Colecção Privada O Andy Warhol da fase "negra", em particular o das séries de acidentes de automóvel, é a escolha de João Fernandes, director do Museu de Serralves Em 1962 Andy Warhol teria 34 anos (sobre a sua data de nascimento há mais do que uma versão). Já tinha dado a volta ao mundo, já tinha ganho prémios de desenho publicitário, dois anos antes compusera os primeiros quadros a partir de bandas desenhadas e as duas primeiras garrafas de Coca-Cola. 1962 marca o início de um "boom" que se prolonga até 1964: as latas de sopa Campbell, as notas de dólares, a primeira exposição individual das suas telas, o nascimento da Factory num armazém de aluguer, cerca de 2000 trabalhos produzidos. É nesta fase que nascem as séries sobre catástrofes aéreas e acidentes de automóvel. De toda a produção warholiana, são estas séries que João Fernandes, director do Museu de Serralves, destaca - havendo que isolar um exemplo, "Acidente de automóvel na cor branca, 19 vezes", de 1963. Para justificar esta preferência, João Fernandes começa por sublinhar como Warhol foi um criador amoral: "É dos artistas que mais problemas levantou entre a arte e a sociedade de consumo. Compreendeu o poder da imagem enquanto mais-valia dos sistemas de economia que estruturam a sociedade. Nessa medida, foi completamente amoral. Não foi nem crítico nem panegírico de uma sociedade que utilizou nos seus ícones, que desmaterializou nas suas ideologias, que reconfigurou nos seus símbolos." Tendo isto assente, diz João Fernandes, o Warhol "mais negro foi de uma lucidez cruel com um mundo no qual não era mero assistente, mas no qual se integrou enquanto produtor cínico das imagens que na sua Fábrica eram criadas". É nesse Warhol negro, "cuja frieza tudo mastigou, das latas Campbell à Coca-Cola, de Marilyn a Elisabeth Taylor", que se destacam "as séries assombrosas dos acidentes de carro ou da cadeira eléctrica". Nas fotografias dos acidentes de carro, sintetiza o responsável de Serralves, encontramos reunida a totalidade da obra de Warhol: "A atenção ao detalhe anódino do quotidiano, o uso amoral da imagem para além do horror ou da sedução, a distanciação oportunista e inteligente dos tabus sociais, assim como a coragem da utilização desse lado escondido da Lua em que os acidentes de viação são o reverso dos propagados milagres da sociedade americana, onde o automóvel se converteu num centro polar da identidade individual." O trabalho em série "aferível na repetição da imagem, na sua variação sem sentido, através da cor, ou do tamanho", confere a estas obras "a dimensão ambígua de um mundo sem valores do qual a produção artística participa com uma objectividade cruel". Warhol, relembra João Fernandes, chegava a sair do seu estúdio sempre que recebia a informação de um acidente de automóvel para o fotografar. "Não era um exercício de 'voyeurismo' nem uma particular excitação, mas nessas imagens sentimos a reflexão cínica do 'voyeur' e da excitação que diariamente encontramos nas estradas quando os automobilistas param ou desaceleram perante um grande acidente." Estes trabalhos de Warhol, "abdicam de qualquer leitura emocional ou interpretativa, existem enquanto imagens cruas de um mundo que sabemos que é assim, onde a imagem não é mais do que uma pele que nos permite o contacto." No volume da Taschen da Coleccção Privada do PÚBLICO, a reprodução de "Acidente de automóvel na cor branca, 19 vezes" vem acompanhada por uma citação de Warhol: "Reconheci que tudo o que faço está relacionado com a morte." "A morte está presente em toda a vida e trabalho de Warhol, a sua pulsão produtiva não é mais do que o paradoxo veemente dessa presença", reforça o responsável do museu que acolheu em 2000 uma retrospectiva do artista, vista por 80 mil pessoas. "E o consumo da imagem é também um indício de morte." |
« VOLTAR |