Colecção Privada
O quadro da semana
"Auto-retrato "

Este quadro é um "ensaio funesto de auto-representação". "Trágico, sim", diz o professor Sequeira Costa, "mas aberto à memória do futuro"

Ao pensar em Kasimir Malevitch, o professor de Estética e Filosofia na Faculdade Letras de Lisboa, Carlos Couto Sequeira Costa, diz que "automaticamente" se lembra do famoso "Quadrado Branco sobre fundo branco" (1917), essa "espécie de 'psicose branca' ou 'boceta de Pandora' para toda a modernidade". Mas lembra-se também da "noção de suprematismo".

Malevitch foi pintor, encenador, "designer" de cidades suprematistas, teórico e pensador através de múltiplos suportes (pintura, escrita, escultura), filósofo - "um imenso e cósmico 'cadavre-exquis' para todos os gostos e gozos", diz.

Mas é de suprematismo que é fundamental falar, quando se fala de Malevitch. O percurso do pintor, diz o professor, é "exemplar, porque procurou aprofundar todas as etapas, desde o período fauve e depois expressionista, até ao 'tubismo' de Fernand Léger, ou desde o cubismo e o futurismo, ao geometrismo abstracto e ao próprio suprematismo".

O que é, afinal, o suprematismo, esse movimento artístico e filosófico? Carlos Couto Sequeira Costa explica que "este neologismo, derivado do polaco, marca 'a supremacia do novo e da arte pura' e do 'realismo trans-racional', do não-objectivo em arte e da emancipação da cor da tirania de qualquer objecto ou sujeito".

Por isso, se "Quadrado branco" simboliza "a 'pura ausência do objecto como pura presença da abstracção', e se a obsessão pelo branco, pelo zero e pelo vazio aponta no sentido da radicalidade do novo, para lá da representação", então este "Auto-retrato" (1933), que o professor elegeu, "continua a ser a matriz emblemática de toda a figuração e desfiguração". Esta obra é "um enigma, o espelho de um enigma, funcionando como uma espécie de imagem hierática situada para além de qualquer dicotomização entre figuração e abstracção".

O pintor continua, assim, a pensar "através de e com a pintura, a matéria, a superfície e as cores, figurando abstracções e autorepresentando-se", explica. E continua: "Em Malevitch, a arte prefigura o devir da ciência (a quarta dimensão espaço-tempo), e a obra é compreendida pelo peso, pela velocidade e pelo movimento das energias que invadem a tela. Não se repete jamais, criam-se novos signos, novos espaços, novas forças e devires figurais."

O professor conta que quando Malevitch morreu, em 1935, foi sepultado no esquife suprematista que ele próprio desenhou e construiu, "com as três cores simbólicas": "O negro (signo de economia e de transfiguração), o vermelho (signo da revolução) e o branco (da acção pura). Retraído, despojado, como lápide, apenas um cubo com um quadrado negro. O Nada, o Vazio cheio, apenas."

Este "Auto-retrato" é um "brutal testamento pictórico", que oscila entre "a figuração icónica" (tradição russa) e um "Ecce-Homo austero e visionário onde a mão do pintor como que oculta, à maneira do auto-retrato maneirista de Bartolomeo Veneto (escondendo, com o punho, o seu labirinto), o segredo último do suprematismo". Daí, talvez, o subtítulo que acompanha este "ensaio funesto de auto-representação": "O Artista é um quadrado negro", escreveu Malevitch. "Trágico, sim", diz o professor, "mas indestrutivelmente aberto à memória do futuro".

 

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