Colecção Privada
O quadro da semana
"O Viandante Sobre um Mar de Névoa"

Para Sílvia Chicó, a obra de Friedrich revela “uma atitude filosófica perante a natureza”

Segundo Caspar David Friedrich (1774-1840), “Deus está em toda a natureza, no mínimo grão de areia”. Esta convicção foi o ponto de partida para tentar representar a presença divina nas suas obras. Para Sílvia Chicó, professora da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, o quadro “O Viandante Sobre um Mar de Névoa” demonstra “a vontade que o artista sempre sentiu de alcançar o cosmos através da inserção na paisagem”.

Na tela, encontra-se representado um homem no alto de uma montanha, de costas para o espectador, quase como “um deus contemplando a terra”. A figura masculina “poderá tratar-se da invocação de alguém recentemente desaparecido” ou, “como também é frequente na pintura de Friedrich, de um auto-retrato”. O tema não é novo, mas ajuda a definir o trabalho do artista como um paradigma do Romantismo alemão que, de acordo com Sílvia Chicó, “ultrapassa amera narratividade literária”. Nascido na pequena cidade portuária portuária de Greifswald, Friedrich iniciou os seus estudos em arte na Academia de Copenhaga, evidenciando, desde logo, um gosto por desenhar paisagens. Aquele que também ficou conhecido como “o inventor da paisagem trágica” situou a sua pesquisa pictórica na reflexão e na subjectividade, afirmando que “o artista deve pintar não só o que vê diante dos olhos, mas o que vê dentro de si próprio, sem o quê, não vale a pena pintar”. O contributo de Friedrich para a história da arte foi, segundo Sílvia Chicó, “determinante, embora por muito tempo esquecido”, podendo entender-se o seu trabalho “como uma missão mística, em que o pintor leva a arte a um paroxismo”.

As paisagens, quase sempre montanhosas, revelam “uma atitude filosófica perante a natureza” que aproximam Friedrich de muitos artistas contemporâneos. Talvez por isso, “O Viandante Sobre um Mar de Névoa” seja um quadro “antecipador”, ou seja, uma obra que, para a professora da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, “anuncia uma sensibilidade que se estende do Impressionismo até à abstracção cromática”.

Caspar David Friedrich transportou a poesia para o espaço físico e imprimiu expressão e uma religiosidade livres de qualquer denominação. Em 1821, admitiu ao poeta russo Zhukovsky: “Tenho de me render ao mundo que me rodeia, unir-me às suas nuvens e pedras, para poder ser aquilo que sou. Preciso da solidão para poder comunicar com a natureza.” Este desejo está exposto na pintura escolhida por Sílvia Chicó, na paisagem que não é mais do que “uma projecção psíquica”, nas montanhas que simbolizam “espiritualidade”, e no homem de costas, “alguém que o artista situa num mundo transcendente”.

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