Colecção Privada
Como a maior parte das obras do catalão Antoni Gaudí, esta também está inacabada. "Ele estava obcecado com a catedral da Sagrada Família", explica o arquitecto Pancho Guedes, para quem Gaudí foi sempre "uma inspiração". Esta Cripta de la Colònia Güell (1898-1915), em Santa Coloma de Cervelló (arredores de Barcelona) era para ser uma igreja integrada num plano de urbanização de uma aldeia de operários têxteis, uma das muitas encomendas do conde Güell a Gaudí. Mas o projecto não se concretizou. Hoje não é uma igreja, "existe enquanto ruína", e "talvez por isso seja mais extraordinária, por estar inacabada". Aqui, Gaudí faz "a exploração de materiais toscos e pobres, como tijolo barato, bocados de pedra, restos de outros materiais", explica Guedes, "tudo para poder ser feito da forma mais económica". Mas a estrutura, diz, "é incrível", não só do ponto de vista arquitectónico, "como também decorativo". Gaudí, diz Guedes, "é uma personalidade embaraçosa para muitos arquitectos, como os neo-racionalistas, aqueles que desenham caixotes brancos, que ficam enervados com a sua obra". Por que razão isto acontece? Pancho Guedes diz que Gaudí faz "uma arquitectura expressionista e quando ele surge não há uma mudança, mas uma espécie de ressurreição". Considerado "louco, artista maldito, os historiadores eram muito agressivos com a sua obra, mas não há dúvida que ele terá enormes influências sobre o movimento moderno". Por exemplo: "Le Corbusier, quando visita Barcelona, fica impressionado com o tecto das salas de aula da Sagrada Família"; "e também Gropius fica extasiado com a obra de Gaudí, ele, que já tinha passado por um período expressionista". Todas as suas obras "são obras-primas". Na Cripta de la Colònia Güell, Gaudí fará os primeiros testes para os aplicar mais tarde em larga escala na Sagrada Família. Não foi a primeira vez. Pancho Guedes conta que, "a determinada altura, aparece um americano que perde a cabeça com as obras do Gaudí e lhe encomenda um hotel para Nova Iorque". Esse projecto, explica, nunca saiu do papel, mas foi aí que "Gaudí desenhou as torres que depois usou na Sagrada Família". A inspiração para essas torres, veio, diz Guedes, de uma viagem ao norte de África, em mais uma encomenda do conde Güell. Gaudí foi "influenciado pela construção de barro das casas argelinas, e começa a aplicá-las aqui na Cripta". Gaudí tem cerca de 15 obras em Espanha, 10 em Barcelona. Pancho Guedes não concorda que a cidade seja um museu de Gaudí. "Quando Barcelona começou a abrir-se ao mundo, no final dos anos 60, procurou-se um símbolo da cidade. Mas ele já lá estava, e era Gaudí. Começaram a limpar-se fachadas e a recuperar-se prédios. É uma pena olhar hoje para a Casa Milà, também chamada 'La Pedrera': tinha uma 'patine' fantástica, estava suja como uma pedreira, parecia um fóssil, uma coisa estranha, tectos feitos de bocados de vidro, varandas com muita vegetação. Hoje está tudo comercializado."
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