Colecção
Privada
Marcel Duchamp, pintor francês associado ao estilo surrealista e dadaísta, teve uma obra relativamente pequena. Para Nuno de Melo Gonçalves, psiquiatra, poeta e um profundo admirador do artista, os motivos para este facto são claros: “Primeiro, não queria repetir-se; segundo, queria viver trabalhando o menos possível, como celibatário, dispondo de grande liberdade, a ponto de chegar a dizer que a sua principal ocupação era respirar.” Aquele que também ficou conhecido por “santo Duchamp” conseguiu, mesmo assim, deixar o seu cunho na arte vanguardista da segunda metade do século XX. A sua “obra principal” é, diz Nuno de Melo Gonçalves, “O Grande Vidro”, também conhecida por “A Noiva Despida pelos seus Celibatários, Mesmo”. A escolha deste trabalho deve-se à “originalidade, ao tema e ao lugar que ocupa na vida do artista”. Foi durante a sua estada em Munique que, em 1912, Marcel Duchamp realizou os estudos preparatórios para “O Grande Vidro”. Segundo o psiquiatra, esta obra, um “ícone do século XX”, encontrase dividida em duas partes que, no seu todo, fazem prevalecer “um ambiente de maquinaria, não isento de um certo lirismo”. A metade inferior “é a zona dos celibatários” e nela podem observar-se vários elementos como, por exemplo, um triturador de chocolate (no centro). Esta figura tem, aliás, uma importante conotação erótica na obra do artista, sendo frequentemente associada ao acto sexual. Já na outra metade, a superior, encontra-se “a noiva, como que suspensa”. Para compreender “O Grande Vidro”, que possui aproximadamente o tamanho de uma fachada de loja, Nuno de Melo Gonçalves recorda “a indiferença estética” aspecto que parece estar reflectido na personalidade e obra do artista Duchamp era um “homem de grande inteligência, muito agradável no convívio e muito independente de espírito, não sabia guiar nem nadar, e considerava o erotismo como coisa de maior importância”. A política “não lhe interessou” e o seu único foco de atenção parecia ser o xadrez: gostava de inventar novas estratégias e colocar interrogações improváveis para a prática do jogo. E é exactamente nesta “actividade obsessiva” que o artista terá encontrado inspiração para alguns dos seus trabalhos. Duchamp, que< começou a tornar-se mediático na década de 60, constituiu uma referência para a maioria dos nomes ligados à “pop art”, mas “expôs muito pouco”. Foi uma figura polémica por questionar a arte de pintar,sendo a reprodução de Mona Lisa com bigode um dos seus trabalhos mais ousados. Para Nuno Melo de Gonçalves, Duchamp foi, acima de tudo, “um fenómeno da recepção: um ídolo”.
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