Colecção Privada
O quadro da semana
"Vista da Cidade para além do Sol"

Uma “poesia plástica” alicerçada no real.
É assim que Maria João Fernandes define a pintura de Hundertwasser

Hundertwasser foi um criador multifacetado. Para a crítica de arte Maria João Fernandes, era um “pintor visionário”. Além dos seus quadros, foi autor de manifestos, animador cultural, activista ambiental, arquitecto e um admirador de Gaudí. A obra “Vista da Cidade para além do Sol” (1955) apresenta com “grande destaque o motivo mais emblemático da sua pintura, a espiral, nela envolvendo a cidade, metáfora das construções humanas”.

Neste “labirinto vermelho”, está também presente um certo misticismo, “uma comunicação com o além”, que liga vários elementos naturais. Maria João Fernandes sublinha que esta associação “é igualmente representativa” de uma estética ligada “às energias vitais e cósmicas, fogo e luz, emblemassimultaneamente da natureza e do sagrado”.

Nascido em Viena, em 1928,Hundertwasser, “autor de uma poesia plástica alicerçada nas potencialidades mágicas do real”,viu a família ser perseguida pelo nazis durante a II Guerra Mundial. Apesar das vicissitudes, estudou na Academia de Belas-Artes de Viena e realizou a primeira exposição em 1952. Quase uma década depois, é reconhecido pelo seu trabalho numa retrospectiva na Bienal de Veneza. Em Portugal, a Fundação Calouste Gulbenkian chamou a atenção para este artista numa exposição única, organizada em 1979.

“A estética de Hundertwasser, que se apoia no fascínio de curvas de valor decorativo e simbólico sabiamente orquestradas em ritmos alucinantes”, tem sido associada “à Arte Nova vienense, ao simbolismo romântico francês e belga, à arte oriental e popular,
às miniaturas persas e hindus”. E continua: “Todas as referências são, no entanto, decantadas pelo génio tumultuoso do autor, que extrai uma muito particular, assombrosa e única síntese da realidade e do mistério, da magia e da fábula, da ingenuidade e da sabedoria.” Na opinião da crítica de arte, o seu “profundo sentido humano, juntando a criação artística, a animação cultural e a intervenção social, na defesa do direito à felicidade que passa pela harmonia com a natureza” foi o seu grande contributo. Hundertwasser interessou-se pelo quotidiano, pela arquitectura urbana, pela moda e pelos objectos. O resultado final deste interesse era “uma poesia transbordante de maravilhas, míriades de pequenos milagres visuais”. O livro “Hundertwasser — O Pintor das Cinco Peles”, à venda amanhã com o PÚBLICO, é uma das poucas obras em português sobre a vida e o trabalho deste artista, que morreu em 2000, no oceano Pacífico, a bordo do “Queen Elizabeth II”, de ataque cardíaco.

 

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