Colecção Privada
O quadro da semana
"Cinzas"

O poeta e dramaturgo Jaime Rocha escolheu este quadro porque, diz, "ilustra a ansiedade e o medo com que Munch sempre tratou a relação entre os sexos"

Foi uma escolha difícil. Mas "Cinzas", de Evard Munch (1863-1944), é um quadro em que "as cores, as tonalidades, os contrastes, o movimento gestual das personagens, as expressões dos rostos, a posição do corpo e das mãos nos atiram para uma paisagem muito próxima do teatro e da poesia", explica Jaime Rocha, poeta e dramaturgo.

Talvez por isso o "leia" como uma peça de teatro. "Um homem em ruína e uma mulher fatal, num espaço de representação, desesperam após terem consumado uma ruptura. Poderia ver esta cena em palco, tal é a sua força, numa peça de Ibsen, de Beckett, de Shakespeare, de Strindberg, de Lorca ou em pose de actores do teatro japonês estilo Nô", diz Rocha.

Esse lado "fortemente literário" (em que se sentem marcas de Dostoiévski, Ibsen, Strindberg, Baudelaire, entre outros), "de uma crueldade e de uma secura que arrepiam", fez de Munch um dos "pintores de culto" de Jaime Rocha. O que há de especial nele? "Essa visão permanente do corpo que em Munch nunca é estático, a carga dramática que imprime às figuras, a sua beleza convulsa, a envolvência poética, o traço sedutor e fantasmagórico, os enquadramentos geométricos, o tratamento da natureza", responde.

Mas são sobretudo os "anjos negros", "a companhia dos mortos", "a melancolia e angústia" que marcam a vida e a obra do pintor norueguês. "E também pela sedução, pelo desencontro, pelo amor fracassado e pelo medo."

Para Jaime Rocha, bastaria contemplar os quadros "A Mãe Morta e a Criança", de 1897/99, ou "A Criança Doente", de 1885/86. Ou ainda os quadros da série "O Friso da Vida", "ciclo do sofrimento e das alegrias do homem, sobretudo os da década de 90, anos em que deixou para trás as influências naturalistas e impressionistas e passou a adoptar uma nova linguagem pictórica, com uma pincelada mais expressionista, na linha de Gauguin ou Van Gogh", diz Rocha. São estes últimos que mais o seduzem, revela. Datam desta altura algumas obras-primas como: "Luar" (1893), "O Grito" (1893), "Melancolia" (1894) "Madona" (1894) "Cinzas" (1894), "Os Três Estádios da Mulher" (1894), "Puberdade" (1894), "Morte na Câmara da Doente" (1895), "O Beijo" (1897) e outros.

Mas "Cinzas" foi o eleito. Porque "ilustra a ansiedade e o medo com que Munch sempre tratou, na sua obra, a relação entre os sexos", diz. O que se vê, então? "O homem está derrotado, em sofrimento, com o rosto escondido, apoiado na mão, num gesto característico em Munch (pode ver-se em "Melancolia"), vestido de preto. A mulher numa postura frontal e trágica, de olhos mortiços a fixar-nos, sedutora, com o vestido claro, aberto, a mostrar o interior vermelho. A ruptura está consumada, mas não é ainda a morte."

Atrás deles há "um chão ou um leito destruído, da cor do vestido dela, e os pinheiros de Asgardstrand projectados na noite, esguios, enquanto outros se desfazem em cinzas", descreve Rocha. Tudo isto mostra um quadro de "uma simplicidade notável e de uma intensidade sem limites". Há aqui uma "grande infelicidade, uma impossibilidade de eles se amarem, uma maldição qualquer, uma culpa, um pavor que se transmite à paisagem que os rodeia".

 

 

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