Colecção Privada
Podia ter escolhido o celebérrimo "George Washington", de 1962. Ou o famosíssimo "Eu sei... Brad", de 1963. Não. O crítico de arte do semanário "Expresso" Alexandre Melo, 45 anos, optou antes por "Duas Pinturas: Dagwood", um grande óleo e magna sobre tela (228,6x162,6 cm), de uma colecção particular. "É um quadro paradigmático da atitude pop de Roy Lichtenstein em relação ao nivelamento e igualização do modo de lidar com os diferentes tipos de imagens. Neste caso, pondo em paralelo, e em condições de igualdade, uma pintura de BD e uma outra, à maneira de Lichtenstein, abstracto-expressionista". Dagwood Bumstead, revisitada por Lichtenstein, é uma personagem criada pelo norte-americano Chic Young para a série Blondie, iniciada em 1930. Para Alexandre Melo este quadro é paradigmático de toda a obra do artista: "Pode ser visto como uma 'fotografia' de dois fragmentos de duas pinturas que estivessem expostos lado a lado, num hipotético museu pop." Oriundo de uma família da classe média nova-iorquina, Roy Lichtenstein nasceu em 1923. Tendo partido do expressionismo abstracto, começa, ocasionalmente, nos finais dos 50 a fazer desenhos de imagens de BD, como o Rato Mickey ou Pato Donald. Uma década depois utiliza imagens da publicidade, que sugerem consumo e trabalhos domésticos. Em 1961, no Pasadena Art Museum, tem a primeira exposição num museu de arte pop. Alexandre Melo, professor de Sociologia da Cultura e Arte Contemporânea do Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), nota que "Duas Pinturas: Dagwood" é "justamente paradigmática da atitude pop ao derrubar as fronteiras da alta cultura e baixa cultura - neste caso, entre alta pintura e baixa pintura". "De resto", acrescenta Alexandre Melo, "este quadro é igualmente típico da sua maneira de pintar, uma imitação pictórica das técnicas gráficas de reprodução mecânica - mesmo quando, como é o caso nesta pintura, as pinceladas do expressionismo abstracto convivem com a sua estilização gráfica". Esta visão do artista interessa, particularmente, a Alexandre Melo por uma razão: "Com uma obra de uma grande coerência e regularidade, Lichtenstein faz uma espécie de revisitação pop da história de arte." Juntamente com Andy Warhol (1928-1987), de quem a colecção Taschen/PÚBLICO já editou um volume, Roy Lichtenstein é um dos nomes mais emblemáticos da arte pop. "Lichtenstein tem uma obra mais concentrada em termos formais, enquanto em Warhol a unidade de atitude ainda é mais extraordinária", diz Alexandre Melo. Roy Lichtenstein morreu em 1997, em Nova Iorque, quatro anos depois de uma grande exposição retrospectiva da sua obra no Guggennheim da Grande Maçã. |
« VOLTAR |