frutuosa". As primeiras reacções, recolhidas pelos jornalistas das agências internacionais à saída do encontro, davam conta de um acolhimento positivo das palavras de Bento XVI por parte de alguns dos participantes.

O discurso foi transmitido em directo pela Al-Jazira e pela Al-Arabiya, as televisões noticiosas com sede no Qatar e no Dubai. Ambas, no entanto, realçaram que o Papa afirmou o seu respeito pelo islão, mas que não pediu desculpa pelas afirmações do seu discurso de dia 12 em Ratisbona (Alemanha). Também a Irmandade Muçulmana do Egipto criticou o encontro, dizendo que ele serviu para o Papa evitar pedir desculpas formais pela citação que usou, faz hoje duas semanas.

Nessa intervenção, causadora da polémica, o Papa usou uma citação de Manuel II Paleólogo. O imperador de Constantinopla na transição do século XIV para o século XV referia Maomé como alguém que trouxe "coisas más e desumanas, como o seu mandamento de difundir pela espada a fé que pregava".

O Papa começou por recordar as circunstâncias, "bem conhecidas", que levaram à realização do encontro. E referiu que as afirmações do Concílio Vaticano II (1962-65) sobre o islão são, para a hierarquia católica, a "Magna Carta" das relações mútuas: "A Igreja olha com estima os muçulmanos, que adoram o Deus único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração, como a Deus se submeteu Abraão, que a fé islâmica de bom grado evoca."

Papa relativiza as próprias palavras

No seu discurso, Bento XVI evitou falar directamente da questão da violência no islão, abordada no discurso de Ratisbona. "Foi um passo em frente", comentou ao PÚBLICO o padre Peter Stilwell, responsável pelo diálogo inter-religioso no patriarcado de Lisboa. Ao citar os documentos do Vaticano II como "Magna Carta", o Papa quis dizer que, "mais do que as suas palavras numa aula universitária, tem valor" a doutrina do Concílio, observa Peter Stilwell.

Este responsável considerara não ter sido feliz a alusão feita pelo Papa ao islão no discurso de Ratisbona. Agora, Stilwell, que é também director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, diz que foi importante o apelo de ontem aos responsáveis muçulmanos, no sentido de trabalharem juntos, com os líderes cristãos, "para evitar qualquer forma de intolerância e opor-se a qualquer manifestação de violência".

"Nós, autoridades religiosas e responsáveis políticos, devemos guiar [os fiéis] e encorajá-los nesse sentido", acrescentou o Papa. Este apelo de Bento XVI, interpreta Peter Stilwell, aponta no sentido de "alargar as responsabilidades" no estabelecimento do diálogo e na recusa da violência.

O encontro de ontem durou pouco mais de meia hora. Depois de uma saudação do cardeal Paul Poupard, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso, o Papa pronunciou o seu discurso em francês, a língua usada pela Santa Sé na diplomacia. No final, Bento XVI saudou pessoalmente cada um dos participantes. Alguns aproveitaram para entregar cartas ou trocar breves palavras com o Papa.

Entre as primeiras reacções surgidas ao discurso de ontem de Bento XVI, estão as de vários embaixadores presentes no encontro. Citado pelas agências internacionais, o embaixador do Iraque, Albert Yelda, um cristão, disse que o discurso era o que ele "esperava". "O Santo Padre afirmou o seu profundo respeito pelo islão. Era isto o que esperávamos. Agora é altura de deixar para trás o que aconteceu e construir pontes" de diálogo, disse o embaixador.

Mohamed Nour Dachan, presidente da União das Comunidades e Organizações Muçulmanas de Itália, afirmou que as palavras do Papa tinham sido positivas. "O diálogo continua", disse, acrescentando que a polémica tinha acabado ali mesmo.

Ahamad Fahima, encarregado de negócios do Irão, afirmou por seu turno que o encontro tinha sido "frutuoso". E Miroslav Palameta, embaixador da Bósnia-Herzegovina, considerou-o "útil".

A reacção mais negativa viria, horas depois, da Irmandade Muçulmana, do Egipto. "É uma nova tentativa do Papa de evitar pedir desculpas", afirmou Mohammad Habib, um dos dirigentes deste grupo. "Quando pedimos ao Papa que pedisse desculpa, desejávamos que fossem desculpas claras e honestas", acrescentou.

Texto publicado a 26 de Setembro de 2006