Colecção Privada Podia ter escolhido outra obra, mas Joaquim Caetano diz que é o desenho a matriz do pensamento de Miguel Ângelo. A beleza do corpo humano é aqui metáfora e princípio organizador de todas as artes: da pintura, escultura e arquitectura Reza a história de que Miguel Ângelo não apreciava os corpos de Dürer, segundo o seu Tratado sobre a Proporção do Corpo Humano. Eram, dizia, como se fossem corpos mortos, "faltava-lhes tensão", explica Joaquim Caetano, director do Museu de Évora. Mas essa tensão era essencial na arquitectura, na escultura e na pintura, porque "o desenho dos corpos deve traduzir movimento, não enquanto movimento, mas enquanto vontade - essa é uma das matrizes do pensamento neo-platónico". Por isso, em Miguel Ângelo "o corpo humano é entendido sempre como uma metáfora, um princípio organizador de todas as artes". O tecto e o altar da Capela Sistina dão origem a uma série de desenhos preparatórios que, para Caetano, "traduzem um aspecto essencial do pensamento de Miguel Ângelo, que perpassa toda a sua obra desde a escultura, pintura e arquitectura - o elemento de tensão." Daí que tenha escolhido um desenho para quadro da semana na Colecção Privada. "A arte retrata a aparência, mas deve traduzir também a vontade além dessa aparência, a pulsão interior", continua. Neste caso, estes estudos são "esclarecedores desse processo de procura de uma força prévia a esse movimento". Nesta obra "consegue precisar-se a criação de efeitos de tensão, como se fossem movimentos interrompidos, pulsões a explodir a qualquer momento", diz. Caetano confessa que podia ter escolhido outro quadro. "Mas este desenho tem uma rotação, o perfil do rosto típico de desenhos de ensaio, de procura, em que as extremidades do corpo estão só esboçadas, em que é o turbilhão de músculos que dá forma ao corpo." Mas há outra razão: "O desenho é a ideia, o que se aproxima do pensamento criador, a pré-existência de algo. Está mais próximo do pulsar da criação a que chamaria de desenho interno, desenho de memória, ideia de concepção." Para Miguel Ângelo, "pinta-se com o cérebro e não com as mãos". Assistimos, então, ao "nascer pelos músculos, à formação de dentro; e nós, espectadores, conseguimos captar o fervilhar interior que dá origem a este gesto". Não se trata de reprodução: "A figura desaparece, não é um desenho de modelo, é um desenho que repete. O acto de desenhar é quase o acto de pensar da criação artística." Miguel Ângelo busca "uma espécie de beleza primordial - e a beleza está no corpo". E Caetano dá o exemplo do pormenor da Criação do Mundo, em que Deus toca o homem, na Sistina: "É a chama divina que dá origem ao homem. O corpo e a beleza são é criações de Deus." A pesquisa do corpo em Miguel Ângelo vem nesse sentido e os rostos demonstram-no: "Não são extraordinariamente expressivos", porque em Miguel Ângelo, o espelho das emoções não são os rostos, mas os corpos. "O gesto, a tensão, a pulsão, a força e a motivação dessa força são os corpos que traduzem." Tudo isto, diz Caetano, demonstra a imponência do trabalho de Miguel Ângelo. Era o homem que suplantou a grandeza da Antiguidade, o artista completo, "absolutamente insuperável". "Miguel Ângelo nunca morrerá, viverá sempre gloriosíssimo pela boca dos homens, pela pena dos escritores, mau grado a inveja a despeito da morte", escreveu Giorgio Vasari. E Caetano continua: "É ele que instaura a imagem da posteridade da obra. O que cada artista espera de si próprio é passar o próprio tempo. Miguel Ângelo é o homem que vence o tempo e vence a morte." |
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