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Privada Kandinsky foi um pintor tardio - começou pelo Direito, que leccionou na Rússia. É daí que advém a sua "tendência para a sistematização e para a teorização", diz António Rodrigues, historiador e professor de história de arte contemporânea na Faculdade de Belas Artes, de Lisboa. Kandinsky tem, então, um "programa estético" e escreveu muitos ensaios que sustentam as suas teorias. "Do Espiritural na Arte" (edições Dom Quixote) é um deles. António Rodrigues foi o seu tradutor. É por isso que o professor elege esta obra, "Improvisação 26 (Remo)", "representativa desta fase, uma das mais fortes de Kandinsky" (de 1912 a 1921), e que antecede a entrada do pintor na Bauhaus, como professor. "Kandinsky deu ao expressionismo o que não era suposto o expressionismo ter - a abstracção. As suas primeiras pinturas são semelhantes às dos expressionistas alemães, mas Kandinsky trouxe uma dimensão teórica para a pintura e tornou o expressionismo abstracto", diz o professor. Apesar de não haver certezas históricas que confirmem que foi Kadinsky o inventor da abstracção, o pintor disse ter sido o primeiro a fazer uma pintura abstracta na história da arte, em 1910. É certo, diz António Rodrigues, que Kandinsky foi "um dos pioneiros da abstracção na pintura". Neste quadro há "formas e cores soltas no espaço, um movimento orgânico, quase pulsional, que tem a ver com o conceito de necessidade interior". Para Kandinsky, a pintura era "a expressão do interior humano, conflituoso e caótico, em constantes contradições". Há dois vectores que se unem nos seus quadros: as cores, "violentas, de ambiência exótica, devido às influências russas", e a música, a "voz da cor". O que é que isto quer dizer? Em Matisse, por exemplo, há uma forte ligação ao jazz - "são planos de cor e linhas, no espaço, que lembram os ritmos assimétricos do jazz". Mas em Kandinsky é diferente. "A relação com Arnold Schönberg [compositor] comprova-o - a música é por natureza abstracta, mas a sua música conceptual reflecte-se na pintura não-harmónica de Kandinsky, uma pintura de caos, como as composições de Schönberg." "Os tons irradiam no espaço", por isso a relação entre música e cor é tão importante. A "voz da cor" é a "pulsação interior, a radiografia a cores do interior humano, em conflito - a sua pintura é o reflexo disso". No caminho para a abstracção, e devido à necessidade de sistematização, Kandinsky reduz a pintura a três cores e três elementos (tese da obra "Ponto, Linha e Plano") - o amarelo, o azul e o vermelho; o triângulo, o rectângulo e o círculo. "Os três elementos resumem a pintura e, organizados de uma determinada maneira, sintetizam as necessidades expressivas que Kandinsky queria que a pintura produzisse", explica o professor. Este quadro é um exemplo: "Um espaço pictórico
caótico, com linhas circulares que cruzam linhas rectas, formas
que são cores, níveis de coloração sobrepostos
e não contornados (ao contrário dos fauvistas, que as contornavam),
como se a cor boiasse no espaço."
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