Colecção Privada
O quadro da semana - "A Montanha de Sainte-Victoire e o Chatêau Noir "

Cézanne criou uma obra de referência, pioneira do cubismo. Este quadro, diz a professora Sílvia Chicó, é a "súmula de experiências e inovações do artista"

Sem Cézanne, "a história do espaço na pintura teria sido outra". Porquê? Sobretudo porque "radica na sua obra um dos mais importantes pilares da revolução pictórica no Ocidente, a partir da qual as premissas da relação espacial dentro da pintura se alteraram completamente", diz Sílvia Chicó, professora na Faculdade de Belas Artes de Lisboa.

Daí a escolha de "A Montanha de Sainte-Victoire e o Château Noir" (1904-1906) para quadro da semana na Colecção Privada, obra em que existe algo que revela "o legado fundamental" de Cézanne. Como? "Reagindo à 'imprecisão' da imagem impressionista, Cézanne sentiu necessidade de definir contornos, de esquematizar formas", explica a professora. E conseguiu-o através da "geometrização, da modelação através da cor, da deformação formal, por razões ditadas pela lógica da própria pintura".

Cézanne é conhecido pelas inúmeras pinturas da mesma montanha, a Sainte-Victoire. O que é que esta paisagem representa na sua obra? Para a professora, "a simbologia da montanha pode não ser tão importante". Foi um "pretexto para que se processasse a transformação pictórica que o artista iniciou, planificando e clarificando a representação do real, desmultiplicando pontos de vista e tratando o volume através da cor". Este quadro revela também "um lirismo e uma liberdade pictórica assinaláveis".

Olhando para a obra, as massas verdes em primeiro plano, "que quase invadem a totalidade do quadro, são uma abstracção". E sente-se também "um clima quase romântico, em que a montanha nos aparece envolta em brumas". Mas é à esquerda do quadro que "se revela a contribuição cézanneana para a revolução cubista".

Para Cézanne, a natureza deveria ser representada segundo o cone, o cilindro e a esfera - "é no tratamento geometrizante dos planos da casa, pintados a ocre e a amarelo, na abstractização da imagem, que lembramos isso". E ao "deformar a representação da realidade para a reorganizar segundo outra lógica, Cézanne constrói um espaço que poucos anos mais tarde dará origem ao Cubismo (cézanneano, analítico e sintético) de Braque e Picasso". É nesse espaço, diz, que o pintor "estilhaça a grelha da perspectiva".

Este quadro revela, por isso, "uma súmula de experiências e de inovações que o artista produziu ao longo da vida". Mas, continua a professora, "acrescenta-lhe um quase desprendimento, uma liberdade formal".

A sua obra pioneira não deixou ainda de ser "uma referência". "E breves anos após o seu desaparecimento cumpriu-se a sua ambição - a descoberta de um 'grau zero' da pintura". Foi, contudo, "quase sempre incompreendido": "Sofreu na pele a consequência da sua personalidade, que tantas vezes o fez ser recusado nas exposições do 'Salão de Paris'. A sua pesquisa isolada, o seu pioneirismo causaram-lhe amargura e sofrimento."

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