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O Papa escolheu falar ao Islão através dos estados

22.04.2010 - 19:09 Por António Marujo

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Para restabelecer as pontes com o mundo islâmico e desfazer a tempestade lançada pelo discurso de 12 de Setembro, Bento XVI escolheu falar, não com chefes religiosos, mas com os embaixadores dos países muçulmanos - a presença da delegação islâmica italiana foi simbólica. O Papa dirigiu-se ao islão através dos Estados. Não é uma escolha inocente.

1. O tema do discurso, em que reafirmou a "estima e respeito" pelos crentes do islão, foi a "necessidade vital" de relançar "o diálogo inter-religioso e intercultural entre cristãos e muçulmanos". Mas sublinhou alguns pontos inegociáveis. Primeiro, "evitar todas as formas de intolerância e todas as manifestações de violência" - um dever da "autoridade religiosa e dos responsáveis políticos". Mas "o respeito e o diálogo exigem a reciprocidade em todos os campos, sobretudo no relativo à liberdade fundamental e, mais particularmente, à liberdade religiosa", tal como "a promoção da dignidade do ser humano e dos direitos que dela derivam".

O diálogo visa, não uma utópica aproximação doutrinal, mas sobretudo a ordem social dos países islâmicos. E, mais prementemente para este Papa, a orientação das comunidades muçulmanas na Europa, objecto prioritário dos islamistas.

O que conduz directamente à dimensão política. Esta dimensão esteve aliás no centro das críticas mais radicais. Se as massas foram incendiadas pela denúncia da "blasfémia" - a frase "assassina" do bizantino Manuel II sobre Maomé -, os chefes religiosos e muitos editorialistas preferiram focar a "conspiração" ocidental contra o islão. Tanto o guia supremo iraniano, ayatollah Ali Khamenei, como alguns editorialistas da Al-Jazira coincidiram em teorizar a identidade entre Bush e Bento XVI.

Como alguns analistas sublinharam, esta exigência de mudança das regras do jogo, que toca o cerne da ordem estabelecida, é muito mais grave para as correntes islamistas ou para os regimes fundamentalistas do que qualquer ofensa ao profeta. Dada a agenda em causa, para o Vaticano poderá ser mais produtivo "dialogar" com os dirigentes políticos.

2. Por outro lado, o Papa tinha de salvar a visita à Turquia, no fim de Novembro. Esta viagem, cuidadosamente preparada, merece ser realçada. O dossier é duplamente delicado. Primeiro, também na Turquia há um problema de liberdade religiosa para os cristãos. Por outro lado, enquanto cardeal, Ratzinger sempre foi crítico da integração turca na UE, remetendo Ancara para o papel de exemplo no mundo muçulmano. É uma área de incógnita, em que Ratzinger, agora Papa, não pode exprimir uma opinião pessoal. "A visão do Vaticano sobre a Turquia sempre foi tão política como teológica", diz um especialista ao Financial Times.

Para preparar a viagem - informa o jornal Zaman, próximo do primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan - o Vaticano elaborou um longo relatório, significativamente intitulado "Cristãos no Império Otomano e na moderna Turquia". Faz uma análise crítica do secularismo imposto por Atatürk. Não é um secularismo como o vigente "nos países liberais e democráticos da Europa", pois Atatürk não fez a separação entre religião e Estado, antes colocou aquela sob a tutela estatal.

O relatório sugere uma relação especial com o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) de Erdogan (islamista e pró-europeu). "O Ocidente pode criar uma área comum com o AKP, baseada nos grandes temas políticos. Os fundamentalistas islâmicos vêem o modelo turco como o seu maior inimigo. (...) Há uma grande possibilidade de vir a haver seguidores do modelo de Erdogan fora da Turquia."

"Há outros interessantes detalhes no relatório que indicam que o Papa encara a visita à Turquia mais como um estadista do que como líder espiritual", conclui o Zaman.

Texto publicado a 26 de Setembro de 2006