Os fundamentalistas vão explorar estas declarações "de uma forma muito perigosa"
22.04.2010 - 19:35 Por António Marujo
Num contexto de alta sensibilidade no mundo muçulmano, uma reacção exacerbada era muito previsível, sustenta Maha Azzam, analista da Chatham House.
Com as citações sobre Maomé e a jihad, o Papa Bento XVI "ofereceu o argumento do cristianismo aos fundamentalistas", um argumento que estes deverão explorar "de uma forma muito perigosa", defende Maha Azzam, especialista em islão político. Para esta analista do instituto britânico Chatham House, que falou por telefone ao PÚBLICO, a prazo e para o mundo muçulmano, a consequência será "o enfraquecimento dos moderados".
PÚBLICO - A partir das críticas de líderes religiosos e políticos e dos protestos a que já assistimos podemos antecipar que as declarações do Papa provoquem uma reacção comparável à dos cartoons de Maomé?
MAHA AZZAM - A reacção zangada é muito previsível. Temos uma situação no mundo muçulmano e entre as comunidades islâmicas, também nos países ocidentais, que é de alta sensibilidade em relação ao que é dito sobre o islão. Num certo sentido, os muçulmanos estão à defesa. Claro que a maior parte das pessoas não leram toda a intervenção do Papa, vão apenas ler os destaques, o que é passível de provocar reacções zangadas. Mas o importante é que isso vai criar naturalmente antagonismo. E isso deve levar-nos a questionar por que é que o incluiu no seu discurso. Ao fazê-lo criou obviamente desarmonia entre as comunidades. Quando estas coisas acontecem tendemos sempre a sublinhar a resposta e não o que a provocou. Em relação aos cartoons, podemos também perguntar-nos por que foram publicados, havia a escolha de não o fazer. Mas passamos rapidamente a olhar apenas para as reacções.
O facto de em causa estarem declarações do Papa confere à interpretação que lhes for dada um peso maior?
O estatuto de quem profere estas declarações pode de facto dar a estes protestos uma magnitude muito superior. Não só na rua, mas da liderança do mundo muçulmano, das associações religiosas e de grupos políticos como a Irmandade Muçulmana. O meu medo é que uma animosidade histórica esteja a ser ressuscitada, não por muçulmanos zangados, mas por pessoas que têm uma voz com grande alcance, como o Papa, tal como tem feito o Presidente [George W.] Bush, com a sua insistência no discurso do "nós contra eles".
A repetição desse discurso está a provocar uma situação de não recuo face à ideia do choque de civilizações?
O mais importante, julgo, é o estatuto dos que fazem estas afirmações. Não estamos a falar de um protesto em que participaram umas dezenas ou centenas de pessoas. Estamos a falar de pessoas responsáveis, que sabem perfeitamente as consequências das suas palavras. Penso que faz falta um maior sentido de responsabilidade, e também por parte dos jornalistas e dos analistas se impõe um olhar crítico. Repito: mesmo se há significado mais profundo em toda a intervenção do Papa, mesmo se o Papa estava apenas a citar. Será que não sabem nada sobre soundbites no Vaticano?
Da Turquia, onde o Papa deverá ir em Novembro, chegaram algumas das críticas mais duras. Tendo em conta a delicada questão da adesão turca à União Europeia, que consequências pode ter esta polémica?
Vai certamente criar raiva na própria Turquia. As dificuldades em levar a cabo esta visita vão crescer, haverá quem diga que o Papa não é desejado. Haverá pessoas fora da Turquia que questionarão como pode a Turquia manter a visita e isso deixará o Governo e as autoridades, que já têm dificuldades, numa situação difícil. E isso só sublinha as minhas dúvidas - por que é que o Papa decidiu fazer este discurso agora? Fazer estas declarações, que a um nível académico podem ser compreendidas de outra forma, mas que obviamente iam ter estas consequências, nesta altura, é difícil de compreender. Será que o Papa não queria visitar a Turquia?
É previsível que esta questão seja explorada - por governos, por radicais, por jihadistas. No contexto actual, pode esperar-se maior impacto em alguns países em particular?
É difícil prever se o maior dano acontecerá no Paquistão ou nas ruas da Turquia. O que penso que podemos prever é que o aproveitamento vai fazer-se em larga escala por grupos extremistas e por jihadistas. É um presente, claro, vai permitir-lhes dizer, "aqui está, viram, nós dissemos". E isto vai dar a estes argumentos novas munições. Até agora, mesmo os extremistas mais radicais como a Al-Qaeda referem-se normalmente às políticas ocidentais, não ao cristianismo, não à religião. Agora o Papa ofereceu o argumento do cristianismo aos fundamentalistas. E ele vai ser explorado de uma forma muito perigosa. Uma vez mais, a consequência a longo prazo é o enfraquecimento dos moderados e da opção que eles podiam constituir.
Texto publicado a 16 de Setembro de 2006
