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Bento XVI dirigiu carta à Igreja na Irlanda

22.04.2010 - 19:07 Por António Marujo

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Papa manifesta vergonha, assume responsabilidade e quer caminhos de cura.

Sete páginas para manifestar “vergonha” e “remorsos” e propor “caminhos de cura”. Sete páginas que, hoje, serão lidas em todas as paróquias irlandesas. A carta do Papa Bento XVI sobre os crimes sexuais sobre menores, cometidos por membros do clero da Irlanda, foi ontem revelada pelo Vaticano depois de remetida aos bispos do país.

O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, destacou o facto de um Papa nunca ter escrito uma tal carta. “Não se deve subestimar” esse facto, referiu, em declarações aos jornalistas. Há dias, o Times londrino definia esta crise como a questão mais decisiva, o momento definidor do actual pontificado. Bento XVI, como já antes João Paulo II na fase final do seu pontificado, tem pela frente uma das mais sérias crises da Igreja Católica das últimas décadas.

Na carta, o Papa reconhece a responsabilidade de toda a Igreja Católica nos actos pedófilos, diz que a resposta aos problemas foi “muitas vezes inadequada”, dirige-se às vítimas louvando a coragem de terem falado, manifesta-se “verdadeiramente desolado” e disponível para se encontrar com representantes das vítimas. Ao mesmo tempo, aponta uma série de iniciativas concretas para tentar ultrapassar a profunda crise em que o catolicismo irlandês mergulhou.

Representantes de várias associações de vítimas reagiram com cepticismo à carta do Papa. No texto, Bento XVI dirige-se-lhes, dizendo: “Muitos de entre vós foram suficientemente corajosos para falar do que vos aconteceu [mas] ninguém vos escutava. Exprimo-vos abertamente a vergonha e os remorsos que todos experimentamos.”

O Papa Ratzinger mostra-se a seguir “verdadeiramente desolado” e critica fortemente os bispos: “Não se pode negar que alguns de vós e dos vossos predecessores falhastes, por vezes gravemente, na aplicação das normas do direito canónico codificado há muito tempo sobre os crimes de abusos de jovens. Foram cometidos sérios erros no tratamento das acusações.”

No texto, disponível no site do Vaticano (www.vatican.va), Bento XVI repete depois que se cometeram “graves erros de juízo”, que minaram a “credibilidade e eficiência”, pedindo que os bispos – alguns ainda estão vivos ou mesmo em funções – continuem a “cooperar com as autoridades civis”.

Entre as medidas propostas pelo Papa para ajudar a ultrapassar a grave crise – que já atingiu também países como os Estados Unidos e Canadá, Áustria, Alemanha, Holanda e Austrália – está a criação de uma comissão para uma “visita apostólica”. Isto significa que será feito um inquérito nas várias dioceses, seminários e congregações religiosas, para “ajudar a Igreja local a encontrar o seu caminho de renovação, cura e reparação”.

Os padres e religiosos envolvidos em actos pedófilos deverão comparecer perante a justiça, diz ainda o Papa. “Reconheçam abertamente as vossas faltas, submetam-se às exigências da justiça”, escreve. Uma espécie de “missão” formativa para todos os bispos, padres e religiosos será também organizada, com seminários de reflexão e retiros espirituais, de modo a “redescobrir as raízes da sua fé”.

Bento XVI completa ainda as medidas e sugestões com recomendações de oração, leitura da Bíblia e a prática da misericórdia, bem como tempos de “adoração eucarística” para pedir a “reparação dos pecados de abusos”. Tudo para conduzir ao “renascimento da Igreja na Irlanda”.

As primeiras reacções registadas pelas agências internacionais apontam para a frieza com que o texto foi recebido pelos responsáveis de associações de vítimas. “Um profundo desapontamento”, manifestou, em declarações à Reuters, O texto está “longe” de responder às expectativas, a directora-geral do grupo de vítimas One in Four, Maeve Lewis. Que acrescenta não ser suficiente a manifestação de preocupação com as vítimas”.

“As vítimas esperavam um reconhecimento da forma ultrajante como foram tratadas”, acrescentou, citada ainda pela AFP. E o Papa falhou uma ocasião de se explicar sobre a “política deliberada ao mais alto nível para proteger delinquentes sexuais”. Lewis lamentou ainda que a carta “descure o papel do Vaticano” e “recuse ainda admitir a evidência”.

John Kelly, dirigente do grupo Soca, admitiu que o Papa “reconheceu finalmente” os crimes que sucederam, mas considera que a carta tem mais “aspirações que substância”. Christine Buckley, que foi ela mesma vítima de abuso numa escola de Dublin, afirmou que quer encontrar o Papa. “Quero que esteja lá aquela que abusou de mim e que ele entenda, na sua presença, o que ela fez e como quase me destruiu a minha vida.”

Já o primaz da Irlanda, cardeal Sean Brady, manifestou o desejo de que a carta seja acolhida como o renascimento de que o Papa fala, mesmo sabendo que a situação não se resolverá rapidamente.

Na Alemanha, onde também foram denunciados já 300 casos suspeitos de abusos sexuais, o presidente da Conferência Episcopal Alemã disse que o documento do Papa, dirigido à Igreja na Irlanda, era também “um aviso” aos católicos alemães. E o arcebispo de Viena, cardeal Christoph Schönborn, afirmou que o Papa “entendeu bem a decepção e a cólera” e que tem claro que a questão “não se limita à Irlanda”.

O jornalista italiano Marco Politi, um dos vaticanistas mais reconhecidos, considerou que a carta tem “valor para a Igreja universal e não apenas para a Irlanda”, pois o Papa “toma directamente sobre ele a responsabilidade destes crimes”.