Colecção Privada
O quadro da semana - "Os filhos do meu compadre"
(Retratos de Modesto e Jesús Sánchez)

O poeta José Agostinho Baptista diz que simpatiza mais com o "costumbrismo" do que com o "muralismo" de Diego Rivera

Nunca foi ao México (não consegue andar de avião). "Costumo dizer que estive sempre no México", explica o poeta José Agostinho Baptista. Como começou esse fascínio? "Através de alguns sinais que se foram multiplicando e crescendo. Depois fiquei prisioneiro de tudo isso." Tem a ver com "uma sintonia, com afinidades na maneira de ser e com a cultura, mas não só", diz. Certo é que, a partir de certa altura, começou a sentir que é "tão ou mais mexicano do que português".

Talvez por isso tenha escolhido este quadro, "Os filhos do meu compadre (Retratos de Modesto e Jesús Sánchez)", de 1930, do pintor mexicano Diego Rivera. "Provavelmente, seguramente, é um trabalho menor no conjunto da obra de Rivera, mas quem sou eu para julgar? Toca-me por outras razões, menos técnicas, menos consensuais." Por exemplo? "Mais poéticas, mais da inocência do mundo, da natureza íntima dos seres e das coisas."

O olhar do poeta fixa-se nos olhares de Modesto e Jesús Sánchez, os dois miúdos do quadro. "Gostaria que todos os filhos de todos os 'compadres' fossem assim: enigmáticos, serenos (?), com essa tristeza mais funda que reside nas ante-câmaras da alma mexicana, tão mal entendida pela visão norte-americana e europeia."

Há mais razões: "Pela celebração dos sentidos. Na cor, nos sons, nos sabores, no relevo da pedra trabalhada. Um saber cósmico, primordial. Um universo mágico que resiste aos tempos do materialismo e das novas barbáries e me faz regressar à verdade da Terra", explica.

Em meados dos anos 20, Rivera começou um género novo, criando um "arquétipo mexicano": pintava e desenhava retratos de crianças e suas mães, sobretudo indígenas, temas mais distantes do fervor ideológico do "muralismo", que o consagrou no estrangeiro. Retomou a temática nas décadas seguintes.

José Agostinho Baptista diz que simpatiza mais com esta fase "do 'costumbrismo', com as suas flores, sobretudo jarros, os camponeses, os retratos, do que com a faceta do 'muralismo' que o consagrou". Di-lo por razões que "não têm a ver com a crítica da arte e são meramente poéticas, românticas, 'naives'..."

São essas duas facetas que se fundem em Rivera, de uma forma pouco consensual: "É sabido, nunca foi uma pessoa de consensos. Nem como homem, nem como artista. Desde o seu fervor comunista, por vezes estalinista, conturbado, contraditório (que Trotsky lhes perdoe, a ele e a Frida), ao seu comportamento humano, pouco dócil, pouco pacífico (?), polémico, o homem e o pintor acabaram por reflectir a idiossincrasia mexicana em muitos dos seus aspectos", explica.

Não é, por isso, o "clima de 'tertúlia' no México dos anos 40" que o seduz - o pós-revolução, as amizades com o político Trotsky, os poetas Neruda e André Breton, os fotógrafos Tina Modotti e Edward Weston, ou os muralistas David Alfaro Siqueros e José Clemente Orozco: "Isso faz parte da História e de outras histórias mundanas e políticas que não me seduzem", diz. "Interessa-me o prazer do olhar, as suas sugestões, o que numa peça consiga ver e sentir. Acima de tudo isto: fugir do pântano dos dias."


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