Colecção Privada
O quadro da semana - "S. João Baptista"


O mais conhecido é "Gioconda". Mas a escolha de Dalila Rodrigues recaiu em "S. João Baptista". Utilizando o "sfumato", Leonardo convoca nesta obra toda a ambiguidade da sua extraordinária pintura

"A experiência é a mãe comum das Ciências e das Artes", dizia o pintor renascentista Leonardo da Vinci (1452-1519). Esta é uma das ideias centrais do seu pensamento que "teve consequências profundas em toda a sua obra e especialmente na pintura", explica a historiadora de arte, e directora do Museu Grão Vasco em Viseu, Dalila Rodrigues.

É na "fé no valor da experiência e da observação directa" e nas "incessantes actividades científicas e artísticas que radica a singularidade" da obra de Leonardo. "À construção geométrica do espaço e à perspectiva linear - questão central da pintura do Renascimento - o artista opôs a perspectiva aérea, cuja base é empírica e experimental", diz Dalila Rodrigues.

Para a investigadora, "Leonardo constrói o espaço através de um sistema de planos horizontais ritmados em profundidade e da alternância construtiva de tons cromáticos claros e escuros, numa delicadíssima graduação de valores lumínicos - o 'sfumato', talvez a mais célebre das suas conquistas técnicas para a pintura", explica Dalila Rodrigues. E "S. João Baptista" é exemplo disso - daí a sua escolha para quadro da semana.

Mas, afinal, o que é o "sfumato"? É uma técnica que, diz, "sugere a presença de uma névoa, ou de um véu quase imperceptível, que parece não apenas envolver as paisagens mas também as figuras". E é, subtilmente, com essa névoa que Leonardo "não só conquista a dimensão do mistério para o plano da representação, como a torna - ao interpor-se entre pintura e espectador - aparentemente inacessível".

"S. João Baptista" (uma das suas últimas obras) é "consequência das suas observações e experimentações", onde a "técnica do 'sfumato', que atinge um requinte extremo na 'Gioconda' e no fundo de paisagem que a integra, assume no 'S. João' a dimensão da síntese - entre a figura e o espaço da representação".

A dimensão de mistério em Leonardo é representada pela "androginia das suas figuras". Ou seja: o "sorriso de 'Gioconda'" e o "sorriso e o gesto de 'S. João Baptista' são exemplos emblemáticos" desse mistério na pintura de da Vinci. Facto comprovado por "subtis estados de alma, ambiguidades expressivas, que se traduzem tanto na expressão inquietante dos rostos, quanto nos gestos".

Como é que esse mistério se vê em "S. João Baptista"? "Num fundo escuro e praticamente monocromático, emerge a figura da sombra, cuja forma se esclarece com luz. Mas essa figura tanto pode entrar da luz para a sombra, como sair, da sombra para a luz, porque os contornos da forma são diluídos em gradações subtis ou transições entre luz e sombra."

É esta "ambiguidade (extensível à androginia do rosto, ao sorriso e ao gesto) que dá à pintura a expressão do mistério". "E é talvez a própria essência da arte que Leonardo convoca com esta pintura, bela e inquietante", sublinha Dalila Rodrigues.

Leonardo da Vinci é, por isso, um homem fora de tempo: "Influenciando todos os seus contemporâneos, antecipou, em séculos, as grandes questões que, no plano da representação - e especialmente no do espaço -, seriam consideradas por outros pintores, como Caravaggio, Velázquez ou Rembrandt."

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