Protestos no Cairo. Avisos para que esqueça a visita à Turquia. Uma granada lançada contra uma igreja em Gaza. Forças de segurança de guarda a igrejas no Paquistão. Numa sexta-feira de orações e discursos, houve um coro de críticas às declarações do Papa sobre a guerra santa.
Alguns analistas previram ontem que as declarações do Papa Bento XVI sobre Maomé e a guerra santa vão provocar reacções mais extremas do que as desencadeadas pelos cartoons do Profeta, publicados num jornal dinamarquês e que em Fevereiro motivaram uma onda de protestos que atravessou praticamente todos os países muçulmanos e provocou a morte a dezenas de pessoas. Estas palavras "vêm da mais importante autoridade cristã no mundo - os cartoons eram apenas de um artista", sublinhou à Associated Press Diaa Rashwan, analista do Centro Al-Ahram, no Cairo.
Foi já terça-feira, na Universidade de Regensburg, que Bento XVI citou um texto medieval (diálogo entre um imperador bizantino, Manuel II Paleólogo, e um persa) que, abordando o tema da jihad (guerra santa), descreve os ensinamentos de Maomé como "maus e desumanos, como o direito a defender pela espada aquele que a persegue". Repetindo "eu cito", o Papa terminou a intervenção com um convite ao "diálogo de culturas".
Na sequências das primeiras críticas, um porta-voz do Vaticano sublinhou que "não era certamente a intenção do Papa desenvolver uma análise aprofundada da jihad e do pensamento muçulmano sobre esta, muito menos ofender a sensibilidade dos crentes muçulmanos". O que ontem se ouviu em grande parte do mundo muçulmano foi que as explicações não são suficientes.
A Organização da Conferência Islâmica, a maior associação muçulmana, considerou que as citações usadas pelo Papa representam "um assassínio de carácter do Profeta Maomé", aguardando ainda que "o Vaticano emita declarações que reflictam as suas verdadeiras posições sobre o islão".
As monarquias petrolíferas representadas no Conselho de Cooperação do Golfo reclamaram um pedido de desculpas pessoal por declarações "prejudiciais ao islão e ao Profeta". No Paquistão, o Parlamento aprovou um texto em que pede ao Papa para "retirar as suas declarações". As críticas por parte de líderes religiosos repetiram-se: Argélia, Kuwait, Irão, Indonésia, Líbano; também Áustria ou Reino Unido.
"É a segunda vez que ofendem Maomé antes do Ramadão", resumiu um colaborador do líder radical xiita iraquiano Moqtada al-Sadr, numa referência aos cartoons. O ramadão, mês sagrado do calendário muçulmano, começará entre 23 e 24 de Setembro.
Houve protestos no Egipto, no Paquistão ou na Índia. Já à noite, 2000 manifestantes reuniram-se no exterior do Parlamento palestiniano. "Esta é uma nova cruzada contra o mundo árabe islâmico. Chega em diferentes formas, em cartoons ou sermões... eles odeiam a nossa religião", afirmou aos presentes Ismail Radwan, responsável do Hamas. Ao longo do dia, três explosões (provocadas por dois pequenos engenhos e uma granada) atingiram a igreja grega ortodoxa de Gaza, cujo reverendo explicou "não ter nada a ver com o Papa".
Ouvido pela AFP, Antoine Basbous, director do Observatório de Países Árabes, em Paris, previu mais protestos e iniciativas como a do Parlamento paquistanês. "Vai haver uma pressão, e as coisas podem tornar-se incontroláveis", avisou Basbous. "Antecipo uma reacção extrema às declarações, que atingem o islão mais do que as caricaturas pois provêm de um chefe que representa milhões", disse à mesma agência Monem Foutouh, responsável da Irmandade Muçulmana, principal força de oposição egípcia.
Na Turquia, que em Novembro deve tornar-se no primeiro país muçulmano visitado por este Papa, Salih Kapusuz, dirigente do partido pós-islamista no Governo, afirmou que as declarações de Bento XVI parecem "um esforço para reavivar a mentalidade dos cruzados", acrescentando que depois delas o Papa "vai entrar na história na mesma categoria de líderes como Hitler e Mussolini". A oposição pró-secular pediu que se desculpe antes da visita. E Ali Bardakoglu, responsável estatal dos assuntos religiosos que se opôs à visita, disse que o Papa está "cheio de inimizade" face ao islão.
Texto publicado a 16 de Setembro de 2006
