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Declaração do Papa em Auschwitz provoca lamentos de alguns judeus

22.04.2010 - 19:06 Por António Marujo

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Referência a um “um grupo de criminosos” como responsáveis do Holocausto, ilude responsabilidade do povo alemão, dizem líderes judaicos.

A viagem do Papa, no domingo, ao campo de concentração de Auschwitz, na Polónia, deixou uma pequena onda de choque: alguns líderes judaicos lamentaram que Bento XVI se tenha referido apenas a um “grupo de criminosos” que, pela demagogia e pelo terror, “abusou” do povo alemão “como instrumento da sua sede de destruição e de dominação”.

Todas as declarações, no entanto, sublinham o carácter muito positivo da presença e do discurso do Papa Ratzinger em Auschwitz, onde morreu mais de um milhão de judeus às mãos dos nazis. “Foi um grande discurso no princípio e no fim, mas problemático no seu conteúdo”, afirma o rabino Riccardo di Segni, de Roma, citado pela AFP. “Não estou de todo convencido pela interpretação proposta sobre a responsabilidade do povo alemão, como se esse mesmo povo tivesse sido vítima e não tivesse feito parte dos perseguidores.”

Outra reacção semelhante foi a do presidente da Comunidade Judaica Italiana, Claudio Morpugo: “A análise do Papa parece-me parcial e comporta algumas lacunas. A Shoah não foi apenas obra de Hitler e dos seus acólitos. Ela inclui o risco de reduzir a responsabilidade do povo alemão e de todos aqueles que agiram em nome de uma ideologia anti-semita.” Claudio Morpugo acrescentava, citado pela AFP, ter ficado tocado “pela falta de referência específica ao antisemitismo”.

No seu discurso, Bento XVI questionou o silêncio de Deus em termos que nenhum Papa antes fizera: “Num lugar como este, as palavras falham. No fim, só pode haver um terrível silêncio, um silêncio que é um sentido grito dirigido a Deus: Porquê, Senhor, permaneceste em silêncio? Com pudeste tolerar isto? Onde estava Deus nesses dias? Porque esteve ele silencioso? Como pôde permitir esta matança sem fim, este triunfo do demónio?”

O Papa acrescentou que o nazismo queria “apagar todo o povo judeu, apagar este povo do registo dos povos”, frase que o embaixador da Polónia considerou a mais importante do discurso. E os judeus estão “na raiz do cristianismo”, disse Bento XVI que, ao contrário de João Paulo II em 1979, no mesmo local, falou da Shoah, a palavra hebraica para Holocausto.

Estas reacções surgiram depois de a AFP ter registado que, após o discurso, vários responsáveis judaicos reagiram, sob anonimato e em Auschwitz, à frase do Papa. A própria agência, no entanto, limitava-se a citar uma única declaração: a do grande rabino da Polónia, Michael Schudrich: “Foi um discurso muito comovente, mas há coisas que poderiam ter sido um pouco mais fortes. Mas a sua [do Papa] simples presença aqui foi muito importante, foi um grito contra o antisemitismo.”

David Rosen, presidente do Comité Judaico Americano, colocou a questão a outro nível. Em declarações ao New York Times, disse que “as relações entre judeus e católicos já não se fundam numa visão do passado.”