Colecção Privada
O quadro da semana - "Mulher a puxar as meias"


A beleza da mulher, o esplendor da nudez e o arrepio da carne são inegáveis nesta obra de Toulouse-Lautrec, um dos artistas que "mais marca o século XIX e prepara o que será o século XX", diz Bernardo Pinto de Almeida

Quem são Aristide Bruant, Jane Avril ou Yvette Gilbert? Personagens reais que Henri Toulouse-Lautrec levou para a pintura. Bernardo Pinto de Almeida, poeta e crítico de arte, diz que Lautrec foi o primeiro a deixar entrar o povo na pintura de uma forma radical. "O povo 'canalha' é a personagem central, o povo anónimo glorificado no contexto do 'cabaret'. Lautrec acaba com o heroísmo e isso é um dos princípios da pintura moderna."

De ascendência aristocrática, abandona esse estatuto para mergulhar na boémia parisiense, na vertigem das dançarinas do "can-can", no universo subterrâneo do Moulin Rouge. "É o pintor da vida moderna, como Baudelaire definiu, um 'dandy' que opta pelo sacrifício como preço a pagar pela realização de uma obra", diz.

A isso não será alheia a escolha do crítico para quadro da semana, "Mulher a puxar as meias", obra que não podia ser mais "lautrequiana" - "a beleza e o esplendor da mulher na sua nudez". "Lautrec transforma o acto de pintura num acto desejante. Nisso é completamente moderno."

Em Toulouse-Lautrec, a modernidade é, por isso, uma evidência. "É um dos artistas que mais marca o século XIX e mais prepara o século XX. E gera um movimento onde irá beber o Picasso da fase Azul e Rosa - vagabundos e arlequins -, Schiele, Klimt, toda a boémia vienense."

Porque a ascenção do modernismo, diz, "é o momento em que se deixa de representar o corpo, conceito clássico de unidade, de raiz grega e depois renascentista, para se evidenciar a carne". E explica: "Esta rapariga não está nua, mas mostrando a carne. É a própria carne que está nua. A rapariga é surpreendida num acto íntimo e não há qualquer cosmética em relação a este corpo. É o arrepio da carne."

O desarranjo da figura - cabelos soltos, toalha à volta do pescoço, o esticar das meias - mostra a carne nua. Neste caso, também Kokoschka, Francis Bacon ou Soutine podem ter "bebido" em Lautrec, na expressão "fisicalidade pura": "Em Bacon não há o corpo físico, mas o corpo em ferida, no sentido moderno. É um estilhaçamento do corpo e a erotização da carne. O que fica à vista já não é a beleza." E já não há o erotismo do corpo, "mas um erotismo mais baixo, mais 'reles', que vai além da pele, ao contrário da beleza marmórea do Renascimento. Em Schiele ou nos quadros do Bacon o que há? A pele arrepiada", diz.

"Tinha uma vontade de real, por vezes insuportável de olhar, como hoje o são as fotografias de Nan Goldin - é a evidência da carne, a vontade de rasgar, de tirar o véu, de mostrar a realidade", continua. Por isso demorou tanto a ser reconhecido: "Feria a ideologia burguesa, transformou a concepção burguesa do amor, contra a idealização da mulher."

Falta ainda falar dos cartazes - "podemos até dizer que não haveria Warhol sem Lautrec, não haveria pop art, cartazismo e publicidade" - ou da "ternura com que o pintor olha o ser humano, nunca de um ângulo superior". Como aqui, o seu olhar "nunca é 'voyeur', mas de intimidade, como na Nan Goldin ou na Cindy Sherman - é a instauração do acto democrático de ver, é um ver de partilha, é um ver e ser visto. Lautrec vê porque ama, vê porque habita."

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