Colecção Privada
O quadro da semana
"Conforme (Au Fur et à Mesure)"

Para o director da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, o pincel da artista “ora toca ligeiramente a tela, ora sulca o suporte”, situando a sua obra entre a figuração e a abstracção

Maria Helena Vieira da Silva (1908- 1992) nasceu em Lisboa, onde estudou desenho, pintura e escultura. Aos 20 anos, mudou-se para Paris e aperfeiçoou os seus conhecimentos artísticos com os pintores Fernand Léger, Roger Bissière e Othon Friez. Manteve contacto com os surrealistas Joan Miró e Max Ernst, descobrindo depois, numa viagem à Itália, obras de Matisse e Cézanne que a impressionaram profundamente.

Para José Sommer Ribeiro, arquitecto e director da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, a escolha da obra “Conforme” deve-se à convicção de que esta pintura representa “uma síntese do seu trabalho”. E vai mais longe: “É uma obra completíssima quer no ritmo da sua composição, quer na cor, e que nos obriga a uma pesquisa constante que nos leva a descobrir temas tão queridosa Vieira tal como os azulejos, as
cidades, as bibliotecas.”

O seu estilo, entre os limites da figuração e da abstracção, revela uma preocupação com a profundidade e a expressão do espaço, recorrendo com frequência a temas urbanos para o demonstrar. A decisão da artista de trocar Lisboa por Paris reflecte, segundo Sommer Ribeiro, “a ânsia de estar ligada à cidade onde eclodiu a grande maioria dos novos movimentos artísticos”. Mesmo assim, “as recordações da sua cidade natal, tais como as perspectivas labirínticas das ruas”, não são abandonadas, complementando “a modernidade das grandes construções, das gares e das bibliotecas” de Paris.

Em “Conforme”, Vieira da Silva retomou várias vezes o que já tinha pintado,acrescentando novos elementos de cada vez. O seu estilo pictórico possui um virtuosismo único que, para o director da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, se pode caracterizar no modo como “o pincel ora toca ligeiramente a tela ora sulca o suporte, criando assim estruturas de múltiplas e variadas direcções e em que a cor, tão variada, reforça estas composições criando atmosferas de excepcional qualidade”.

Em Portugal, as suas obras foram exibidas pela primeira vez em 1935,numa exposição organizada por António Pedro. Esse foi também o ano em que Vieira da Silva viveu com o marido, o pintor húngaro Arpad Szenes (1898-1985), em Lisboa. Depois de uma temporada no Brasil, e perante a recusa de Salazar em naturalizar Arpad, os dois artistas tornaram-se cidadãos franceses em 1956.

Vieira da Silva, que, para José Sommer Ribeiro, se tornou uma das pintoras “maiores e fundamentais da história da arte do século XX”, teve um papel preponderante no panorama artístico internacional. Foi agraciada com a Ordem da Liberdade, em Portugal, e com a Ordem de Mérito, em França.

 

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