Colecção Privada
Discreta homenagem a Ticiano, "todas as componentes do uniforme burguês", como em Manet, Tissot ou Moreau - esta obra é um auto-retrato "épico" de Degas, diz José Blanco O administrador da Fundação Calouste Gulbenkian escolheu para quadro da semana esta obra de Degas, "Auto-retrato", sobretudo porque se encontra no Museu daquela Fundação. E porque há histórias sobre ele que só os arquivos da Gulbenkian podem "contar". Por exemplo? "Na grande retrospectiva de Edgar Degas apresentada em 1989 nas galerias do Grand Palais em Paris (depois apresentada no Museu de Belas-Artes do Canadá e no Metropolitan Museum de Nova Iorque), 'Auto-Retrato' figurava isolado, em lugar proeminente, logo à entrada da exposição. Dir-se-ia que o pintor tirava cortesmente o seu chapéu aos visitantes da exposição, desejando-lhes as boas-vindas", conta José Blanco. É esse o movimento que emana do quadro, pintado em 1863 e inacabado. Quem é aquele homem, além de Edgar Degas? "Um senhor", responde o administrador da Gulbenkian. Confirma-se: "O quadro revela-nos um senhor a cuja grande elegância se aliam um olhar sonhador e um gesto de simpatia, que estão em contradição com o feitio, reconhecidamente brusco e taciturno, que Degas revelaria mais tarde." Degas regressava a Paris, vindo de uma temporada em Itália. Consta que este período foi um dos mais felizes da sua vida. "Era um homem novo, 30 anos, cheio de confiança em si próprio, na sua posição na sociedade e no seu próprio futuro", continua José Blanco. Essa tendência taciturna estará depois explícita em quadros como "O Absinto" (1876). A captura do momento presente e a impressão do real conferem às suas personagens rostos tristes - "tristeza provocada pelo facto de a representação em redor delas perder rapidamente a sua claridade; os reflexos das sombras são a expressão da alienação" (pág. 32). Mas, em "Auto-retrato", Degas ainda não entrou nessa fase. Esta obra, diz Blanco, foi comprada por Gulbenkian "em 1937, à sobrinha e herdeira de Degas, Jeanne Fevre, por intermédio do galerista André Weil". Os arquivos do Museu têm, contudo, mais segredos: "O preço de venda foi seis mil libras esterlinas." Está também comprovado que o quadro não tem "qualquer retoque nem qualquer repinte". "Auto-retrato" de Degas, "pintor considerado moderno no seu tempo, tem uma composição clássica, reflectindo inequivocamente a tradição retratista do século XVI". José Blanco explica que, a propósito desta obra, escreveu um crítico: "[Degas] apoiando-se na lição dos antigos mestres, utilizando - ou melhor dizendo exaltando - o que poderia haver de mais prosaico, como a sobrecasaca e a gravata preta, a camisa branca, o chapéu-alto, as luvas de camurça (homenagem discreta a Ticiano), numa palavra todas as componentes do uniforme burguês (que será o de outros retratos de pintores como Manet, Tissot ou Moreau), consegue fazer um 'retrato épico' de si próprio."
|
« VOLTAR |