Colecção Privada
O quadro da semana - Campo de Trigo com Corvos
Por Raquel Henriques da Silva

“Campo de Trigo com Corvos” é a escolha de Raquel Henriques da Silva, ex-directora do Instituto Português de Museus Raquel Henriques da Silva, professora da Universidade Nova de Lisboa e ex-directora do Instituto Português de Museus, escolhe para quadro da semana da Colecção Privada “Campo de Trigo com Corvos”, pintado por Van Gogh em Julho de 1890.

A historiadora de arte considera-o “uma espécie de testamento”, porque foi pintado poucos dias antes de o pintor se ter suicidado, com um tiro de revólver, na noite de 29 de Julho. “A pintura sintetiza algumas das obsessões do artista. O jogo violento dos contrastes cromáticos, entre a chama dos amarelos e a densidade dos azuis enegrecidos. A distorção da perspectiva construída pela profundidade da seara e a energia do céu que sobre ela cai, inutilizando os traçados dos caminhos que não conduzem a lado nenhum. A pujança convulsiva da pincelada, onde ecoam os exercícios do Pontilhismo e da decomposição das cores do Impressionismo. A pulsão redonda da composição que, todavia, se conforma ao rectângulo alongado do suporte.”

É com estes recursos técnicos e expressivos, continua Raquel Henriques da Silva, que Van Gogh constrói o tema da pintura — “a impossibilidade de salvação dele próprio e do mundo, metaforizada numa figura onírica em que o trigo tem a cor e a intensidade do sol e gesticula como os girassóis; os caminhos são da cor de sangue, esverdeados nas margens; e o céu é um vórtice imparável de onde os corvos emergem como manchas ameaçadoras”.

Colada ao drama do homem, sublinha a historiadora, a obra é uma dádiva ao futuro da pintura, porque “é expressionista e gestualista antes de estes movimentos nascerem, proclamando que a liberdade do artista é apenas e definitivamente a do seu próprio fazer”.

Pintada em Auvers-sur-Oise, esta extensa paisagem, de 50,5x100,5 cm, manifesta em primeiro lugar — para além do drama humano — “a entrega do pintor aos valores lumínicos e cromáticos da pequena aldeia dos arredores de Paris, que hoje ainda nos comove, porque esses valores permanecem em grande parte intactos e os vemos com o olhar intenso com que Van Gogh os imortalizou”. A estadia em Auvers-sur- Oise fora aconselhada pelo fiel irmão Theo, para o pintor ser acompanhado pelo dr. Gachet, amigo e coleccionador dos impressionistas. “Mas nada correu bem, porque o pintor consumia-se e consumia todas as relações no magma cada vez mais avassalador da impossibilidade de ser. A tragédia adivinhada resolveu-se em pintura, como ele próprio afirmou: ‘Experimento uma terrível clareza em momentos em que a natureza é tão linda. Perco a consciência de mim mesmo e os quadros vêm como em sonho.’” 

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