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Privada Auguste Rodin teve uma carreira lenta e longa. "Foi um percurso académico complicado, fora dos caminhos habituais e directos para se ser um escultor", explica o escultor Rui Sanches. Rodin, por exemplo, foi "pedreiro estatuário" de Haussmann, na decoração de Paris - e era à noite que esculpia "para si". Esta peça única que é a "Porta do Inferno" é, talvez, paradigma da "lentidão" de Rodin, mas, sobretudo, "e mais do que a matriz de todas as suas obras, é uma espécie de 'viveiro' de esculturas, um local de experimentação". O que é que isto quer dizer? Rui Sanches escolheu esta obra porque ela "funciona como um laboratório na obra de Rodin, que trabalhou nela durante mais de 20 anos, de 1880-1917". E porque foi "da narrativa e da composição desta obra que Rodin retirou depois elementos pensados, autonomizando e constituindo muitas esculturas diferentes". O que sobra são "variações" e não "aperfeiçoamentos". Todo o processo de encomenda, execução, criação e pensamento da "Porta do Inferno" é "sui generis": "É uma primeira encomenda do Estado e surge quando Rodin já tem 40 anos. É uma porta monumental para um museu de artes decorativas que nunca chegou a existir. O Estado cedeu-lhe um "atelier", uma avultada verba em dinheiro, mas Rodin nunca terminou a obra. E ela foi ganhando umas proporções, dimensões e um peso tornando-se quase inoperante para funcionar como uma porta", explica Sanches. Logo, "era uma espécie de 'elefante branco' do seu 'atelier'". Rodin expô-la uma única vez, em 1900, na Exposição Universal de Paris. Aí passa "quase despercebida" e "é mostrada sem personagens, numa versão abstracta". Nesse molde, não "há a imagem narrativa inicial que era a 'Divina Comédia', de Dante". Rodin quis depois "simplificar e representar apenas o Inferno". Depois, as imagens tornaram-se cada vez mais subjectivas: "Vão perdendo a relação com Dante. O próprio 'Pensador', figura central da Porta, era primeiro para ser um retrato de Dante, depois passou a ser a representação de um poeta, depois um auto-retrato de Rodin." Por tudo isto, Rui Sanches diz que esta obra é o tal "laboratório de experimentação". Rodin, diz Sanches, é um artista "difícil de classificar" e tem características "muito diversas" na sua obra: "Às vezes é muito próximo dos simbolistas, outras está mais próximo dos românticos; às vezes é impressionista." Mas a sua importância na história da arte é inegável
- e não só na escultura. "Ele ameaça uma série
de mudanças, de rupturas. No modernismo europeu do século
XX, há escultores e pintores que vão beber a Rodin, quer
por aproximação, quer por ruptura, o que demonstra que ele
é um eixo, uma referência", explica Sanches. "Uma
das características dos grandes artistas é não terem
discípulos ou continuadores. O próprio Brancusi foi convidado
por Rodin a trabalhar no seu 'atelier' mas não aceitou: disse-lhe
que uma árvore nunca poderia crescer à sombra de outra.
Picasso ou Matisse também sofreram influências. Os grandes
escultores do século XX foram buscar a ele, mais do que o aspecto
visual do seu trabalho, o seu carácter conceptual, a sua liberdade."
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