Colecção Privada
O quadro da semana - "As Tentações de Santo Antão"

Obra-prima de Bosch, "um homem entre dois tempos", é a peça central do Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa. A escolha do seu director, José Luís Porfírio, era inevitável

É um pequeno altar constituído por uma peça central sobre a qual se rebatem duas peças laterais, os volantes. O tríptico "As Tentações de Santo Antão", de Bosch, está no Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa. E é uma obra-prima, uma das mais importantes do pintor flamengo. José Luís Porfírio, o director do museu, diz que é também a obra que mais deslumbra os visitantes: "Facto perfeitamente justificado pelo fascínio das imagens e a qualidade da pintura."

Jerónimo Van Aacken (1453-1516) tomou o nome da cidade que o viu nascer - Hertzogenbosch. E o seu nome, Bosch, traduziu-se na "criação de um universo imputado tantas vezes pelo mal, e pelo diabo, claro retrato de uma época de transição e de crise na passagem da Idade Média para os tempos Modernos", explica Porfírio.

Voltemos ao tríptico de Lisboa - comecemos pelos "volantes", a face exterior do altar. São "duas pinturas com dominantes cinza que representam duas passagens da Paixão de Cristo". Mas, aberto o altar, "somos confrontados com o esplendor da cor que literalmente explode nos três painéis que, embora tratando aspectos diferentes da história do Santo, são um espectáculo unitário."

Há, então, uma linha de horizonte comum, em cima, e uma "variada linha de terra e água, em baixo", que unificam a composição. E vemos "o mundo na totalidade dos seus elementos: terra, água, ar e fogo". Este último, diz José Luís Porfírio, "é impressionantemente mostrado no canto superior esquerdo do painel central, no que pode ser uma evocação do grande incêndio de Hertzogenbosch de 1463 ou uma referência ao mal dos ardentes que Santo Antão ajudava a suavizar".

O que mais prende a atenção dos espectadores (e pode mesmo falar-se em deslumbre ou fascínio), "é a decifração do formigueiro de pormenores, a Legião, diabos e seres monstruosos que habitam no ar, terra, água e fogo, em tão variada quantidade que transformam esta obra numa pintura que literalmente nunca mais se acaba de ver".

Os passos e as sucessivas tentações do Santo são evocadas do painel da esquerda para o da direita. Assim, no da esquerda, "vemos a tentação como agressão física"; no da direita, "a tentação da carne, acrescentada pela gula, tendo por fundo o inverso da Cidade de Deus, ou seja, a cidade do mal"; ao centro, "isolado, no meio de um turbilhão demoníaco, o Santo olha para nós e aponta a dupla figura de Cristo (aliás figura e imagem), e é aí que Santo Antão sofre a tentação maior: a da própria fé".

"As Tentações" é uma obra cimeira da modernidade, em que moderno é, sobretudo, "o espaço e a franqueza com que [Bosch] mostra, sem esconder, toda uma panóplia de monstros de antiga tradição", explica o director do Museu Nacional de Arte Antiga.

"Bosch é um homem a cavalo entre dois tempos, pintando o seu semelhante mais por dentro que por fora, enquanto nos apresenta a mudança e a crise como a mais poderosa inquietação. Daí que a força das imagens que nos deixou seja tão ou mais forte hoje do que há 500 anos."

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