Colecção Privada
Foi o escândalo que lançou o triunfo do nome Manet e dos futuros impressionistas. Este quadro é o “momento mais significativo das origens da pintura moderna”, diz Rui Mário Gonçalves “O almoço na relva” (“Le déjeuner sur l'herbe” na versão francesa) foi o escândalo e a sensação do Salão de Paris em 1863. Rui Mário Gonçalves, professor de Literatura da Faculdade de Letras, explica que “quando se procura determinar o momento mais significativo das origens da pintura moderna, tem de se considerar esta obra”. Daí a sua escolha para quadro da semana. Mas este foi também o princípio de um triunfo que mudaria a história da arte. “As inovações que Manet introduziu na arte de pintar foram consideradas inaceitáveis pelo Instituto [organizador do salão]. O quadro foi recusado. Exposto depois no salão dos recusados, causou chacota”, explica o professor. O que disseram os críticos? “Manet mostrará o seu talento no dia em que aprender a arte do desenho e da perspectiva, e o seu gosto quando deixar de escolher os temas pela qualidade escandalosa.” Mas havia uma revolução em curso. O que muda com Manet? Sobretudo, diz Rui Mário Gonçalves, “um novo tipo de registo das cores e dos valores luminosos”. E continua: “Não havendo uma iluminação que não estivesse nas próprias cores, desapareceria a modelação dos volumes — claridade para as zonas salientes dos objectos e sombra para as reentrantes.” Manet quebrou os tabus e as regras do academismo. Mas também quebrou com influências anteriores, como Courbet. “A ausência de modelação era inaceitável para os académicos, assim como para os criadores anteriores a Manet, como Courbet, que dava ênfase aos volumes.” Por isso, a nova atenção “dedicada à cor-luz obrigava à justaposição das áreas pintadas.” Daí que “O almoço na relva” nos ofereça uma “sequência de contrastes de valores nas representações dos corpos: mulheres claras, roupagens escuras nos homens. Assim, a mulher que se encontra mais afastada curva-se e o seu contorno arredonda-se, para dar mais ênfase à mancha clara, trazendo-a para o plano das manchas dos outros corpos.” Os pintores mais jovens sentiram a importância das suas inovações — “eram os futuros impressionistas”. O professor afirma que este quadro é uma “lição de pintura”, e o sururu à sua volta marcou as vanguardas “durante mais de 50 anos”. O exemplo é Marcel Duchamp: “Em 1912, viu o seu ‘Nu descendo uma escada' recusado por um júri de pintores cubistas, e apercebeu-se da força perniciosa do academismo, capaz de infiltrar-se entre os próprios vanguardistas.” Para Duchamp, diz o professor, “Manet era a maior referência entre os pintores modernos, exemplo das diversas pesquisas pictóricas, por mais opostas que estas pudessem apresentar-se aos contemporâneos, como os fauves e os cubistas” |
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