Colecção
Privada
Depois de alguma irritação, entrou. "Para grande espanto meu, era necessário pagar, o que não é habitual neste tipo de instituições", explica o professor e ensaísta Eduardo Prado Coelho. Era uma galeria de Paris que expunha quadros de Yves Klein. "E a meio da tarde decidi-me a ir vê-los." Nas várias salas, havia telas de Klein "do período do monocromatismo azul". Prado Coelho descreve a situação: "Alguns adolescentes encostados às paredes em frente olhavam para telas de um azul metálico, numa homogeneidade sem falhas." Um "azul sem fim"? "Um azul destituído de sentimentalismo, impregnado de memória nocturna, cortante." Mas se "outros quadros do mesmo ciclo" apresentavam um granulado, "que os transformava em paisagens lunares", este, não - "este" é "IKB 2", uma obra de 1961 (IKB quer dizer "monocromias azuis"), que Eduardo Prado Coelho escolheu para quadro da semana. Ainda diante das obras de Klein, "víamos apenas a cor, delimitada por uma forma geométrica rectangular, que não era em si mesma particularmente significativa", explica. "A cercadura do quadro sem assinatura do pintor limitava-se a dizer que aqui começa o mundo das cores, aqui começa o reino do azul sem mundo." O que há, então, para ver num quadro liso, todo azul, até sem o granulado característico de Klein? Sentado no chão, Prado Coelho reconhece que "nestas circunstâncias existe um pouco de humor no facto de nos propormos olhar para 'o que não tem nada que ver'". Mas nesta experiência, "partilhada por outros - alguns jovens apaixonados de mão dada, sapatilhas de ténis, mochilas no chão -, sobrevinha uma sensação de estarmos a jogar um jogo em que o excesso de seriedade compensava o vazio das formas". Mesmo em algo que "não tem nada que ver", o professor descobriu alguma coisa por detrás (para além?) do azul. "Vinte segundos a olhar para este quadro de Klein eram de mais; dez minutos eram de menos." Porquê? "Pouco a pouco, o azul imóvel avançava para nós e absorvia-nos todo o pensamento. Não caminhávamos dentro do azul - ao contrário do que viria a suceder numa peça de James Turrell que vi na Fundação Cartier, numa exposição intitulada 'Azur'", explica. Aqui, "tornávamo-nos puro exterior de nós próprios perante este azul que não tinha dentro". E continua: "Podíamos 'ver' o mar, o 'céu', sentir que algo nos tocava do lado do invisível, nessa mancha de cor sem nome a que se chama alma." A situação caricata (de olhar para o "nada") e o humor desapareciam, então, "para entrarmos na mais séria e concentrada das experiências da alegria: uma solaridade remanescente do entardecer, quando o corpo se aproxima do mar anoitecido". Toda a pintura de Yves Klein, explica Prado Coelho, todas as suas "performances",
"pertencem à grande tradição daquilo que ele
próprio definiu como 'o salto no vazio'". "O que ele
designou como 'a arquitectura do ar' tem este lado de transparência
incandescente", diz. "Sentados, ao fim da tarde, no chão
de uma galeria parisiense, sentimos de repente uma enorme ternura pelos
companheiros que estão ao nosso lado. Cada um suspenso do azul
que o outro inventa para si próprio."
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