Colecção Privada
O quadro da semana - “O Pregador Menonista Cornelis Claesz. Anslo a conversar com sua mulher Aaltje”

Este quadro de Rembrandt, datado de 1641, é a escolha de Nuno Vassallo e Silva, director-adjunto do Museu Calouste Gulbenkian

“Revi este duplo retrato na Primavera passada em Berlim e fiquei muito impressionado. Parecia-me uma obra totalmente diferente da que vi na grande exposição de Rembrandt em Londres, na National Gallery, em 1992. A obra, claro, é a mesma. O meu olhar é que terá mudado.”
O quadro de que fala Nuno Vassallo e Silva, director-adjunto do Museu Calouste Gulbenkian (que tem dois Rembrandt no seu acervo) é “O Pregador Menonista Cornelis Claesz. Anslo a conversar com sua mulher Aaltje”, pintado por Rembrandt Harmenszoon van Rjin, em 1641, quadro da semana na Colecção Privada. Apesar de não ser uma das pinturas mais famosas “O Pregador Menonista Cornelis Claesz. Anslo a conversar com sua mulher Aaltje”, 1641. Óleo sobre tela, 174x210cm. Berlim, Gemäldegalerie, Staatliche Museen zu Berlin — Preussischer, Kulturbesitz de Rembrandt, “é uma obra de um período de notáveis retratos que culminará com a célebre ‘Ronda da Noite’, pintada no ano seguinte”, refere.

É uma obra de contrastes, diz: “Entre a intimidade da cena — um casal que conversa — e as grandes dimensões da tela; entre a postura teatral do pregador e a postura recolhida de sua mulher; entre o lado direito da composição, onde surge representado o casal, e a magnífica natureza-morta no lado oposto.”

O claro-escuro, os contrastes e a luz são elementos fundamentais em Rembrandt e este quadro, que “está iluminado por uma luz de ouro”, não foge à regra. Mas o que mais impressionou Nuno Vassallo e Silva foi a figura da mulher, “destacando o rosto e as mãos pela luz branca que emana da touca, da gola e do lenço”, e o jogo de luzes e de olhares das duas “personagens”. “O olhar dirigido a seu marido é de curiosidade e admiração, escutando atentamente as suas palavras. O rosto da figura de Aaltje é o elemento mais forte da pintura.” Este, diz, é o verdadeiro motivo da tela, “um rosto que reflecte pureza enquanto se escuta a palavra sagrada”.

Vassallo e Silva explica que a evolução da pintura do mestre holandês é “uma crescente de gestos e representações cada vez menores, opondo-se a discursos cada vez mais ricos”, de que a “Noiva Judia” é paradigma. Por tudo isto, esta tela é “uma obra deslumbrante, um convite à leitura de uma pintura e à descoberta do seu discurso, aparentemente escondido”.

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