Colecção Privada
O quadro da semana
"Rebelde Mortalmente Ferido Matando a Sua Sede"

Delacroix pinta "varrendo o céu, a história, a morte - e a urgência do desenho toma conta do quadro", diz Jorge Silva Melo

Só o viu este Inverno, numa exposição em Karlsruhe, Alemanha. Mas não se esqueceu ainda deste "trabalho pequeno, soturno, literário, denso, escuro". É assim que o actor, encenador e director dos Artistas Unidos, Jorge Silva Melo, descreve aquele que elegeu para quadro da semana de Eugène Delacroix: "Rebelde Mortalmente Ferido Matando a Sua Sede", de 1825.

Olha agora, "muitas vezes" para a "reprodução medíocre" que comprou, "postal, como tantos, empastelado deste quadro", retrato de um "moribundo que ainda tenta beber, na volúpia de um colorido" que, explica Silva Melo, "vem de Ticiano e de Veneza, na construção tão simples do triângulo com que ainda a vida se ergue e não rasteja, naquele vermelho que escorre da boca do rebelde e tinge a água, na transparência verde da poça infecta, na noite profunda, noite azul daquela distante planície é quem mais me acompanha, a sua tristeza sem melancolia, a sua extrema dignidade perante a dor".

É um trabalho "relativamente juvenil de quem foi mais do que muito precoce" (isto, diz, "se pensarmos que tinha 20 e muito poucos anos o Delacroix da 'Barca de Dante', obra-prima arrebatada e manifesto"). Delacroix tem, nesta altura, 27 anos e já pintou "majestáticas" composições de "sabedoria imensa", como "Massacres de Quios" ou a "belíssima 'Aspasia', inquieta como a [Ingrid] Bergman em Rosselini", diz.

Ticiano é uma referência para o jovem e audaz pintor, mas é a posteridade que Delacroix marca, indelével. Como, por exemplo, o cinema. "Se, no final dos anos 60, se falava de Câmara-Stylo, se propagandeava a montagem-cut, um cinema manual tão fácil, tão veloz como a Bic, não era a esta pintura, suavemente nua de sombras, brutalmente voluptuosa que se queria responder?", pergunta Silva Melo. Delacroix mantém, por isso - e "como Godard o quis" - "a frescura do esquisso na obra acabada, a imprecisão do ensaio, a procura do tom".

Haverá outros (muitos) trabalhos: "Esplendorosas argelinas que nem um dia chega para analisarmos, os fogosos cavalos, ai os tigres!", refere. Mas é neste moribundo e neste "negrume que uma poesia mais interior se desenha, mais nocturna". É a poesia que leva Delacroix "à maior rapidez, àqueles cristos quase sem corpo e só carne ou a rapidez da 'Batalha de Taillebourg', o mais veloz dos épicos como o 'Falstaff' de [Orson] Welles, badaladas da meia-noite."

Uma vez mais, o cinema. E, uma vez mais, as referências: o gesto de Delacroix, "sabedor, conhecedor de tanta pintura que veio de trás, Rubens, claro, a curva imparável das cores, Ticiano, sempre". E pergunta ainda: "Que gesto é este que perdura e se transforma, gerando Picassos e Cézannes, ecoando nos 'Tigres' luxuosos de [Júlio] Pomar, apoteoses de construção, composição, cor, rapidez, mundo novo?"

Recorda "versos eléctricos" de Luiza Neto Jorge, "essa parisiense" que diz: "Vi num traço a lume oposto/ao ponteiro das horas/ a cauda de um fossil/ varrer o céu". Para Silva Melo, Delacroix pinta "varrendo o céu, a história, a morte - e a urgência do desenho toma conta do quadro".

Legenda: 1825, óleo s/ tela (32,5x40,7cm) Basle, Öffentliche Kunstsammlung Basel Kunstmuseum

 

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