Colecção Privada
“Revi este duplo retrato na Primavera passada em Berlim e fiquei muito impressionado. Parecia-me uma obra totalmente diferente da que vi na grande exposição de Rembrandt em Londres, na National Gallery, em 1992. A obra, claro, é a mesma. O meu olhar é que terá mudado.” É uma obra de contrastes, diz: “Entre a intimidade da cena — um casal que conversa — e as grandes dimensões da tela; entre a postura teatral do pregador e a postura recolhida de sua mulher; entre o lado direito da composição, onde surge representado o casal, e a magnífica natureza-morta no lado oposto.” O claro-escuro, os contrastes e a luz são elementos fundamentais em Rembrandt e este quadro, que “está iluminado por uma luz de ouro”, não foge à regra. Mas o que mais impressionou Nuno Vassallo e Silva foi a figura da mulher, “destacando o rosto e as mãos pela luz branca que emana da touca, da gola e do lenço”, e o jogo de luzes e de olhares das duas “personagens”. “O olhar dirigido a seu marido é de curiosidade e admiração, escutando atentamente as suas palavras. O rosto da figura de Aaltje é o elemento mais forte da pintura.” Este, diz, é o verdadeiro motivo da tela, “um rosto que reflecte pureza enquanto se escuta a palavra sagrada”. Vassallo e Silva explica que a evolução da pintura do mestre holandês é “uma crescente de gestos e representações cada vez menores, opondo-se a discursos cada vez mais ricos”, de que a “Noiva Judia” é paradigma. Por tudo isto, esta tela é “uma obra deslumbrante, um convite à leitura de uma pintura e à descoberta do seu discurso, aparentemente escondido”. |
« VOLTAR |