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Colecção Privada Amedeo Modigliani chega a Paris, vindo de Itália, em 1906, "no tempo certo de assistir a todas as descobertas artísticas do início do século, exactamente no ano em que Picasso começa a pintar 'Les Demoiselles d'Avignon'", diz Helena de Freitas, historiadora de arte e assessora no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. É em Paris que, três anos depois, Modigliani se cruza com o pintor português Amadeo Souza-Cardoso, encontro que a historiadora considera "inevitável" e que resultou numa "intensa amizade". "Os trabalhos que ambos realizam neste período são a prova mais evidente de uma troca e um confronto de experiências plásticas", explica. Será, contudo, nesse confronto que "verdadeiramente se encontram e se separam". "Os dois artistas concentram-se, influenciam-se e quase se confundem na representação da figura feminina". Mas há diferenças: "Se Modigliani se fixa na decifração de um enigma feminino, já Souza-Cardoso trata de figuras sem corpo nem alma, onde as formas não são mais do que o suporte de um trabalho sobre os volumes, a articulação dinâmica das formas, o sentido da velocidade." Daí que o discurso do português seja o "da instabilidade formal, enquanto Modigliani ficará sempre no centro de uma obsessão que nunca abandonou". Dessa "obsessão" nascerá a sua obra: "Fascinado pela arte negra e pelos primitivos italianos, centra-se num hieratismo formal, fora do tempo, que se manifesta logo nos seus primeiros trabalhos de escultura e de desenho." As pesquisas artísticas "desencadeadas com ruptura do cubismo" nada lhe dizem. O pintor "fixa-se, assim, num modelo de representação idealizada". "Jeanne Hébuterne - A Mulher do Artista" (1918) é um exemplo: obra tardia, "afastada já da aura provocatória" do pintor, revela "a cumplicidade e quase dependência entre artista e modelo". Essa era a busca de Modigliani, que realizou um "trabalho obsessivo sobre o corpo da mulher, a partir do conceito de idealidade e de decifração de um enigma feminino", diz. Artista de paixões e (des)encontros, alimentou "o mito do pintor boémio". Mas "não se limitava a pintar os seus modelos" - as mulheres tornam-se "imagens de devoção e, mesmo nas representações mais abstractas, percebe-se a intensa relação do artista com a ideia de modelo." A historiadora chama-lhes "fetiches de felicidade ou de plenitude". Nesta obra, Modigliani "atinge um nível de caracterização extrema da figura - o rosto da mulher é o resultado dessa síntese, tentativa de seleccionar linhas puras, contornos certos". O espaço de representação é "restrito e magnetizado por campos de cor intensos". E mais não é do que o "cenário de um jogo entre quem pinta e quem se deixa pintar". Helena de Freitas explica que essa tensão "quase hipnótica" passa "intensamente" pelo olhos - "neste olhar esvaziado como uma lâmina de vidro, não é de cegueira que se trata, mas da representação abstracta de um olhar introspectivo e dominado, que se vira para o interior". Numa pequena anotação de 1907, Modigliani escreveu: "Aquilo que procuro não é o real nem o irreal, e sim o inconsciente, o mistério do que há de instintivo na raça humana." |
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